
Com homenagem ao cinema mineiro no desfile deste ano, o Samba Queixinho promete celebrar quem produz sétima arte - e com qualidade - em Minas Gerais. Fundado em 2009 por oito amigos com a proposta de ocupar as ruas de Belo Horizonte com boa música de percussão, a agremiação é atualmente uma das mais curtidas pelos foliões. Na bateria, instrumentos como rocar, tamborim, repique, caixa e surdo para oferecer ao público uma mescla de samba, funk e outros ritmos populares brasileiros.
Um dos fundadores, o jornalista e músico Gustavo Caetano destaca que, ao longo desses 15 anos, o Samba Queixinho marcou trajetória com homenagens a nomes e instituições da cultura regional, como os grupos Galpão, Giramundo e O Corpo, além da Orquestra Filarmônica.
Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Caetano detalha a escolha do tema do desfile deste ano, relembra homenagens anteriores e explica como o bloco funciona, para além da folia. Vale destacar que o cortejo do Queixinho é domingo (15), com concentração na Praça da Liberdade, 12h30.
O Samba Queixinho desfila em 2026 com o tema “O Cinema é nóis”, homenageando o cinema mineiro. Como surgiu a ideia de levar o audiovisual para a avenida e por que esse diálogo com o Carnaval é importante para o bloco?
A homenagem do Samba Queixinho neste ano é para os trabalhadores e as trabalhadoras do cinema mineiro. Todos os anos, o Samba Queixinho faz uma homenagem a alguma figura ou iniciativa culturalmente importante, algo que toque a vida das pessoas, que deixe um legado e contribua para tornar a vida delas melhor.
Já homenageamos o Grupo Galpão, o Grupo Corpo e, neste último ano, Carla Madeira. Também já prestamos homenagem a Nenê, à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e ao Teatro de Bonecos Giramundo, entre outros. Para nós, faz todo sentido homenagear um setor que ainda não havia sido lembrado: o dos trabalhadores e das trabalhadoras do cinema mineiro. E, quando falo do cinema mineiro, estou falando das pessoas.
Não me refiro apenas a atores e atrizes — que também fazem parte —, mas a quem está por trás e faz o cinema acontecer. Para que um filme seja realizado, são gerados milhares de empregos e renda, beneficiando muitas pessoas.
Estamos falando do cenógrafo, da maquiadora ou do maquiador, do preparador de atores, do roteirista, do assistente de câmera, do maquinista, do eletricista, da camareira e da equipe de alimentação. O foco está no trabalhador e na trabalhadora do cinema mineiro.
O cinema mineiro conta com muitas pessoas que trabalham com maestria para torná-lo um dos maiores do mundo. Temos profissionais em Minas Gerais que não devem nada a nenhum outro pólo cinematográfico. Não é melhor, nem pior. É um cinema feito com qualidade.
A homenagem deste ano é dedicada simbolicamente a Gabriel Martins, Raquel Hallak e Rejane Faria, que representam diferentes frentes da cadeia audiovisual. O que esses nomes simbolizam dentro da proposta do desfile e da história cultural de Minas?
A gente resolveu, humildemente, fazer um recorte do cinema nacional, especialmente do cinema mineiro, convidando algumas pessoas para que, de forma simbólica, representem os setores aos quais pertencem. Temos, por exemplo, a área dos festivais e da produção.
Chamamos Raquel Alkmim, que é uma das figuras mais importantes dessa área de produção e de festivais no Brasil. Ela realiza diversas mostras em várias cidades de Minas Gerais e, por isso, representa esse setor.
Na parte de atores e atrizes, há muitas pessoas que poderiam cumprir esse papel de representar o cinema mineiro, mas fizemos o recorte com Rejane Faria, uma atriz em evidência, que participou de diversos filmes mineiros e nacionais, atua em novelas com frequência e também no teatro. Ela é uma das representantes dos atores e atrizes de Minas Gerais.
Já Gabriel Martins, o Gabito, representa a parte técnica do cinema mineiro. Simboliza diretores e diretoras, primeiros e segundos assistentes, foquistas, maquinistas, eletricistas, figurinistas, cabeleireiros e cabeleireiras, maquiadores e maquiadoras, além de motoristas e equipes de alimentação — todos que integram a equipe técnica do cinema mineiro.
O desfile acontece nos arredores da Praça da Liberdade, um espaço simbólico para a cultura da cidade. O que o público pode esperar da ocupação desse território pelo Samba Queixinho neste domingo de Carnaval?
O desfile no entorno da Praça da Liberdade começou em 2010. Antes disso, no início daquele ano, já havíamos feito uma apresentação no Parque Municipal, mas foi a partir de 2010 que passamos a realizar o cortejo na Praça da Liberdade.
