ENTREVISTA

‘Busco uma sonoridade não tão óbvia, mas tento sempre ser universal’, afirma Dado Villa-Lobos

Ex Legião Urbana, músico fala sobre a busca pela autenticidade artística no álbum “O Que Você Quiser”, que levou 4 anos para ser concebido, e as andanças por BH

Gabriela de Castro*
gabriela.castro@hojeemdia.com.br
Publicado em 24/08/2026 às 07:30.Atualizado em 24/08/2026 às 07:41.
Dado Villa-Lobos acumula diversas experiências no meio, da participação na banda Legião Urbana à produção de trilhas sonoras de importantes obras do audiovisual (@bossa_bossa_bossa/Divulgação)
Dado Villa-Lobos acumula diversas experiências no meio, da participação na banda Legião Urbana à produção de trilhas sonoras de importantes obras do audiovisual (@bossa_bossa_bossa/Divulgação)

Cantor, compositor e produtor, Dado Villa-Lobos é dono de uma longa trajetória musical. Aos 61 anos, o artista acumula diversas experiências no meio, da participação na banda Legião Urbana à produção de trilhas sonoras de importantes obras do audiovisual, como a série “Bom Dia, Verônica” e o documentário “Pro Dia Nascer Feliz”. 

Todo esse repertório, mas sem deixar a busca por autenticidade, Dado explora no álbum “O Que Você Quiser”, lançado em maio deste ano. O disco mistura diversas influências musicais (como punk rock, pop rock e indie) e começou a ser produzido ainda na pandemia. “Foi um longo processo, demorou uns quatro anos”, conta o artista. “Com esse desafio de ficar em casa, começou a vir muita vontade de fazer música”.

Com 11 músicas e uma faixa bônus – feita pela neta de 7 anos de Dado, a Aurora –, o disco reflete sobre temas como a solidão, o desejo de liberdade e os limites impostos pela pandemia. Em meio ao processo de definição de agenda para rodar com o álbum pelo país, Dado contou ao Hoje Em Dia detalhes do novo trabalho, falou da perspectiva do atual mercado musical e da relação com o público mineiro.

Você lançou o álbum “O que você quiser” no final de maio. Como foi o processo de produção desse trabalho?
Foi um longo processo, demorou uns quatro anos. Começou ainda na pandemia, pois com esse desafio de ficar em casa começou a vir muita vontade de fazer música. Daí juntei uns amigos para trocarmos ideia pela internet e as canções foram aparecendo. Neste início, eu estava confinado no Rio de Janeiro, onde fiquei seis meses.
 
Quando as medidas de lockdown flexibilizaram, fui a Portugal ver minha família, que estava lá. Acabei ficando 10 meses, pois com a retomada das regras, não tinha avião para voltar, e o processo de composição continuou por lá. Então acabou sendo como uma crônica desses dias, às vezes sombrios e conturbados, sem notícias do que ia acontecer.

Na volta para o Rio, eu percebi que o disco estava com uma pegada meio sombria, aí pensei em fazer umas músicas mais solares. Quando eu já tinha umas 12 demos, chamei alguns parceiros para fazer as letras – como Luís Nenung, Fausto Fawcett e Humberto Gessinger.

Depois, chamei os produtores do disco, o Estevão Casé e o Rodrigo Tavares, para ouvirem essas composições. Começamos a trabalhar ano passado e chegamos finalmente neste álbum. Então é uma obra que traz questões do cotidiano, mas também tem muita coisa filosófica, fala sobre a natureza e de como a gente sobrevive nesses dias aqui.

Essas reflexões filosóficas estão bem relacionadas com a época em que o álbum começou a ser produzido, já que você fala de temas como a solidão, o desejo de liberdade e os limites impostos pela pandemia. O disco foi lançado em um período pós-pandêmico, no qual uma geração de pessoas mais novas está reaprendendo a viver socialmente após o confinamento. Como o álbum consegue dialogar com esse público que passou parte da adolescência lidando com o confinamento?
Eu acho que o álbum tem algumas canções que indicam um caminho de resiliência e também de reencontro com a família. Eu tenho cinco netos, e nesse período vi eles crescendo. Então o álbum traz essas reflexões sobre as relações familiares e humanas, e também de como a vida é efêmera, mas segue sempre em frente.

A primeira música, por exemplo, que é o meio que um portal que te bota dentro do disco, é a música chama “Endurance”. Ela conta a história, na verdade baseada num livro de um navegador inglês, Ernest Shackleton, que fica preso em 1914 no Polo Sul com uma tripulação de mais ou menos 50 pessoas. Um ano e meio depois, esse capitão consegue salvar todo mundo.

Então acredito que essa música representa isso, de você enfrentar lutas para chegar a algum lugar. E isso não significa que esse novo momento não seja conturbado, mas que, se esse momento chegou, houve a superação de alguns dilemas e questões.

