
A trajetória da mineira Laura Cardoso ganhou projeção internacional nas últimas semanas. Aos 21 anos, a atleta de Poços de Caldas registrou um feito inédito no críquete mundial ao alcançar nove wickets — termo utilizado no esporte para definir a eliminação de uma adversária — em uma única partida internacional de T20, durante o Kalahari Women’s T20 International, disputado em Gaborone, em Botsuana. O desempenho foi decisivo para a campanha invicta da Seleção Brasileira Feminina e colocou o nome da brasileira entre os principais destaques da modalidade no cenário internacional.
Em um esporte ainda em crescimento no Brasil, Laura representa também a força de Minas Gerais no desenvolvimento do críquete nacional. Poços de Caldas, cidade onde nasceu e iniciou a trajetória esportiva, é considerada um dos principais polos da modalidade no país e teve papel importante na formação da atleta, que passou pelo judô e pelo vôlei antes de se dedicar integralmente ao críquete.
A atuação histórica da brasileira ultrapassou fronteiras e ampliou a visibilidade do críquete feminino no país. Além de superar marcas anteriores da modalidade, Laura viu o recorde repercutir dentro e fora do Brasil, em um momento em que o esporte busca ganhar ainda mais espaço e projeção nacional, especialmente com o retorno previsto do críquete aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
Em entrevista ao Hoje em Dia, Laura Cardoso falou sobre a conquista histórica, os desafios de atuar em um esporte ainda pouco conhecido no Brasil, a influência de Minas Gerais em sua formação e os objetivos para o futuro da carreira e do críquete feminino brasileiro.
Você acaba de alcançar uma marca histórica no críquete internacional. Como foi viver esse momento e quando percebeu a dimensão do feito?
Foi um momento muito especial viver tudo isso e alcançar esse marco. Fiquei muito feliz e acredito que seja um momento único. Para arremessadores e jogadores de críquete, é algo muito especial e de grande proporção também. Percebi a dimensão depois do jogo. Peguei meu celular e havia muitas mensagens, várias páginas entrando em contato, muita gente pedindo colaboração de fotos para publicações e convites para entrevistas. Até mesmo no local onde eu estava, as pessoas vinham falar comigo sobre isso. Então, tomou uma proporção muito grande. Também percebi isso durante a viagem, quando pessoas vieram conversar comigo dentro do avião. Foi nesses momentos que entendi que aquilo ganhou uma dimensão muito grande e atingiu muita gente.
Seu desempenho com nove wickets em uma partida chamou atenção mundial. O que passou pela sua cabeça durante aquele jogo e como avalia essa atuação?
Durante o jogo, eu estava focada apenas no que precisava fazer, no meu trabalho. Eu tinha um objetivo claro: lançar na área em que estava focada. Naquele momento, minha atenção estava totalmente voltada para isso, para como eu poderia ter mais eficiência e cumprir o que o time precisava. No fim, consegui alcançar o resultado e causar esse impacto. Avalio essa atuação como nota 10, porque é algo muito difícil de acontecer e impossível de planejar. Não tem como dizer: “Amanhã eu vou fazer isso”. Simplesmente acontece. Então, foi muito especial, uma atuação nota 10 para mim.
Você começou no esporte ainda jovem e migrou de outra modalidade. Como foi essa transição até se consolidar no críquete?
Sim, comecei ainda jovem. Primeiro, iniciei no judô, pratiquei por alguns anos e disputei alguns campeonatos. Com o tempo, deixei de me identificar com o esporte e migrei para o vôlei. Permaneci no vôlei por um bom período. Comecei na base do Sesc e, depois de um tempo, participei de uma peneira para a Caldense, em Poços de Caldas. Fui aprovada e representei o clube por alguns anos. Mais tarde, tive meu primeiro contato com o críquete e passei a conciliar as duas modalidades, já que os horários ainda eram compatíveis. Como eu era jovem e gostava de praticar ambos os esportes, continuei dividindo meu tempo entre eles. Até que, em determinado momento, fui convocada para a seleção e precisei me dedicar mais aos treinamentos. Foi então que passei a focar exclusivamente no críquete, modalidade em que sigo desde 2020.
O críquete ainda é pouco conhecido no Brasil. Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao escolher essa modalidade?
