Cine Theatro Brasil

‘Buscamos fortalecer a produção brasileira e, principalmente, a mineira’, afirma Eliane Parreira

Diretora do espaço na região central de BH fala sobre trajetória de três décadas na gestão cultural

Gabriela de Castro*
gabriela.castro@hojeemdia.com.br
Publicado em 23/03/2026 às 07:00.
 (Maurício Vieira)
(Maurício Vieira)

Ampliar o diálogo com artistas independentes da cidade, democratizar o acesso à cultura e manter viva a memória de um espaço com mais de 90 anos de história. Essas são algumas das missões que vão guiar os trabalhos do Cine Theatro Brasil em 2026. Localizado na Praça 7, no Centro de Belo Horizonte, o prédio que hoje possui nove andares é considerado um dos centros culturais mais antigos da cidade. 

Neste ano, o espaço completa 13 anos de reabertura após mais de uma década fechado, primeiro por causa de negociações para venda do prédio e depois para revitalização. Desde a reinauguração, o Cine Theatro recebeu 2,5 milhões de visitantes, com um público médio de 320 mil pessoas por ano. É neste cenário que Eliane Parreiras, que acaba de deixar o cargo de Secretária Municipal de Cultura de BH, assume a direção executiva do centro cultural.

Em entrevista ao Hoje Em Dia, Eliane conta um pouco sobre a trajetória de três décadas na gestão cultural e como essas experiências dialogam com os planos para essa nova etapa à frente do Cine Brasil. Ela também fala sobre a história do equipamento e das estratégias para manter viva a memória do patrimônio.

Como surgiu o interesse em trabalhar com gestão cultural?

Veio da formação que recebi em casa. Sou filha de dois intelectuais, então sempre houve a formação desse hábito cultural em casa, que foi fundamental. Apesar de eu ter nascido em BH, minha família morou em Brumadinho durante 10 anos quando eu era criança. Todos os fins de semana a gente vinha a BH para frequentar espaços culturais, e nesses momentos eu tinha contato com cinema, literatura e diversas atividades educativas. Ao mesmo tempo, lá em Brumadinho, eu frequentava o congado. Foi assim que comecei a ter consciência que a cultura é grande e plural, porque ela está em todas as linguagens.

Quais foram os principais aprendizados ao longo desses 30 anos de carreira?

Ter reunido experiências tanto na iniciativa privada quanto no Poder Público. Eu iniciei minha carreira no Museu de Arte da Pampulha, em um momento em que o museu ainda estruturava a equipe e a organização. Depois, recebi um convite para trabalhar no Palácio das Artes, o que me proporcionou uma visão muito interessante não só das relações institucionais, mas da parte de programação.

Depois, trabalhei sete anos no Instituto Cultural Usiminas, que nesse período era a maior investidora em cultura em Minas. Lá, recebi um convite para trabalhar no Circuito Cultural Praça da Liberdade no momento em que ele estava sendo implementado. Em 2010, fui convidada para assumir a Secretaria de Estado de Cultura, que foi uma honra enorme. Após quatro anos, trabalhei em consultorias para os governos dos estados de São Paulo e do Espírito Santo. Mais para frente, em 2022, recebi um convite para assumir a Secretaria Municipal de Cultura de BH. Foi uma experiência extraordinária, porque a gestão local é muito complexa, exige níveis altíssimos de participação social, ainda mais em uma cidade caracterizada por movimentos culturais espontâneos, como o Carnaval, e que tem uma característica muito grande de políticas públicas de décadas, como os centros culturais, que são frutos do orçamento participativo.

Agora, você está assumindo a direção executiva da Associação Cine Theatro Brasil. O que este espaço representa para a cultura de BH? Quais potencialidades você enxerga nele?

Este espaço já surge, na década de 30, de uma forma muito ousada. Na época, Belo Horizonte tinha cerca de 40 mil habitantes, e ele já nasce do desejo de verticalização do centro, e durante muito tempo foi um dos prédios mais altos da cidade. Ele já tinha o conceito de centro cultural, com a ideia de ser um cine teatro e também abrigar lojas, restaurantes e bares. Ele já nasce com uma potência enorme, porque ele foi o maior cinema do Brasil durante um período. Apesar de estar localizado no centro, o público que frequentava nesse início era bem elitizado, mas ao longo do tempo foi sendo apropriado também por outras camadas sociais. 

