
Nome consolidado no rock brasileiro, Di Ferrero encerra um ciclo na carreira solo. Aos 40 anos, o artista acaba de lançar o álbum “SE7E”, que revisita músicas lançadas em EPs anteriores, e percorre o país apresentando o novo trabalho. O cantor e compositor, que marcou uma geração como vocalista da banda NX Zero, explora a vulnerabilidade em músicas introspectivas, sem abandonar as guitarras e a atmosfera dançante.
Em entrevista ao Hoje em Dia, Di falou sobre o processo de composição do novo disco e a maturidade musical consolidada no trabalho. Ao comentar a forte relação construída com Minas Gerais ao longo da carreira, o artista também revela o desejo de trazer para BH o bloco de Carnaval “Se Fui Triste Não Me Lembro”, que desfila em São Paulo. Além disso, confirmou que já existe uma data reservada para retornar à capital com a turnê do “SE7E”.
Como foi o processo de criação e composição das novas músicas do álbum?
Foi uma continuação. Então, eu já estava preparando para as músicas ficarem bem amarradinhas, para elas terem uma sequência e o som delas conversarem. Tinha esse plano do “SE7E” ser um encerramento do ciclo (composto pelos EPs anteriores), e eu estou muito feliz. Ficou um trampo muito sincero, gostei da forma que eu consegui me expressar nas letras, eu acho que foi muito real. Então, essas três últimas músicas continuam essa energia, acho que um pouco até mais intensas.
No novo álbum você aborda a vulnerabilidade de diversas formas, temas que aparecem em diversos momentos da sua carreira. Você acredita que a maturidade artística te ajudou a encontrar mais recursos para falar desses assuntos de forma mais aberta?
As ideias de todas as composições deste álbum partiram de gatilhos reais, de coisas que aconteceram da forma descrita na música ou de um jeito semelhante. Tem umas que são mais doídas, e tem outras que consigo deixar mais pra cima. Acho que hoje, com 40 anos, eu consigo ser um pouco mais objetivo na hora de expressar esses sentimentos. Claro, são coisas que mexem comigo, mas que talvez não me afetem como me afetavam antes, porque era tudo muito intenso o tempo inteiro. Acho que agora consigo ter o momento de “vomitar” o que estou sentindo na música e depois encontro nesse sentimento o gatilho para trazer esse assunto para a música.
E você acha que, de certa forma, a música te ajuda a lidar com essas situações?
Totalmente. Acho que todo mundo tem um uma válvula de escape, eu tenho a música. E a música não tem ego, ela não tem julgamento. Então, além da música ser meu ganha pão, posso dizer que é a minha hora de extravasar, é minha terapia.
Seu álbum traz as discussões sobre essas várias questões emocionais justamente no momento de ascensão de movimentos masculinistas (redpill e incels), que recolocam sob os homens o estigma de que falar sobre o que se sente é ser frágil. Como você enxerga que esse álbum pode dialogar com meninos da geração Z nesse momento em que acessar a vulnerabilidade para eles parece ser tão difícil?
É muito louco, porque são gerações diferentes, e realmente tem essas questões que a molecada agora tá enfrentando para falar de frustrações, de sexualidade, de problemas em casa… E tantas outras questões da vida que tem gente que acha que tem que guardar e esconder, mas que eu acho que se você esconder vira até uma doença.
O que me chama a atenção é que lá atrás (não sei se era pior, não quero comparar), era você andar vestido de uma forma que você levava porrada na rua. Acho que hoje pelo menos tá todo mundo mais de olho nisso, a cabeça dessa geração tá um pouco mais aberta, mas sempre vai ter julgamento pra caramba.
Então nas músicas eu sempre tento ser o mais sincero possível. Acredito que uma ou outra ajuda mais, assim como meus ídolos fazem comigo, é um ciclo que passa pra frente. Acho que a gente não pode não conversar sobre isso (sentimentos e vulnerabilidades). E pensando nessa galera mais nova, que tá chegando num mundo com tanto estímulo e com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tomara que sirva de inspiração mesmo, para que eles possam falar as coisas sem medo.
A musicalidade do álbum traz um pouco de melancolia, mas também tem uma atmosfera dançante em algumas músicas. Você acredita que o trabalho que você fez no NX Zero influencia diretamente esse novo disco?
Acredito que não tenha uma influência direta. Eu acredito que é uma continuação da minha vida mesmo. Tem um pouco, porque eu vivi o NX Zero, então as músicas têm uma conexão, sempre vão ter. É uma linha ali, é uma história que eu tô contando.
Mas eu sinto que o som tá mais orgânico. Está mais tocado, tem mais colaborações com outros artistas. E isso é muito legal num mundo tão tecnológico justamente por isso: você errar uma parada, (o instrumento) não estar tão afinado… Acho que isso é o que eu queria passar. E isso, por incrível que pareça, essa coisa mais orgânica, mais tocada, tá até na moda. Vejo que a galera ama.
