'O leitor mais preparado tem mais possibilidade de transformar a sociedade', afirma Leida Reis
Jornalista, escritora e fundadora da Literíssima Editora é curadora da 8ª edição do Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas, que começa nesta terça-feira (22)

Jornalista e escritora, Leida Reis construiu uma trajetória importante no mercado editorial em Belo Horizonte. Fundadora da Literíssima Editora, a mineira nascida em Patrocínio, no Alto Paranaíba, se dedicou principalmente à publicação de livros infantis. Neste ano, ela assume a curadoria da 8ª edição do Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas, que reúne mais de 70 atividades voltadas para a literatura e a educação entre esta terça-feira (22) e sábado (26), na Biblioteca Pública Estadual, na Praça da Liberdade, na região Centro-Sul da capital.
Com bate-papos, oficinas, contações de histórias e lançamentos literários, o evento homenageia neste ano o escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, reconhecido pelas obras voltadas ao público infantil. Ao Hoje em Dia, Leida conta sobre a relação com o autor e detalha como foi o processo de realização da curadoria. Ela também fala sobre temas atuais da literatura, como o poder de transformação da leitura e o impacto das redes sociais no comportamento dos leitores mais jovens.
Como foi o processo da criação da curadoria desta edição do Salão do Livro Infantil?
Começou com a ideia de homenagear o Bartolomeu Campos Queirós. Na minha editora, eu tenho um projeto que se chama “Escrita Jovem”, em que eu faço um concurso literário com jovens de 14 a 23 anos. No ano passado, o tema tinha sido o Murilo Rubião, e neste ano foi o Bartolomeu Campos Queirós. Então, por ter estudado um pouco mais sobre a obra dele e conhecer a importância dele não só como escritor, mas também como militante da literatura e da educação, eu decidi homenageá-lo.
A partir daí, fui construindo as mesas. Então, por exemplo, na programação tem o lançamento da biografia dele e tem uma mesa com a Rosa Filgueiras, que é coordenadora do museu dele em Papagaios. Criei também o “Leituras de Bartô”, com o contador de história Gugu Barba Verde, que traz no final de várias mesas a leitura de pequenos trechos de poemas do Bartolomeu, ou fazendo alguma encenação, para que o Bartolomeu esteja presente no evento todo.
Como no tema a gente alia o tema do passado ao presente, trouxe a Lavínia Rocha como autora atual. Ela era professora e é autora de várias histórias, participa de muitos eventos literários, agora teve a Bienal de São Paulo também, fez muito sucesso lá. Então, eu trago a Lavínia para representar essa nova geração, os escritores que são comprometidos com a educação.
E como tem sido esse diálogo entre a nova geração e um autor mineiro clássico, com uma longa trajetória consagrada?
Então, na programação tem pessoas que são especialistas em Bartolomeu, como, por exemplo, Christian Coelho, que fez doutorado sobre Bartolomeu, a Fabíola Farias, que também é um grande nome da literatura infantil e também é especialista em Bartolomeu. Ao mesmo tempo, vamos apresentar esse livro que foi lançado pela Literíssima, que é o “Bartolomeu Campos de Queirós na Escrita Jovem”, com esses autores jovens que a partir daí passaram a conhecer a obra dele.
Então é isso, a gente vai apresentar quem é o Bartolomeu, porque ele é tão importante quando a gente fala de literatura infantil. Eu acho que não tem um lugar melhor para isso do que o salão do livro, onde a gente vai ter a presença das crianças com um vale livro e tendo acesso às obras, então é importante que eles também conheçam quem foi o Bartolomeu, que também sejam estimulados a ler a obra dele.
Voltando a falar um pouco do Bartolomeu, tem um trecho do “Manifesto por um Brasil literário”, escrito por ele, que fala sobre a importância da literatura na promoção da humanidade e possibilidades de “idealizar outro cotidiano em liberdade”. Um episódio recente na Bienal de São Paulo, em que uma jovem que não gostou do Diário de Anne Frank porque achou que ela “se vitimizava” ao contar a própria história, ascendeu uma série de debates sobre a nova geração ser menos sensível e empática, mesmo quando ela lê. Como você percebe esse fenômeno entre estes leitores mais jovens?
Eu acho que não é uma questão dos leitores, eu acho que é uma questão da geração. Ainda bem que pelo menos ela leu o livro, né? O leitor tem direito de gostar ou de não gostar. Mas falando da questão da empatia, da sensibilidade, de ver e entender o outro, eu acho que é uma questão de geração, principalmente pela massificação das redes sociais, porque as redes sociais, elas incentivam muita competitividade, e esse é um problema dessa nova geração.
São os influencers que ditam as modas e os jovens menos letrados vão muito nessa competição, e aí eles não têm essa sensibilidade e a empatia com o outro tanto quanto há talvez na minha geração, quando a gente conversava mais e os contatos eram mais pessoais. Então, a gente convivia mais essencialmente com as pessoas do que hoje, porque o contato virtual tende a ser mais superficial.
Nesse texto do Bartolomeu, ele fala que um livro é sim um instrumento para a pessoa se transformar, não é só entretenimento, e também não é só didático. O livro é para transformar a pessoa, é para a pessoa perceber que o real é construído primeiro pela imaginação. Primeiro a gente pensa, depois a gente constrói o mundo. E, nesse sentido, o livro ele está à frente do filme ou do que um vídeo, porque o livro ele instiga. Você participa com a sua imaginação daquela história, né?
