entrevista

‘Medalhas ficam na estante, mas legado e experiência permanecem’, afirma Arthur Lacerda

Nadador belo-horizontino fala sobre mudança para Curitiba, a entrada para a Seleção Brasileira de Águas Abertas e planos para os Jogos de Los Angeles-2028

Angel Drumond
angel.lima@hojeemdia.com.br
Publicado em 03/08/2026 às 07:00.
O jovem atleta vem colecionando marcas e conquistas (Lin Junior)
O jovem atleta vem colecionando marcas e conquistas (Lin Junior)

Aos 19 anos, Arthur Lacerda de Aguiar já coleciona resultados que o colocam entre os nomes promissores da natação brasileira. Natural de Belo Horizonte, o atleta iniciou a trajetória ainda criança e passou mais de uma década no Mackenzie Esporte Clube, onde construiu a base da carreira e conquistou títulos estaduais, além de chegar a finais de Campeonatos Brasileiros na piscina.

A busca por novos desafios levou o mineiro a mudar de rumo em 2025. Aos 17 anos, ele deixou a casa da família e se mudou sozinho para Curitiba (PR), onde passou a defender o Clube Curitibano. A decisão marcou o início de uma nova fase, agora com foco nas águas abertas, modalidade na qual rapidamente passou a conquistar resultados expressivos em nível nacional e internacional.

Em poucos meses, Arthur garantiu vaga para o Mundial Júnior de Águas Abertas, passou a integrar a Seleção Brasileira e subiu ao pódio em etapas do Campeonato Brasileiro e em competições internacionais. Paralelamente, manteve o bom desempenho na piscina, mostrando versatilidade em provas de diferentes características e reforçando a projeção de uma carreira voltada para o ciclo olímpico.

Em entrevista ao Hoje em Dia, o nadador relembra a formação em Belo Horizonte, fala sobre a decisão de deixar Minas Gerais para perseguir o sonho de representar o Brasil e explica por que acredita que o maior prêmio da carreira de um atleta vai muito além das medalhas.

Você começou a nadar ainda criança em Belo Horizonte e passou mais de 10 anos no Mackenzie. O que esse período representou para a sua formação como atleta e como pessoa?

O Mackenzie foi onde eu cresci dentro da natação. Comecei a nadar aos seis anos e, um ano depois, já estava no clube. Foi lá que aprendi tudo sobre o esporte: disciplina, espírito esportivo, dedicação e também a lidar com as frustrações e celebrar as conquistas. Tive a felicidade de ser orientado pelos técnicos Henrique Márcio e Mário Belisário, que foram fundamentais na minha formação, contribuindo não apenas para o meu desenvolvimento como atleta, mas também para os valores que levo comigo até hoje. Grande parte da pessoa e do atleta que sou hoje foi construída no Mackenzie.

Depois de construir uma carreira de destaque na piscina, você decidiu encarar um novo desafio nas águas abertas. O que motivou essa mudança e quais foram as principais diferenças que encontrou entre as duas modalidades?

Decidi encarar esse novo desafio nas águas abertas porque sentia que precisava de novos estímulos. Eu já estava um pouco mais velho e, apesar de ter conquistado resultados importantes em nível estadual, ainda buscava me firmar nacionalmente. Estava um pouco desmotivado com os meus resultados na piscina e senti que era o momento de ressignificar a minha relação com a natação. 

A principal diferença que encontrei nas águas abertas, além dos treinamentos, que são bem diferentes, é a dinâmica da prova. Existe muito mais contato físico, e a parte estratégica faz toda a diferença. É preciso saber o momento certo de atacar, economizar energia e se posicionar bem durante toda a prova para chegar ao final disputando as primeiras colocações e brigando por uma medalha.

Em 2025, você deixou Minas Gerais para morar sozinho em Curitiba e defender o Clube Curitibano. Como foi tomar essa decisão aos 17 anos e quais aprendizados essa mudança trouxe dentro e fora das competições?

Foi uma decisão difícil, porque significava abrir mão do conforto de casa, da convivência com a minha família e das amizades para correr atrás de um sonho. Ao mesmo tempo, era uma oportunidade que me enchia de entusiasmo. Eu sempre quis conquistar minha independência e levar a minha natação para novos lugares, além de Belo Horizonte. Essa oportunidade surgiu por meio do meu atual técnico, Ken Sorgi, que acreditou no meu potencial e me convidou para fazer parte desse novo projeto. Sua confiança foi fundamental para que eu tivesse coragem de dar esse passo tão importante na minha carreira. 

A mudança também representava a chance de viver novas experiências, conhecer pessoas, culturas e enfrentar desafios que me fariam evoluir não apenas como atleta, mas também como pessoa. Apesar da insegurança natural que acompanha uma decisão tão grande, cheguei a Curitiba muito feliz, motivado e com a certeza de que estava no caminho certo, honrado por representar um clube tão tradicional e respeitado como o Clube Curitibano.

