‘Final de trave e final de solo são grandes sonhos para mim’, diz a medalhista olímpica Júlia Soares
Premiada em Paris 2024, ginasta fala sobre evolução técnica, pressão na Seleção Brasileira, o movimento “Soares” e as metas para Los Angeles 2028

Aos 20 anos, a ginasta curitibana Júlia Soares já reúne feitos que a colocam entre os principais nomes da ginástica artística brasileira. Medalhista de bronze por equipes nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, ela também marcou presença na final da trave, ampliando o protagonismo do Brasil na modalidade e consolidando uma trajetória construída desde a infância.
A história da atleta começou ainda aos quatro anos, em Curitiba, influenciada pela irmã mais velha, Giovanna Soares, que praticava balé e ginástica. Foi no esporte que Júlia encontrou um caminho que exigiu dedicação da família, que enfrentou dificuldades financeiras e chegou a vender bombons para custear viagens e competições. No Centro de Excelência em Ginástica do Paraná (CEGIN), ela teve contato com referências da modalidade, como a medalhista olímpica Daiane dos Santos e a campeã olímpica Rebeca Andrade.
Desde a entrada na Seleção Brasileira de base, em 2018, Júlia passou a acumular resultados internacionais. Antes do bronze olímpico, conquistou ouro na etapa de Baku da Copa do Mundo de Ginástica Artística, em 2022, integrou a equipe vice-campeã mundial em Antuérpia, em 2023, e também ficou com a prata por equipes nos Jogos Pan-Americanos de Santiago. Ainda jovem, entrou para a história da modalidade ao homologar um elemento inédito na trave, batizado de “The Soares”, incluído oficialmente no Código de Pontuação da Federação Internacional de Ginástica.
Nos Jogos de Paris, além da medalha inédita por equipes da ginástica artística feminina brasileira, Júlia chamou atenção pela apresentação no solo ao som de “Cheia de Manias”, misturada com “Milord”, de Edith Piaf, e pela classificação à final da trave, onde registrou nota 13.800 nas eliminatórias. Após os Jogos, transferiu-se para o Esporte Clube Pinheiros, onde passou a dar sequência à preparação para o novo ciclo olímpico.
Em entrevista ao Hoje em Dia, Júlia Soares falou sobre os desafios da temporada de 2026, os aprendizados após a conquista olímpica, o crescimento da responsabilidade dentro da Seleção Brasileira e os objetivos para os próximos anos da carreira.
Você abriu a temporada de 2026 representando o Brasil na Copa do Mundo de Osijek. Quais são os principais objetivos para este ano, especialmente pensando no Pan-Americano e no Campeonato Mundial?
Bom, meu principal objetivo, acho que eu já iniciei o ano colocando isso em prática, com alguns elementos diferentes nas minhas séries, tanto na trave quanto no solo, e buscar a constância nessas competições. Voltar a competir também em equipe, retomar essa estratégia novamente, colocando isso em prática nos nossos treinos, nas avaliações e, principalmente, agora para essa competição mais próxima, que é o Pan-Americano. Então, o meu maior objetivo no momento é confiar nas séries, com esses novos objetivos e desafios que estou colocando.
Aos 20 anos, você já soma uma medalha olímpica em Paris 2024 e uma prata no Mundial de Antuérpia 2023. Como essas conquistas mudaram sua visão sobre a carreira e sua responsabilidade dentro da Seleção Brasileira?
Bom, acho que essas conquistas me deram ainda mais confiança no trabalho que a gente vem construindo ao longo dos anos e, claro, aumentam a minha responsabilidade dentro da Seleção Brasileira. Hoje, eu entendo que representar o Brasil vai muito além dos resultados, porque a gente inspira outras pessoas, tanto as meninas da nova geração dentro do ginásio quanto pessoas fora do esporte que admiram a ginástica artística. Com essas conquistas, eu reconheço que ajudamos a fortalecer ainda mais a ginástica no nosso país.
A medalha de bronze por equipes em Paris foi inédita para a ginástica artística feminina do Brasil. O que passou pela sua cabeça naquele momento e como você avalia a importância desse resultado para a modalidade no país?