Essa primeira faixa é instrumental. Ao longo da sua carreira, você fez algumas trilhas sonoras, como da série “Bom Dia, Verônica” e do documentário “Pro Dia Nascer Feliz”. Como essa experiência agregou para você como músico?
Agregou total, porque você pensar em temas e fazer música para um filme ou para uma série é um ofício. Inclusive “Endurance” era um tema de “Bom Dia, Verônica” que não foi usado, e que eu achava muito legal aquele som daquela guitarra, que tinha essa ambientação meio gelada e uma atmosfera de suspense.

Eu comecei a fazer trilha sonora em 2000, com o filme “Bufo & Spallanzani”, então são 26 anos produzindo música para uma terceira ideia, já que ela vai ser colocada em um roteiro, em uma cena. Acho que essa experiência me ajudou a ter essa percepção de misturar os instrumentos eletrônicos com os análogos. Eu gosto muito de fazer isso.

E você planeja fazer mais trilhas sonoras?
Sim. Inclusive vou fazer uma no final deste ano. Mas é um processo de criação que é único, de focar em uma ideia de um diretor e ambientar tudo aquilo ali com a música. Então é um grande trabalho e um grande desafio. Mas é sempre muito bom perceber como a música funciona e lidar com a emoção dela junto com a imagem.

Voltando a falar do disco, nele você explora a musicalidade de uma forma bem diversa: tem músicas mais experimentais, algumas punk rock, outras em tom mais pop rock e outras mais indie. Como foi reunir tantas referências diferentes em um só álbum?
Acho que é o meu background musical. Eu sempre fui um cara meio indie mesmo. Quando o pop atinge esse universo, é algo fabuloso, então busco uma sonoridade não tão óbvia, mas tento sempre ser universal no formato da música. Acho que estou sempre buscando fazer a canção do meu jeito, fora do espectro, que antigamente estava ali na rádio, e hoje está no top 50 do Spotify. 

Sempre procurei por algo que soasse independente e que não fosse tão formatado, ainda mais agora neste contexto de Inteligência Artificial fazendo música, meio que enlataram a música. E eu sempre busquei sair dessa lata, dessa formatação que é o mundo pop, sempre fui mais arredio a isso tudo. Mas, ao mesmo tempo, querendo ser pop.

Então você queria ser um pop mais autêntico, é isso?
Ah, é um bom adjetivo: autêntico. Exatamente isso.

Neste álbum, uma das faixas tem a participação da sua neta. E como é que foi essa ideia?
Essa música é inspirada no Instituto Vida Livre, aqui no Rio de Janeiro, que recebe animais silvestres que precisam de algum tipo de tratamento, e depois solta eles de novo. Minha neta, a Aurora, que mora em Portugal, tinha vindo me visitar e uma maritaca tinha caído lá em casa, então levei ela para conhecer o instituto. Lá, ela viu os bichos sendo tratados. Dois dias depois, ela começou a cantar essa música. 

Então a letra foi criação dela ali na hora? Quantos anos ela tem?
Isso, ela criou ali na hora. Ela tem sete anos e é uma artista. Faz música e fica cantando o tempo todo, desde o funk ao K-pop. Então, quando ela começou a cantar sobre o instituto, tive a ideia de gravarmos. Depois, eu botei um beat e harmonizei em cima do tom dela. E aí nasceu a música. Ela é uma faixa bônus e acabou virando o hit do disco.

E quais são os próximos planos? Você pretende rodar com esse álbum em uma turnê?
A ideia é tocar, então é esperar uma agenda forte para começar a ensaiar, fazer um show de lançamento e seguir em frente. O Brasil é grande, com muitos lugares para poder tocar, e é sempre bom tocar música nova. Isso também é um grande desafio, subir em um palco com músicas novas que pouca gente conhece. Dá um vigor diferente na vida.

E tem previsão de trazer show desse disco para Minas?
A agenda está sendo preenchida, mas espero que fique cheia de cidades mineiras. Minas é bom demais e fica pertinho do Rio, a gente vai de ônibus. 

E como é sua relação com o público mineiro?
Maravilhosa, sempre foi. Um dos primeiros shows que a Legião Urbana fez, em 1985, a gente foi tocar no teatro do DCE da UFMG. Cara, e foi surreal, a gente teve que fazer sessão dupla, tudo lotado, incrível. E depois a gente sempre abria nossas turnês com shows ali na região do Triângulo Mineiro, em Uberlândia, Uberaba… e depois íamos para BH, onde eu inclusive tenho família.

Olha, então você deve conhecer bastante coisa por aqui! Tem algum lugar em BH que você goste de ir muito e considere seu favorito?
A Savassi. E adoro a Lagoa da Pampulha também, outro dia fui lá correr. O restaurante que fica ali do lado também, aquele clássico…

O Xapuri?
É, o Xapuri! É incrível, você chega lá e só tem produto mineiro, do vinho tinto à cachaça. Enfim, a culinária mineira é maravilhosa.

E qual é sua comida mineira favorita?
Cara, é o tutu de feijão com torresmo, né? E com a cachaça Havana, aquela lá de Salinas, que é muito boa!

*Estagiária, sob supervisão de Ana Paula Lima

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