
Identificar imóveis históricos subutilizados e transformá-los em espaços de convivência é o mote do projeto “Paragens de Minas”, recém-lançado pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult). O programa integra a lógica de preservação cultural com o desenvolvimento econômico e territorial. A iniciativa, que demanda atração de investidores para a abertura ao público, foi um dos temas tratados pela secretária estadual de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, em entrevista ao Hoje em Dia.
“Se não usarmos o patrimônio, ele vira um problema. Casa vazia não recebe manutenção adequada. O mesmo acontece com o patrimônio: ele tem que ser vivo, tem que ser utilizado”.
À frente da Secult desde setembro, Bárbara Botega nasceu em Fortaleza, no Ceará, mas reforça ter “raízes 100% mineiras”. A gestora começou a carreira no serviço público em 2021, atuando na superintendência de Atração de Investimentos e Incentivo à Exportação, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Formada em Direito e com experiência na iniciativa privada, Bárbara migrou para a Invest Minas.
Nessa entrevista ela também fala sobre as estratégias para fomentar a cultura mineira, atração de turistas, novos tombamentos de bens culturais, Virada da Liberdade e Carnaval. Confira.
Você chegou à Secult em setembro de 2025. Como avalia esse período à frente da pasta? Quais têm sido os principais desafios?
A equipe foi quase 100% mantida. Fizemos uma troca pontual no Iepha (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico). A ideia era dar continuidade a todo o trabalho prévio. Contudo, tenho uma visão diferente para certos aspectos, especialmente ao traçar as estratégias para 2026. Por isso, fiz pequenos ajustes de rota. Já temos o planejamento de 2026 pronto, que está muito interessante. Na secretaria, o pessoal está até um pouco assustado, pois sou muito atenta aos gastos. Lidar com o orçamento notoriamente enxuto da Secretaria de Cultura e Turismo é um grande desafio. Além disso, pela minha experiência na Invest Minas, a captação de recursos é uma área na qual obtive sucesso. O maior desafio é, portanto, definir as prioridades diante de um orçamento restrito e guiar o próximo ano com um planejamento robusto, estratégico e interessante. Já estamos conseguindo realizar economias significativas.
E quais as prioridades de investimento da Secult para o próximo ano? Há planos para aumentar o orçamento da Cultura e do Turismo?
Para aumentar, não há possibilidade. A situação financeira do Estado não permite. Não se trata de falta de vontade, mas de limitação real de recursos. Contudo, temos trabalhado em projetos que podem desonerar o orçamento da Secretaria, liberando recursos para que possamos executar outras ações com o mesmo montante, ou, pelo menos, expandir as ações já previstas, por meio de parcerias. Atualmente, por exemplo, estamos elaborando projetos nas leis de incentivo, permitindo que a iniciativa privada aporte recursos para a manutenção de alguns de nossos equipamentos.
E qual a principal meta da Secult-MG até o fim do mandato?
O próximo ano será o ano da economia criativa. Isso reflete muito aquilo em que eu realmente acredito. Precisamos reconhecer que é um negócio e tratá-lo como tal. A diversificação econômica de Minas, tão almejada, passa inequivocamente pelo turismo. O turismo em Minas Gerais é cultural. E quem faz a cultura merece viver com dignidade. Portanto, é crucial entender a importância de tratar a cultura como um negócio que impacta a vida dessas pessoas. É justo e digno que haja um fomento adequado à cultura, inclusive aos pequenos empreendedores.
Neste ano, Minas perdeu o compositor Lô Borges, co-fundador do lendário Clube da Esquina. Ele era uma das atrações confirmadas para a Virada da Liberdade, em BH. Uma homenagem está prevista. Pode adiantar algo?
A gente quer emocionar o público. Podem esperar que não vai ser só uma homenagem. Ele seria contratado para compor como atração musical da Virada. Infelizmente, não estará lá fisicamente, mas a gente está cuidando com muito carinho e atenção dessa homenagem. Vai ser linda. Vamos esperar, vai ser bem legal.
Sobre o Carnaval de 2026, qual a previsão de investimentos? E o público?
