'O pop-rock mineiro não deixa de ser rock para ser pop e tocar nas rádios', diz vocalista do Lagum
Um dos principais expoentes do gênero musical no estado, grupo se prepara para “jogar em casa” e estrear turnê que celebra 12 anos de trajetória da banda em BH

Em 2014, Belo Horizonte se tornava berço da banda Lagum. Na época, os jovens músicos mineiros nem imaginavam que acabariam se consolidando como um dos principais nomes do pop-rock brasileiro. Ao longo desses 12 anos, o grupo emplacou sucessos como “Deixa” e “Oi”, cativou uma legião fiel de fãs, subiu em palcos de todas as partes do país e até pelo exterior e acumulou conquistas - como três indicações ao Grammy Latino e quatro troféus do Prêmio Multishow.
Agora, como bons filhos que a casa tornam, Pedro Calais, Zani (Otavio Cardoso), Jorge (Glauco Borges) e Chicão (Francisco Jardim) iniciam em BH uma celebração à trajetória consolidada pela banda. A turnê "Lagum em Todo Lugar" estreou no sábado (17), no Arena Hall, na Savassi.
Ao Hoje em Dia, Pedro (vocalista), Jorge (guitarrista) e Chicão (baixista) contam as expectativas para a turnê e sobre como enxergam a nova cena da música mineira. Eles também falam um pouco da relação com os fãs e sobre os planos para o “Bloco Lagum na Avenida”, projeto que a banda toca no Carnaval de BH já há três anos consecutivos.
Hoje em Dia (HD): como surgiu a ideia de fazer essa turnê celebrando a trajetória da banda? São quantos anos de Lagum?
Pedro: A banda tem 12 anos, começamos em 2014, mas o nosso primeiro álbum completou 10 anos esse ano. A gente está fazendo essa turnê que, além de celebrar, propõe uma expansão da banda. Atualmente, a gente só tem algumas capitais, vamos anunciar novas datas ainda. Estamos indo de casas pequenas a casas gigantes e fazendo esse movimento de estar em todo lugar e rodar o máximo que dá nesse Brasil.
Além disso, a turnê vai acompanhar as live sessions que estamos fazendo em diversos lugares. Por exemplo, a gente fez um vídeo tocando ao vivo dentro do Bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Então, vamos lançar mais dessas live sessions e mais músicas novas também.
HD: a banda sempre se preocupou em construir uma relação muito próxima com os fãs. Recentemente, vocês fizeram um show em uma varanda na Rua Sapucaí, em BH, voltado justamente para quem acompanha o grupo bem de perto. Para vocês, qual é a importância de manter essa relação?
Chicão: a gente sempre teve um carinho muito grande pelos fãs. Uma ação que me marcou muito foi antes do lançamento de um álbum, em que gravamos as músicas em fitas antes delas irem ao ar e distribuímos elas pelo Brasil. Assim que a gente revelou onde elas estavam, os fãs foram atrás dessas fitas e pegaram em questão de instantes.
Para a gente, os fãs são a coisa mais importante das nossas carreiras. Acho que essa turnê do “Lagum em Todo Lugar” é uma turnê muito legal porque ela vai pegar os fãs de todas as temporadas da da banda. Então a gente tem a expectativa de encontrar todo mundo, visto que é um show que vai contemplar todos esses fãs, seja o fã de 2016 do primeiro álbum, seja o fã que escutou as músicas agora recentemente.
HD: conversando com outros artistas da cena musical mineira, a Lagum é vista como um expoente de uma nova cena musical que conseguiu uma projeção fora do estado a nível de nomes consagrados de gerações anteriores (como Clube da Esquina e Skank, por exemplo) em um período em que os holofotes estavam muito voltados para o eixo Rio-São Paulo. Como vocês enxergam esse movimento desses novos artistas mineiros ganhando cada vez mais destaque?
Pedro: a música mineira sempre representou uma fatia muito especial da música brasileira, são pessoas e bandas que têm personalidade muito forte. Acho que o exemplo mais recente que a gente tem dessa força mineira é a Marina Sena, que é uma cantora pop que talvez seja a maior que temos no momento. Então, é muito maneiro ver como Minas exporta para o Brasil todo coisas muito singulares que se tornam símbolos. A gente tem o Djonga no rap, o Sidoka no trap, o KVSH na música eletrônica… Tem coisas muito especiais em diversas frentes.
A gente, como parte do pop rock mineiro, talvez sejamos sim um dos maiores representantes da nova geração. A gente tem um histórico, com Jota Quest, Skank, Pato Fu e Tia Nastácia, que já mostrava um pouco desse pop-rock mineiro, que não deixa de ser rock e de ter atitude para alcançar o pop, para tocar nas rádios. Então, acho que Minas tem essa característica, que é a carga de raiz que tem, mas que consegue ser bastante ouvido e carregar multidões.
