Ziraldo, 80: Uma vida dedicada ao humor, à literatura e às artes

Raphael Vidigal - Do Hoje em Dia
Publicado em 22/10/2012 às 10:56.Atualizado em 21/11/2021 às 17:25.
 (Ivaldo Cavalcante - 06/03/2012)
(Ivaldo Cavalcante - 06/03/2012)

Do porte de seus 80 anos – ou quase, na verdade, o aniversário será devidamente comemorado na próxima quarta-feira (24) – , o cartunista, chargista, escritor e jornalista (para ficar "no básico") Ziraldo é um moleque atrevido, maluquinho, menino. Obediente à sua própria escrita, afirma: "Tudo na vida tem limite, isso de 'perder o amigo mas não a piada' é, em si, uma piada. Ninguém é sozinho na vida. É preciso ter coragem para dizer as verdades e aguentar as consequências".

E, antes de falar da baliza dos 80, mote da entrevista, dá um pitaco a respeito do humor vigiado, politicamente correto, que espreita à vontade: "Na época do Pasquim criamos várias charges sobre a tragédia – que se transformou no filme, aliás, belíssimo, 'Os Sobreviventes dos Andes' –, e o Quino, muito meu amigo, inventor da Mafalda, disse que era um absurdo fazer graça com aquilo, ao que retruquei com um cada qual tem o seu próprio absurdo, o humor tem um limite peculiar", reflete.

Sobre a arte

Nesses 80 anos de vida, dos quais mais da sétima parte foram dedicados às artes, Ziraldo pôde tirar conclusões propícias a respeito do tema: "Arte é a atividade da qual o homem prescinde para sobreviver, no entanto para se viver dotado de alma e espírito a arte é imprescindível", e insatisfeito consigo, recorre ao auxílio do saber dicionaresco: "capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria", conclui.

"Gênios"

Para Ziraldo, "Pablo Picasso é o maior inventor da arte de pintar, pois dominava todas as possibilidades do pincel", o que, prossegue o mineiro de Caratinga, não seria mais determinante na arte contemporânea.

"Todos que expõem no Inhotim são gênios, muito criativos, mas não precisam saber pintar, não é necessário, pois se valem de uma chamada arte conceitual, explicativa, que dispensa a definição do Aurélio. Mas tudo isso também é discutível", alicerça.

Transportando-se para o universo cinematográfico, o inquieto Ziraldo dá o seu palpite sobre a convivência plena entre arte e entretenimento: "Se é possível? Claro! Basta ver um filme de Chaplin, assistir a uma boa peça de teatro", confirma.

"Não queria comemorar", diz ele

Em relação aos nomes que influenciaram sua trajetória, Ziraldo é direto e afiado: "Sem dúvida, o cartunista romeno Saul Steinberg e o franco-húngaro André François. Não só a mim, mas a toda uma geração", assume.

Em clima de balanço, mas numa esfera mais pessoal, mesmo em um ano de comemorações, com a chegada aos 80. Ziraldo se lembra das perdas sentidas neste 2012. Caso de Millôr Fernandes, que partiu em março deste ano, aos 87 anos. "Foi o sujeito mais inteligente que conheci, pena que não soube usá-la (a inteligência) para questões afetivas. Mas, como pensador, pode escrever aí, foi o homem mais importante da minha vida!".
E esbalda-se em calorosas risadas que se estendem até Ivan Lessa (que faleceu em junho, aos 77 a nos), outra ausência sofrida.

Chico Anysio

E não só. Um dos grandes pilares do humor, homenageado por Ziraldo em livro que compila ilustrações de todos os personagens, o criador do Professor Raimundo (entre dezenas de outros) também é referendado com as honrarias devidas.

"Só existiram dois fenômenos no Brasil: o Chico Anysio, maior ator do mundo, e o Pelé! Os dois são irrepetíveis. Esse Messi até tenta chegar perto, mas não tem carisma. E esse menino Neymar, cuidando-se, pode ser o segundo melhor da história, porque o primeiro, não tem jeito, já tá definido", afirma Ziraldo, ao cair com malemolência no campo esportivo.

Defensor da importância da literatura, Ziraldo mostra-se infeliz com os rumos que o planeta vem tomando em alguns sentidos: "A televisão não perpetua ninguém, tanto é que já estão esquecendo o Chico. Algo inacreditável pela carreira daquele homem!".

Festejo

E prossegue: "O mundo só evoluiu por causa do livro, ele mantém as ideias acesas. Depois dele, houve uma mudança na humanidade da água para o vinho. Gutenberg introduziu a Revolução da Imprensa e em 500 anos chegamos na Lua, um salto incrível".

Sobre as comemorações da efeméride, as oito décadas de Ziraldo, finaliza: "O negócio é o seguinte, falei que não queria festa para não incomodar as pessoas, mas como elas já estão se incomodando, estou achando ótimo!", sorri, com inegável flexibilidade nos dentes, duros demais para o tempo, como um aforismo de Nietzsche.


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