Além da sua própria trajetória, tiveram outras referências musicais para o processo de composição desse álbum?
Várias bandas, vários artistas. Esse álbum é mais calmo, introspectivo, claro que tem distorção, tem guitarra. Então vai desde Turnstile, que é muito legal, até umas bandas nacionais muito boas, tipo Terno Rei e Lagum. Acho muito boas essas bandas.
Tem também uma coisa que eu sempre deixo rolando, que chama Hermanos Gutiérrez. São dois guitarristas que ficam tocando, então isso me influenciou muito. Leon Bridges é um cara de quem eu sou muito fã. Michael Kiwanuka também. Tem muita gente.
Falando em Lagum, como você enxerga essa cena da música mineira?
Minas sempre foi um berço. Desde lá de trás, com o Clube da Esquina. Depois, eu ouvi demais Skank. Acho que um dos álbuns que eu mais ouvi na vida foi “Maquinarama”. Depois, na estrada, convivemos muito com o Jota Quest, que veio antes do NX Zero, mas a gente tocou muito junto.
E aí, pô, Lagum, né? O próprio Black Pantera, que é de Uberaba… Acho que Minas tem um lance único, assim, muito musical. As coisas que vêm de Minas, pra mim, são muito musicais, muito tocadas… Por isso que é apaixonante.
E você levou a turnê do “SE7E” para Patos de Minas em fevereiro. Como foi a recepção do público mineiro?
Cara, eu toco em Minas há muito tempo. Claro que a primeira cidade em que toquei foi BH, na época independente. Quer ver que eu vou lembrar do lugar? Era numa galeria… a Casa Matriz. Depois tocamos no Marista (Teatro Dom Silvério), e também no que agora é o BeFly Hall.
Tem alguma história específica que te marcou aqui em Minas?
Pô, tiveram algumas. Quando eu posso, eu fico um dia a mais, dou um rolê e tal. Teve uma vez em que fui na casa do Haroldo Ferretti, do Skank, que era onde eles ensaiavam, onde gravaram vários álbuns. Era tipo uma garagem. Quando eu fui lá, aquilo me marcou muito. Ele falava: “aqui eu gravei tal música, aqui eu gravei tal música”. Foi muito legal.
Eu lembro que tinha voo nesse dia e falei: “quer saber? Vou perder esse voo, volto amanhã”. Eu fui pra fazer trabalho de rádio, lançar música, fazer aquele rolê todo e ir embora. Mas encontrei com ele no fim do dia e fiquei. Falei: “ah não, pega outro voo depois”, porque essas coisas, pra mim, fazem diferença.
E eu lembro também de um show que me marcou muito no Festival Timbre, em Uberlândia. Aí tem uma produtora nossa que a família dela é de lá e eles fizeram uma galinhada no camarim. Depois veio a equipe inteira, o pessoal do festival, todo mundo foi comer lá.
E tem previsão de que a turnê do “SE7E” vá para mais cidades mineiras?
Sim, já temos uma data reservada em BH.
Você tem um bloco de carnaval que sai em São Paulo. Tem essa possibilidade de ter o seu bloco em BH ou em alguma outra cidade mineira?
Vou te dar um spoiler aqui: quase rolou uma coisa fora de época aí em Minas com o meu bloco, o “Se Fui Triste Não Me Lembro”. Mas eu quero muito fazer em BH e vou fazer de tudo pra levar o bloco aí.
Então, eu quero muito fazer, porque tá muito legal. E quero chamar artistas mineiros para participar comigo também. É um bloco de rock, né? São quase cinco horas de show. Mas eu toco de tudo. Toco “Deixa Acontecer”, do Grupo Revelação, toco tudo mesmo. Então tocar umas músicas clássicas mineiras vai ser legal demais.
Neste momento, você está fazendo a turnê do novo álbum. Depois de rodar com o disco, você já tem planejado fazer alguma outra coisa?
Eu já tô começando a falar com alguns artistas que eu curto pra lançar músicas novas. Pra ser sincero, já tô preparando algumas coisas e começando a pensar nisso, porque eu vejo que já tô há um ano nesta tour e esse é o encerramento do álbum.
Então já tá abrindo espaço para coisas novas, que eu ainda nem sei exatamente o que são. Também estou fazendo uma turnê acústica, em teatros. Seria muito legal levar isso pra Minas Gerais também, para BH porque aí tem teatros incríveis.
E existe a possibilidade de uma turnê com NX Zero reunido novamente?
Acredito que sim. Claro, acho que não tem por que não acontecer em algum momento. Não sei quando, não tem data, não tem nada combinado, mas acho que sim, quando fizer sentido pra todo mundo.
*Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca
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