A escolha do trajeto teve como objetivo ocupar o espaço público e reforçar a ideia de que ele pertence à cidade como um todo, podendo ser utilizado pela população.
A ocupação da Praça da Liberdade teve um caráter simbólico para o grupo, por ter sido o primeiro local onde desfilamos pela Alameda. Desde então, mantemos o percurso no entorno da praça, em um gesto que representa a relação do bloco com a cidade.
Você costuma dizer que “Carnaval é o ano todo” dentro do Queixinho. Como esse trabalho contínuo, com oficinas e formação de ritmistas, reflete diretamente na qualidade e na identidade do desfile?
A bateria do Samba Queixinho é uma das maiores características do Carnaval de Belo Horizonte porque, desde 2009, realizamos um trabalho constante. Costumamos dizer que o Samba Queixinho, ao final do Carnaval, quando a festa termina, na verdade simboliza o início do próximo. Portanto, o Samba Queixinho não para. Desde 2009, ele se mantém ativo. Assim que o Carnaval acaba, na semana seguinte, já retomamos as aulas.
Por quê? Porque o processo do Carnaval tem por trás toda a história das grandes baterias de Belo Horizonte, dos ritmistas e dos batuqueiros que a cidade sempre teve.
Essa vocação do mineiro e da mineira para a percussão, seja no samba, no maracatu, no samba-reggae ou em ritmos afrodescendentes e característicos da cidade, sempre existiu. Então, o Samba Queixinho dá continuidade ao trabalho ao longo de todo o ano, com suas aulas e oficinas, porque, para nós, o Carnaval não para: ele acontece o ano inteiro. Sempre foi assim desde 2009.
A bateria é um dos grandes destaques do bloco e fruto de um processo formativo constante. Como tem sido a preparação para o Carnaval de 2026 e o que torna a bateria deste ano especial?
Este ano, a bateria vai apresentar várias “bossas” que já fazem parte do nosso repertório. Bossa é quando se faz uma intervenção musical da própria bateria ao longo do cortejo. A nossa principal característica é desfilar por seis horas seguidas, de forma ininterrupta. Não temos trio elétrico. Nosso projeto é voltado à percussão e é formado por alunos que estudam conosco ao longo dos anos.
Preparamos diversos ritmos que já executamos, além de algumas novidades. A principal contribuição do Samba Queixinho, que consideramos um legado para a cidade, é ensinar as pessoas a tocar um instrumento com consciência e respeitando a tradição. O Samba Queixinho é um bloco tradicionalista e funciona como uma escola fundamental de ritmos brasileiros.
Ao longo de mais de 15 anos, o Samba Queixinho construiu uma trajetória marcada por homenagens à cultura mineira e pela ocupação do espaço público. De que forma o bloco se enxerga hoje dentro do Carnaval de Belo Horizonte?
Para explicar como nos enxergamos no Carnaval de Belo Horizonte, diria que nos vemos, com humildade, como um grão de areia na imensidão do mar. Belo Horizonte e Minas são um celeiro de cultura amplo e diverso, seja no teatro, na música, no cinema, na dança ou no circo.
O Samba Queixinho tem uma ligação direta com a rua, que é um espaço onde cabem diferentes manifestações culturais. Na rua, é possível levar alegria às pessoas, tornar o cotidiano mais leve e ocupar os espaços públicos com música.
Esse é o legado que buscamos deixar: contribuir para colorir musicalmente as ruas de Belo Horizonte por meio da bateria e das apresentações ao longo do Carnaval.
Depois do desfile, o que o público e os integrantes podem esperar do Samba Queixinho para o restante do ano em termos de oficinas, cursos e atividades formativas, mantendo viva essa relação entre cultura popular, cidade e criação artística?
O Samba Queixinho não para; é um projeto constante ao longo de todo o ano. Ao criar um bloco de Carnaval, não queremos apenas participar da folia, mas também refletir sobre o legado que deixamos para a cidade. Já vivenciamos o período de hiato do Carnaval de rua de Belo Horizonte, quando, em razão de políticas públicas mal aplicadas, houve tentativas de enfraquecer a festa.
Isso não se concretizou, em parte, porque os blocos caricatos e as escolas de samba mantiveram a tradição durante muitos anos, e os blocos de rua contribuíram para a retomada. Quando se promove uma oficina ao longo de todo o ano, com a preocupação de preservar o que os ancestrais deixaram como legado, também se constrói uma herança para as novas gerações.
O Carnaval de rua de Belo Horizonte se consolidou e não voltou a ser interrompido. Para nós, trata-se de um dos principais carnavais do país. Não consideramos relevante estabelecer comparações ou rankings, pois entendemos que os carnavais de rua, seja no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Salvador ou em Recife, têm a mesma importância em seus contextos.