Estamos com o edital da Cemig aberto. Esperamos, e foi a fala da própria Cemig, aumentar o número de projetos incentivados. Quando pensamos no Carnaval, pensamos em Belo Horizonte, mas nós temos 853 municípios e praticamente todos têm Carnaval. Estamos com um olhar atento aos municípios. Na última reunião de novembro, 250 projetos de Carnaval foram aprovados pela Secretaria de Cultura. Não quer dizer que esses 250 projetos conseguirão captar recursos, mas aí a gente vê que o projeto do Descentra Cultural deu muito certo e que as pessoas, inclusive no interior, já aprenderam a fazer projeto cultural. É um número bem significativo, abre a possibilidade de empresas dos mais diversos setores apoiarem iniciativas de Carnaval.
O governo em si vai seguir com o projeto em Belo Horizonte das avenidas sonorizadas e do Palácio do Samba, no Átrio da Liberdade. Vai ter uma novidade de um show, se tudo der certo, de um grande sambista, a pedido das escolas de samba, para a gente tentar levar as pessoas também para o Carnaval de Passarela de Belo Horizonte. Já estamos com o recurso possível. Precisamos da Belotur para entender direitinho se ela vai aprovar esse pedido, que foi uma demanda das próprias escolas de samba.
Como a Secult-MG está atuando para garantir a conservação e o uso sustentável dos bens já tombados em Minas Gerais?
Temos muitos projetos de tombamento em andamento. Não vou me arriscar a falar de um, mas são dezenas que correm no Iepha. Acabei de sair de uma reunião que estava com mais um pedido de tombamento, o que achamos ótimo. Temos uma equipe dedicada para esse tipo de análise. Inclusive, o próprio Clube da Esquina, a gente vem trabalhando com essa possibilidade também. O trabalho aqui continua a todo vapor. Recentemente, declaramos as bandas como patrimônio imaterial.
Lançamos também o Paragens de Minas, que é um projeto muito caro para mim, porque, de alguma maneira, ele mostra bem essa minha passagem dentro do governo, desde a parte de atração de investimentos, assessoria internacional, promoção de destino, até comunicação. A Espanha tem os Paradores Espanhóis. Portugal tem o Revive Portugal. Inspirados nesses dois projetos, que são muito relevantes e foram copiados já no mundo inteiro, estamos reunindo várias iniciativas para a preservação do patrimônio pelo uso.
Qual o número de turistas que visitaram o Estado neste ano? O que tem sido feito para aumentar esse número?
Ainda não finalizamos os números deste ano, mas temos crescido consistentemente em um ritmo superior ao dobro da média nacional. Os dados do turismo de Minas Gerais são muito positivos e bastante impressionantes, incluindo o número de reservas e outros indicadores. Trabalhamos com eixos estratégicos. Obviamente, promovemos o destino em feiras focadas e segmentadas para agentes de viagem. Conforme antecipei, no próximo ano, investiremos firmemente em roadshows, que são viagens de apresentação do destino, direcionadas especificamente a agentes de viagem.
Há uma vertente importante que devemos considerar para a atração de turistas, que é a conectividade. Assim, estamos trabalhando em novas rotas, sejam elas nacionais ou internacionais, para facilitar a chegada dessas pessoas também por via aérea, somando-se ao que já fazemos em termos de infraestrutura turística nas estradas estaduais. É fundamental pensar em conectividade ao planejar a atração de visitantes.
Recentemente, houve uma “corrida” entre a PBH e o Governo de Minas para ver quem conseguiria oferecer primeiro o serviço de barcos turísticos na Lagoa da Pampulha. O Governo chegou a anunciar que o projeto teria investimentos da Secult, mas depois teve a autorização negada pela PBH. Como está essa situação?
Temos um projeto via lei de incentivo (incentivo fiscal federal), ou seja, sem desembolso direto de recursos do orçamento do Estado. O projeto está aprovado, captado e pronto para execução, no valor de R$ 1 milhão. Com este valor, é possível realizar a operação dos barcos. Contudo, foi negado pela prefeitura, que afirmou que fará o projeto deles primeiro. Eu confesso que não entendi a polêmica. O prefeito manifestou o desejo de colocar o barco lá, e isso é legítimo. Eu acredito que cabem dois, três, quatro, cinco barcos. O projeto da secretaria está pronto. No dia em que a prefeitura desejar que o executemos, nós o faremos. Mas, no momento, ele está paralisado. Era uma questão que havia sido, inclusive, conversada e dialogada com a Belotur.
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