Tem algum ponto em que precisamos estar atentos em relação à promoção da literatura para que essa nova geração consiga expandir esse potencial da imaginação e do senso crítico que você mencionou?
Acho que aí entra muito qual é a produção literária que está sendo oferecida para esses jovens, porque os best-sellers, principalmente aqueles que vêm de fora, são livros que não instigam tanto esse senso crítico. Por exemplo, os romances focados em relacionamentos, que são muito vendidos: são histórias mais simples, que preparam o leitor, por exemplo, para olhar para a política - e não no sentido partidário, mas no sentido de que todo mundo tem que ajudar a melhorar a sociedade.
Ao mesmo tempo, hoje as escolas também não começam a leitura com livros mais difíceis, como Machado de Assis. Começam com Harry Potter ou Diário de Banana, que são livros mais simples, e eu sou a favor disso, porque eu acho que o importante é começar a ler. Começa com um livro divertido e que a criança se identifica, e depois ela vai ler coisas mais aprofundadas.
Então acho que essa é a discussão, sobre qual livro oferecemos para esses jovens, e aí entra o papel das editoras. Mas elas estão inseridas num modelo de negócio também, o que vende mais é o que elas vão produzir mais. Logo, essa discussão também é um papel do poder público - por meio das secretarias de educação, que é decidir quais livros elas vão comprar para as bibliotecas dessas escolas, que livros vão ser adotados.
Você falou sobre as redes sociais. A Lavínia, um dos destaques da programação do Salão, se tornou muito conhecida pelos vídeos que ela fazia principalmente no TikTok. Para além dos desafios de incentivar a literatura, que você já mencionou, você enxerga nas redes um potencial para divulgar a leitura?
Sim. A gente não pode demonizar as redes sociais e a internet, porque tem um lado positivo, são importantes instrumentos de divulgação da literatura. A Lavínia é um exemplo. O livro dela, “O que você pensa se eu falo África?”, que é um grande sucesso, ela divulgou muito nas redes sociais. Outros autores que usam as redes sociais também. Por exemplo, o Antônio Fagundes, que fez um personagem em uma novela que era um editor, então ele começou a indicar livros na novela, e depois no Instagram dele também. Então as redes sociais são aliadas também da leitura, e eu acho que todas as formas de divulgação dos livros literários são válidas.
Ainda falando sobre o trabalho da Lavínia, que tem como foco a igualdade racial, na programação do Salão tem uma apresentação do Tom Nascimento sobre a história do tambor. Como tem sido essa construção do debate das questões raciais dentro dessa programação?
Eu tentei trazer autores e autoras que mostram isso, porque essa produção é importante e ela está crescendo. Eu descobri também a Poliana, do Kilombo Literário, que construiu uma biblioteca focada na literatura negra e indígena (em Palmital, Santa Luzia). É uma pessoa que achei importante também trazer, para que o trabalho dela seja conhecido. É uma literatura muito importante, hoje a gente tem uma lei que obriga o estudo da história da África nas escolas, que é uma medida importante, mas que não é totalmente cumprida.
Fizemos uma entrevista com a Maria Mazzarello, da Mazza Edições, em que ela falou sobre essa lei e mencionou principalmente a dificuldade de falar sobre as religiões de matriz africana. Esse assunto entrou na programação do Salão? Como tem sido esse debate com o público infantil?
Na programação, não incluí esse tema diretamente, mas tem, por exemplo, a Cláudia Magno, que é rainha do Congado e é uma autora do livro “Rainha Cacau”. Mas eu não trouxe especificamente essa questão religiosa exatamente porque é difícil tratar isso com as escolas. Eu acho que as crianças são muito abertas a conhecer, porque essas religiões fazem parte da cultura da África, e nós todos somos filhos da África.
Mas a questão não são as crianças, são os pais. A gente vê nas escolas uma dificuldade com os pais, porque há um preconceito mesmo quando se fala de religião de matriz africana. Mas como a escola precisa ser laica, a gente tem que entender até certo ponto essa dificuldade. Porque a religião tem que ser apresentada nesse caso como cultura, e não como imposição de uma crença, não como imposição de crença.
Então é uma questão muito difícil, porque a apresentação desses livros não é enquanto religião, é enquanto cultura. A Mazza, por exemplo, tem livros maravilhosos nesse sentido - enquanto cultura, não enquanto religião. Então, esses livros precisam entrar nas escolas sim.
Para fechar, pode indicar dois livros que você leu recentemente, um para adultos e outro para crianças?
Para adultos eu vou indicar um livro que vai ser a próxima leitura no meu clube do livro, que é o “Assim na Terra Como Embaixo da Terra”, da Ana Paula Maia. É um livro de uma narrativa muito extensa, mas foi o último livro que eu li e gostei bastante. Já infantil, vou indicar um da minha editora, que é de uma escritora que já ganhou três prêmios Jabuti, a Maria Valéria Rezende. É “As Trapalhices do Rei Ramiro”, que é uma parlenda. Recomendo ele tanto para adulto quanto para as crianças, que vão adorar com certeza.
* Estagiária sob supervisão de Renato Fonseca
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