Em pouco tempo nas águas abertas, você conquistou a vaga para o Mundial Júnior, passou a integrar a Seleção Brasileira e já soma resultados importantes em etapas do Campeonato Brasileiro e competições internacionais. Você imaginava uma adaptação tão rápida à modalidade?

Sempre fui uma pessoa muito dedicada, então costumo mergulhar de cabeça em tudo o que me proponho a fazer. Isso fez com que as coisas acontecessem de forma natural ao longo da minha trajetória. Mesmo assim, não imaginava que conseguiria me adaptar tão rápido.

Acho que isso se deve muito ao meu treinador. Desde que cheguei ao clube, ele não colocou nenhuma pressão sobre mim, justamente por entender que eu estava começando em uma modalidade nova. Pelo contrário, deu-me tempo para aprender, errar e evoluir no meu ritmo. 

Além disso, o diálogo constante e o planejamento dos treinos foram fundamentais para que essa adaptação acontecesse da melhor forma. No fim, tudo se encaixou naturalmente. Fui muito bem acolhido pelo clube e pela equipe, e isso fez toda a diferença. Em vez de cobrarem resultados imediatos, deram-me confiança para desenvolver o meu trabalho, e acredito que esse ambiente foi essencial para que eu evoluísse tão rapidamente.

Mesmo com o foco nas águas abertas, você continua conquistando resultados expressivos na piscina, como a medalha no Campeonato Brasileiro de 2026. Como você equilibra o treinamento para duas modalidades que exigem características diferentes?

Apesar de o treinamento para as águas abertas ser bem diferente do treinamento de piscina, essa mudança acabou contribuindo bastante para o meu desempenho nas provas de piscina. Como os treinos de águas abertas têm um volume muito maior, passei a ganhar mais resistência e confiança. Quando chega a fase de reduzir a carga antes das competições de piscina, meu corpo responde muito bem. Depois de semanas treinando mais de 80 quilômetros, as provas de piscina, que têm distâncias menores, acabam parecendo mais leves fisicamente.

Acho que essa adaptação foi um dos principais fatores para a minha evolução. Mesmo sendo modalidades diferentes, uma acabou complementando a outra e contribuindo para os meus resultados.

Você costuma dizer que quer ser um exemplo para outras pessoas por meio da disciplina e da dedicação. Que mensagem gostaria de passar aos jovens atletas de Belo Horizonte e de Minas Gerais que sonham em seguir uma carreira no esporte?

A principal mensagem que eu gostaria de deixar para quem está começando no esporte é: acredite no seu processo. Se você realmente sonha com alguma coisa e está disposto a trabalhar por ela todos os dias, é possível chegar muito longe. Talvez não aconteça no tempo que você imagina, mas a dedicação sempre traz resultados. Independentemente da sua condição financeira ou da estrutura que você tem, faça o melhor com o que está ao seu alcance. Não se compare com quem parece estar seguindo um caminho mais fácil. Cada atleta tem a sua trajetória. O importante é fazer o que precisa ser feito todos os dias, com disciplina e constância. É justamente nos momentos mais difíceis, quando o cansaço bate e a vontade de desistir aparece, que a gente cresce. São essas pequenas escolhas diárias, de continuar mesmo quando parece difícil, que constroem um atleta e fazem toda a diferença lá na frente. Mas, acima de tudo, curta o processo. 

Muita gente acha que a felicidade está em subir no pódio, mas aquele momento dura 30 segundos, um minuto, no máximo. O que realmente fica são todos os dias de treino, as amizades que você constrói, as dificuldades que supera, as frustrações, as alegrias e tudo o que vive ao longo do caminho. A carreira de um atleta passa muito rápido. As medalhas ficam na estante, mas o legado que você deixa e as experiências que vive são o que realmente permanecem.

Seu planejamento passa pela Copa do Mundo de Águas Abertas em 2026 e, principalmente, pelas Olimpíadas de Los Angeles em 2028. Quando você olha para esse objetivo, o que acredita que ainda precisa evoluir para chegar à disputa olímpica representando o Brasil?

Acredito que, neste momento da minha carreira, o principal foco é continuar evoluindo nos treinamentos. Em relação à mentalidade, ao suporte da equipe técnica e à estrutura que tenho hoje, sinto-me muito bem amparado e sou muito grato por isso.

Agora, o que depende de mim é colocar a cabeça na água e trabalhar cada vez mais. Sei que alcançar um objetivo tão grande quanto disputar uma Olimpíada exige dedicação diária, paciência e muita consistência. É isso que busco fazer todos os dias: evoluir um pouco mais e aproveitar ao máximo todo o suporte que tenho para chegar cada vez mais perto desse sonho.

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