ENTREVISTA

‘Desmarginalizar o corpo preto é 1º passo para acabar com o racismo’, afirma o rapper Renegado

Além do combate à discriminação, artista mineiro analisa cena do rap e fala sobre novos projetos

Bernardo Haddad
@_bezao
Publicado em 22/12/2025 às 07:00.Atualizado em 22/12/2025 às 07:38.
 (André Greco/Divulgação)
(André Greco/Divulgação)

Negro e da periferia, Renegado empunha a bandeira da cultura hip hop e do rap desde os primeiros passos nas ruas e vielas da comunidade Alto Vera Cruz, na região Leste de Belo Horizonte, onde voltou a morar após não se adaptar à rotina no Rio de Janeiro. Com quase 20 anos de estrada, o rapper vive um momento de efervescência entre sessões de gravação, shows com orquestras, a estreia como pai e a contínua luta contra o racismo. 

Aos 43 anos, o artista foi a estrela do 26° episódio do projeto Sonastério Ilumina – série audiovisual em que artistas gravam versões de músicas em um estúdio imersivo em Nova Lima, na Grande BH.

Com uma apresentação que mesclou rap, soul, funk e muita brasilidade, o rapper entregou interpretações do mais recente álbum “Margenow”, em faixas de destaque como “Nada Novo Sob o Sol”, “Tinha Que Ser Preto!” e “Us Manos da Esquina”. 

Renegado atingiu o sucesso já nos primeiros trabalhos, recebendo o prêmio de Artista Revelação pelo disco de estreia, “Do Oiapoque a Nova York (2008)”. O reconhecimento foi concedida pelo Prêmio Hutúz – importante premiação do gênero no país.

A carreira do artista mineiro consolidou-se ao longo dos anos e os fãs acompanharam o nascimento de diversas parcerias com grandes nomes da cena brasileira, como Elza Soares, Diogo Nogueira, Samuel Rosa, Rogério Flausino, Bebel Gilberto, Thiaguinho, Dona Onete e Anitta.

"Estou numa fase na qual quero fazer, quero conectar. Inclusive, um dos motivos de voltar a morar em BH foi muito por isso. A cidade está fervendo, a periferia está produzindo em larga escala, muita coisa legal. Eu fiquei pensando muito sobre isso: qual o formato que posso interagir ao máximo com as pessoas?" 

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Renegado fala sobre a necessidade de “desmarginalizar” o corpo preto, analisa a cena atual da capital mineira e reforça que, aos quase 20 anos de carreira, a sede de arte só aumenta.

Fale um pouco do projeto Sonastério Ilumina. Como foi para você reinterpretar músicas do seu mais novo álbum “MargeNow” nesta ação?
Fazer o Ilumina é uma experiência ímpar, porque você fica realmente vivendo uma imersão aqui. É um estúdio projetado para viver imersões, você vê que tem uma estrutura toda para poder acomodar as pessoas e viver esse rolê, uma super vista. E calhou muito, porque quando o convite chegou eu estava caminhando para lançar o disco e já estava organizando na mente como seria o formato ao vivo desse show, com banda e tal. Me acendeu uma luz muito forte ter feito esse projeto, que eu falei: “cara, vou fazer várias versões desse show”. 

Eu, que sou um cara que veio do Alto Vera Cruz, de um beco, que a polícia chegava esculachando e eu não tinha perspectiva nenhuma de viver da minha arte, hoje poder ter essa oportunidade de testar, produzir, conectar, tornar acessível para quem pode pagar menos e também ter um ticket melhor para quem pode pagar mais, então acho que é sobre isso. É sobre comunicar com a arte que eu tenho, e eu sou muito feliz por isso, sabe? Sempre

Na faixa “Us Manos da Esquina”, do álbum “MargeNow”, você deixa claro a forte conexão com a sua “quebrada”, o Alto Vera Cruz. Você ainda mora lá? Como é a sua relação com a comunidade?
Eu estava no Rio, voltei para BH agora no início do ano. Estou ali do ladinho do Alto Vera Cruz também, porque minha mãe quis voltar a morar lá. Então, eu fico ali para poder monitorar. E fora os projetos, os amigos, estou sempre colado ali. Sobre “Us Manos da Esquina”, eu pensei muito no Alto para poder escrever essa música, porque me bateu uma brisa, que é o seguinte: eu sou muito fã do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para mim é o movimento social mais bravo que a gente tem hoje no Brasil. E o MST tem uma frase parafraseando muito isso: ‘A nossa luta é por terra. E terra improdutiva tem que ser ocupada’. E eu acho que a periferia também entendeu isso nessa perspectiva. Porque, se você for analisar as nossas brigas internas dentro das comunidades, é por terra. É por espaço. É por território. É aquela esquina que é uma boca, sacou? A gente fica ali brigando por aquele espaço. E geralmente é isso, o Estado ainda não se faz presente na vida das pessoas, de forma a incentivar a perspectiva de um futuro melhor, e a galera se espelha em quem está mais perto, é quem está ali na esquina. Com tênis, com carro, pegando aquelas minas, usando aquelas correntes de ouro. E o Estado ainda não deu conta dessas pessoas.

Então, “Os Manos da Esquina” vem para falar muito isso. Tipo assim, os nossos heróis são os manos da esquina, porque aquele cara ali é o que a gente tem de referencial de pessoa bem-sucedida. Então acho que o Estado precisa começar a mostrar que pretos e periféricos podem ocupar outros espaços para poder dar outros espelhos para a molecada poder se inspirar.