Eu tenho visto muitas bandas e novos artistas que ouvem Lagum e se inspiraram na gente de alguma forma. Eu também consigo ver uma nova geração, é, vindo com propostas muito legais. Em BH, vejo o Rafa Bicalho, a Augusta Barna, o Gustavo Vaz (que é de BH, mas hoje mora em São Paulo), que são pessoas com uma capacidade musical fora da curva e muito inteligentes musicalmente. São artistas com uma veia para o pop, que conseguem dialogar com multidões. Me deixa muito feliz em saber que a gente faz parte disso.
HD: entrevistamos o Rogério Flausino, do Jota Quest, e ele citou o Lagum como a primeira das opções da nova geração da música mineira com quem ele gravaria. Tem algum desses nomes, que você mesmo mencionou que vieram depois do Lagum, que vocês tem vontade de gravar junto ou fazer algum tipo de colaboração?
Pedro: todos esses nomes que eu falei eu teria vontade de colaborar. Acho que a gente estando em BH, a gente acaba frequentando lugares e festivais onde a gente se cruza, então acho que se firma uma parceria muito legal de construção da carreira, não necessariamente apenas através de um lançamento.
No aeroporto, né, a gente se encontra bastante. É uma ideia mesmo de “olha, já passei por esse caminho”, “acho que você pode olhar para isso dessa forma”, “evite isso”, “fortaleça isso”... Acho que isso é uma maneira também de colaborar com a música mineira.
HD: você falou muito sobre isso de frequentar os mesmos lugares, inclusive festivais. Em 2022 vocês fizeram o festival “A Ilha”, com uma programação repleta de shows de artistas mineiros. Existe essa ideia de voltar com esse festival ou algum projeto parecido? De fazer eventos trazendo pessoas da cena musical mineira?
Jorge: acho que o evento que a gente melhor consegue fazer isso atualmente é o Carnaval. Eu acho que ele é uma grande festa celebrativa, não só do nosso repertório, mas também da música mineira. Esse ano a gente teve a oportunidade de homenagear o Lô, que era um artista que inclusive estava em processo de participar do nosso bloco neste ano, mas infelizmente acabou partindo no ano passado.
A gente tem a honra de compartilhar do mesmo produtor, que é o Rodrigo Brasil, e a gente já estava acertando tudo. Então a gente vê que o Carnaval realmente é um momento mais propício que a gente tem nas mãos para poder fazer esses encontros, justamente pelo Carnaval ter esse movimento de liberdade e a gente poder experimentar.
HD: e o bloco do Lagum volta para as ruas de BH no ano que vem? Está confirmado?
Pedro: confirmado é uma palavra muito forte, porque não depende só da nossa vontade. A gente precisa ter acesso a editais, são muitas burocracias. Mas desde que a gente começou, a nossa ideia é que tenha todo ano o nosso bloco e vamos continuar com os esforços para que ele aconteça no próximo ano. É uma coisa que não depende só da nossa vontade, tem muitos processos ainda até lá, mas a gente vai trabalhar para isso.
HD: vocês vão iniciar a turnê aqui em BH e vão ficar até o final deste ano rodando com o show. Como estão os planos para o ano que vem? Pretendem fechar mais datas? Pensam em ir para estúdio?
Jorge: neste ano, a gente passou novamente por esse processo de ver o tanto de trabalho que é levantar uma turnê do zero, porque tem uma parte muito grande da produção musical, de rearranjar todas as músicas, de trabalhar todas as luzes e o mapa de palco… É um trabalho muito grande e a gente viu que muitas vezes em outras turnês a gente esgotava isso muito rápido, de em seis meses querer mudar tudo.
Então é uma turnê que a gente realmente quer ficar com ela por bastante tempo, dado a todo esse investimento que a gente fez, mas a gente também respeita que a turnê é um organismo vivo, ela vai se modificando à medida que os fãs vão respondendo.
HD: pra fechar, vocês contaram sobre as live sessions que vocês tem gravado em diferentes lugares. Queria que cada um escolhesse um local de BH (que pode ser icônico ou até inusitado) onde vocês acham que deveria ser gravado um live session do Lagum.
Chicão: Vou responder a Serra do Curral. Acho que é um lugar que tem um grande valor para a gente e daria uma live session super linda.
Pedro: eu sugeriria o Minhocão do Parque Guanabara em movimento, icônico.
Jorge: eu sugeriria o Viaduto Santa Tereza, sem o trânsito impedido, com os carros passando no fundo, e fazer um recuadinho pra deixar a música rolando.
* Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca
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