É um teatro de mil lugares com uma acústica incrível, mas que tem também um fosso, então pode ter ópera e outras pequenas ações. Tem o teatrinho de câmara também, que funciona como cinema. Além disso, ele possui outros ambientes que possibilitam outras programações culturais, como as galerias e as varandas (que foram utilizadas no Carnaval, por exemplo). É um espaço extraordinário, e que tem uma história muito significativa para a cidade.

O Cine Theatro Brasil se desenvolve em uma época em que o cinema de rua era muito comum em Belo Horizonte. Apesar desses espaços ainda existirem na cidade, houve uma redução após esses estabelecimentos se abrigarem dentro dos shoppings. Existe uma programação que busque resgatar esse passado como cinema de rua?

Sim, a gente vem nesse movimento de recuperar também esse papel no cinema, mas muito como uma curadoria. A gente tem a “Segunda no Cine”, que é às segundas-feiras e tem a exibição de filmes no teatro de câmara. Em alguns momentos, a gente tem as sessões no Grande Teatro Unimed, que são sessões especiais. Um exemplo foi o Mágico de Oz, que exibimos com uma banda tocando a trilha sonora ao vivo. 

Temos recebido também programações de mostras de cinema, principalmente porque estamos vendo o cinema brasileiro se destacando em premiações internacionais, então as produções nacionais têm sido muito debatidas e isso tem gerado um cenário muito positivo para o cinema. Ano passado, durante a mostra CineBH, tivemos a pré-estreia do Agente Secreto, que a fila ocupou quarteirões e foi parar na rua Rio de Janeiro.

Você pontuou que a valorização do cinema brasileiro tem chamado a atenção do público para produções nacionais. Como esse fator influencia as programações deste ano?

Nesse momento estamos prospectando, porque temos as demandas de produtores que nos procuram para alugar o espaço e trazer espetáculos, mas temos os projetos próprios, que é onde entra a curadoria. 

Então são nessas produções próprias que buscamos fortalecer a produção brasileira e, principalmente, a produção mineira. No Carnaval, por exemplo, fizemos o Carnavaranda, em que as atrações se apresentaram na varanda do prédio e o público conseguia assistir da rua. Nesta curadoria, tivemos a Adriana Araújo, a Aline Calixto e o Orisamba. 

Então há uma preocupação de jogar luz sobre essa produção extraordinária de BH, que tem uma qualidade muito grande e que gera renda, movimenta a arte na cidade. Equilibramos essa programação própria, com destaque para produções locais, com as demandas externas. 

Você mencionou que BH tem muitas manifestações culturais espontâneas. Como acontece esse diálogo de negociação com artistas e coletivos que ainda não tem uma assessoria e produção mais técnica, mas que também querem espaço?

Hoje a nossa intenção é ampliar a conversa exatamente com esses movimentos. Hoje, acho que isso já acontece nesse equilíbrio entre as demandas externas e a curadoria. Então, por exemplo, em programações com quatro atrações ao longo do dia, vai haver a oportunidade para um artista que está iniciando. Tenho certeza que, em função do cargo que eu estava antes, muita gente vai me procurar para apresentar propostas, e estamos nessa intenção de somar forças. 

O Cine Theatro Brasil já produziu alguns eventos gratuitos que ocuparam o quarteirão fechado da Rua Carijós. Existe a previsão de mais programações nesse estilo?

Sim. A gente tem um programa anual, que é o Quarteirão das Artes, então ele está previsto para esse ano. Esse ano a gente quer trazer uma novidade, que é essa programação externa dialogando com a programação interna. Ainda estamos pensando exatamente como vamos fazer, mas deve entrar na programação do Quarteirão das Artes. Além disso, temos o “CriançARTE”, que leva formação artística para o público infantil em praças e espaços públicos, e o “Praça Sete Instrumental”, que acontece na porta do cine teatro e busca dar um fôlego para o público que circula pelo Centro.

*Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca

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