Você tem algum novo projeto em mente?
Estou com o meu mais novo projeto de ser pai. Esse aí já entrou de sola na minha vida, e é muito louco também, já está me inspirando para outras coisas. Eu, há um tempo, flerto muito com o samba também, que é uma das coisas que eu gosto muito. Eu não consegui fazer um samba para esse disco, mas eu tenho umas ideias de uns projetos que acho que ano que vem vou poder amadurecer com mais calma também. E, cara, continuo compondo muito. Estou muito feliz com essa fase que estou de produtividade mesmo. Então, é isso. Logo menos, a galera pode ficar ligada que tem coisa nova chegando.

Você está próximo de completar 20 anos de carreira. Qual a diferença do Renegado de 2008, quando você começou, para o Renegado atual?
De uma forma geral, eu continuo o mesmo cara, sonhador, acreditando no coletivo, acreditando que a transformação que a gente vai conseguir conquistar vai ser de forma coletiva. Eu acho que nesse tempo o que mudou foi que eu sempre fui acostumado com ambientes violentos, mas esse tempo de vida, de estrada, de convivência com a música me mostrou maldades que eu não estava acostumado. É sobre a gente renovar os votos de crença numa sociedade melhor, mas ao mesmo tempo também entender que a maldade está aí, a gente tem que estar atento a tudo o tempo inteiro e com muita sede, muita sede de arte, muita sede de vida. E eu acho que quanto mais velho eu fico, mais jovem por dentro eu estou ficando, porque eu fico com mais gana de querer ir para frente e continuar fazendo.

Em entrevista ao Hoje em Dia, em 2020, você afirmou que havia um “abismo entre classes construído em cima do racismo”. Cinco anos se passaram. Viu alguma mudança?
A questão do racismo no Brasil é estrutural. Ele (racismo) é estrutural, estruturante. Eu acho que a gente aqui ainda tem muito o que vencer nesta pauta. A gente vê que no Brasil, quando a gente fala de luta de classes, ela ainda vem depois da luta racial neste país, porque a gente vê que famílias tradicionais construíram a sua base de fortuna em cima da escravidão. E aí a gente vai falar de luta de classes, mas mesmo assim, o branco pobre ele ainda acessa mais do que o preto pobre. A sociedade traz mais espaço para essa galera. Então, a gente ainda tem que lutar muito. Eu acho que esse álbum (MargeNow) também é meio que um desabafo sobre essas pautas. Porque, sei lá, eu sempre fui militante de movimentos sociais, e quando eu começo a aprofundar dentro dos movimentos sociais, ainda vejo que o racismo ainda está presente até dentro dos movimentos.

Então, temos que estar muito atentos para não continuar com esses velhos maus hábitos de ser preconceituoso, de ser homofóbico, de ser misógino, tentar vencer esse patriarcado conservador pra gente poder trazer luz para as pessoas, perspectiva de vida mesmo.

Mas afinal, como acabar com o racismo?
Olha, é uma pergunta muito difícil, inclusive. Obrigado por fazê-la. Cara, a gente tem que desconstruir a mentalidade de todo mundo, desconstruir a sociedade para a gente poder acabar com isso. Porque o racismo, de fato, não adianta eu te falar que, se fizermos uma divisão de renda, nós vamos resolver. Não vai resolver, porque não é só sobre dinheiro, entende? É sobre a forma como a sociedade nos enxerga e como ela nos trata. Então, é algo que exige uma construção social. Eu acho que é a gente aplicar a Lei 10.639 (que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana) nas escolas; é a polícia começar a ser instruída sobre o modo de fazer uma batida, para não sair atirando no primeiro preto que vê; é o segurança dentro do supermercado não sair seguindo as pessoas pretas. É sobre reeducar, é sobre a reeducação mesmo da sociedade. E, cara, este é um processo. Não adianta acharmos que vamos resolver o problema do racismo amanhã. A gente vai resolver através de um processo de entendimento de que ter cotas não é um favor que vocês estão fazendo para ninguém. É uma reparação de danos que tem que ser feita e que visa reparar vários danos.

A primeira coisa que eu acho que a gente tem que fazer para começar mesmo é desmarginalizar os corpos pretos. Esse é o primeiro grande passo para a gente acabar com o racismo.

Como você vê a cena do rap atual?
Maravilhosa, fervendo. Nunca vi tanta gente potente. Muito trabalho legal. As mulheres dando aula do que é fazer rap, do que é fazer hip hop. Eu estou muito feliz mesmo com o que eu estou vendo. E eu quero mais.

Você é atleticano declarado. Como avalia a temporada do Galo em 2025? Como ficou o coração após a derrota na Sul-Americana?
Estou meio triste, achei que a gente ia levar essa Sul-Americana, mas também feliz, porque a vida não é sobre ganhar todo dia nem perder todo dia, mas é aprender com os erros pra gente melhorar. O Galo é um clube que nos últimos anos tem feito muito isso: entendido onde estão os erros, onde está errando pra gente poder avançar. Acho que a gente demorou muito pra poder tirar o Cuca, mas acho que agora vai. Agora é preparar para os próximos torneios. Preparar para a gente vir com tudo em 2026.

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