Acho que meu maior desafio no começo, quando tive o primeiro contato com o esporte, foi fazer com que as pessoas acreditassem que ele poderia ir além, que eu realmente me desenvolveria na modalidade. Mas o que sempre me trouxe tranquilidade foi o apoio da minha mãe e da minha família. Isso me confortou muito, mesmo sendo uma prática diferente e pouco conhecida no Brasil. Eles sempre demonstraram interesse, especialmente minha mãe, que tinha curiosidade em entender como funcionava e conhecer as regras. Ela esteve presente nos meus jogos e na maior parte dos meus treinamentos, então sempre contei com esse suporte. Acredito que isso me deixou mais segura diante desse desafio, que era mostrar que a modalidade poderia crescer. Hoje, vejo que essa dificuldade vem diminuindo, já que as pessoas passaram a perceber a dimensão que o esporte está alcançando e o espaço que vem conquistando. Com isso, tudo tem se tornado mais tranquilo.
Minas Gerais tem papel importante no desenvolvimento do críquete no país. Como o Estado influenciou a sua formação como atleta?
Acho que teve grande importância e grande influência, porque foi onde tive meu primeiro contato com o esporte. Talvez, se estivesse em outro Estado, não tivesse essa experiência tão cedo. Poderia ter conhecido a modalidade apenas depois de algum tempo. Então, acredito que tive uma grande oportunidade ao conhecer o esporte aqui e por estar na mesma cidade em que ele foi fundado. Isso, com certeza, contribuiu para o meu crescimento como atleta e para o meu desenvolvimento.
Você atua como jogadora versátil, contribuindo tanto no boliche quanto na rebatida. Como é equilibrar essas funções dentro da equipe?
É bem difícil equilibrar essas funções dentro da equipe, porque ambas exigem muito trabalho. Não apenas elas, mas também o fielding (defesa de campo). É necessário dividir os momentos de treino, reservando períodos específicos para cada função. Em determinado momento, foco apenas no arremesso; em outro, direciono a atenção para a rebatida. Mas acredito que a chave está em saber o momento certo de diferenciar cada função dentro da equipe.
Após essa conquista, quais são seus próximos objetivos na carreira e o que você projeta para o futuro do críquete feminino no Brasil?
O próximo objetivo é colocar em prática tudo o que estamos desenvolvendo e trabalhando, tanto como pessoa quanto como atleta dentro da equipe. Temos um calendário cheio de competições pela frente. No ano que vem, também teremos o classificatório para a Copa do Mundo, que é um campeonato muito importante para nós e para o qual trabalhamos duro. A expectativa é conquistar uma posição melhor nessa competição. Não apenas nesse torneio, mas em todos os campeonatos ao longo do ano, buscamos evoluir e alcançar resultados cada vez melhores. Para o futuro do críquete feminino no Brasil, espero que a modalidade continue ganhando espaço, crescendo e se desenvolvendo cada vez mais, alcançando um número maior de meninas praticando o esporte e evoluindo dentro dele. Também queremos mostrar que o esporte realmente pode transformar vidas.
Poços de Caldas é considerada um dos principais polos do críquete no Brasil e teve papel importante na sua formação. Como foi sua experiência na cidade e de que forma esse ambiente contribuiu para o seu desenvolvimento no esporte?
Sou natural de Poços de Caldas, então vivo em um ambiente muito tranquilo e confortável. Consigo manter contato com meus familiares e ter por perto as pessoas de quem gosto. Isso acaba tornando o dia a dia mais leve e, com toda certeza, contribuiu muito para o meu desenvolvimento. Ter pessoas que me apoiam ao meu lado, minha mãe sempre presente nos treinamentos e querendo me ver evoluir, além de estar em uma zona mais confortável, fez muita diferença. Acredito que, se morasse longe da minha família, essa parte poderia ser um pouco mais difícil. O esporte também vem crescendo muito na cidade e no Brasil como um todo. Poder acompanhar esse processo me deixa muito feliz, porque estou envolvida desde o início de todo o projeto. Então, ver a forma como começamos, onde estamos agora e tudo o que ainda podemos conquistar é muito gratificante. Poder fazer parte de tudo isso é algo muito especial para mim.
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