Na verdade, é até difícil explicar, porque são muitos pensamentos e emoções que a gente sentiu naquele momento. O que mais me deixou feliz foi perceber que todo o trabalho construído há muito tempo valeu a pena. O meu trabalho dentro da equipe não começou há três ou quatro anos antes das Olimpíadas. Eu comecei aos quatro anos de idade para conseguir conquistar esse feito com a equipe. A gente ficou muito feliz com o resultado porque sentiu que todo esforço e trabalho de cada pessoa, de cada atleta dentro da equipe, realmente valeu a pena. As dificuldades e as incertezas fizeram parte do caminho, mas conseguimos mostrar ao mundo do que a ginástica brasileira é capaz, o quanto vem evoluindo e onde quer chegar.
Você é especialista em solo e trave, aparelhos em que já alcançou notas expressivas, como o 13.800 na trave nos Jogos Olímpicos. Como tem sido o trabalho para manter a consistência e buscar séries cada vez mais competitivas?
Bom, o trabalho continua ainda mais forte e focado para que eu consiga evoluir na trave. A gente sabe, e eu sei, da potência que eu tenho nesse aparelho, sei onde quero chegar e até onde posso ir. Por isso, coloquei algumas dificuldades nesse aparelho, conversando muito estrategicamente com as minhas técnicas e com toda a equipe, para montar uma série em que eu consiga aumentar ainda mais a minha nota e ter um resultado melhor do que nos Jogos Olímpicos.
Ainda muito jovem, você entrou para a história da ginástica ao homologar o movimento “The Soares” no Código de Pontuação da FIG. O que significou para você ter uma manobra batizada com o seu nome tão cedo na carreira?
Sendo tão nova, uma menina de 15 anos, poder homologar um elemento com o meu próprio nome foi uma experiência única na minha vida. Tenho certeza de que poucos atletas conseguem isso dentro da carreira, e eu estou entre esses poucos. Fico muito feliz porque era um sonho meu desde novinha, quando eu tinha como exemplo a Daiane dos Santos, que também tinha o seu próprio elemento. Foi ali que esse sonho começou dentro de mim. Com o tempo, quando a Irina perguntou se eu queria ter um elemento, aquilo se tornou um objetivo. Foi um trabalho muito difícil, com treinos à noite e além do horário, para que eu pudesse desenvolver ainda mais esse novo elemento. Fico muito honrada e grata, principalmente a Deus, por ter tido essa oportunidade e conseguido colocar meu nome na história do esporte.
Em Paris, além do bronze por equipes, você alcançou a final individual da trave. Mesmo após um desequilíbrio na decisão, você terminou entre as melhores do mundo. O que aquela experiência ensinou para sua evolução como atleta?
Ter tido essa experiência na final da trave nas Olimpíadas foi incrível para mim. Eu queria muito aproveitar aquele momento porque estava entre as melhores do mundo. É óbvio que a gente sempre almeja fazer a melhor série possível naquele momento. Aconteceu aquele erro, claro, mas isso faz parte. Eu sou uma atleta muito jovem ainda e estou vivendo muitas experiências. Poder competir ao lado da Rebeca foi um momento único na minha vida. Aprendi muito com aquilo e levo esse aprendizado para sempre.

Você começou na ginástica aos 4 anos, em Curitiba, e hoje representa o Esporte Clube Pinheiros e a seleção brasileira. Quando olha para a trajetória até aqui, quais metas ainda sonha alcançar nos próximos ciclos olímpicos?
Eu sei que, mesmo muito jovem, já conquistei muita coisa na minha carreira, mas ainda tenho muitos objetivos daqui para frente. Com certeza, penso nas Olimpíadas de Los Angeles 2028, com o objetivo, se Deus quiser, de conquistar mais uma medalha por equipes. Hoje, eu também gostaria muito de disputar novamente uma final de trave e uma final de solo, que são grandes sonhos para mim. São praticamente três anos até as Olimpíadas, então sei que tenho muito trabalho pela frente. Mas eu sei que sou uma mulher muito dedicada e muito guerreira, então quero isso para mim e vou fazer de tudo para tornar esse sonho realidade.
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