‘Os homens se acovardaram na falsa paz que o dinheiro traz’, afirma Ebony, destaque no hip-hop
De língua afiada e tom politizado na hora de compor, a rapper critica a violência contra mulheres e também os "rappers masculinos"

Nascida em Queimados, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a rapper Milena Pinto de Oliveira ficou conhecida no Brasil inteiro pelo nome artístico: Ebony. Aos 25 anos, ela se consolida como uma referência do estilo musical no país, não apenas pela caneta afiada na hora de compor as rimas, mas pelo posicionamento firme diante de questões sociais e políticas, principalmente no que se refere a ser uma mulher negra.
O fato de ter muita opinião, claro, se reflete nas composições. As letras de Ebony abordam desde críticas a “rappers masculinos” aos relatos da vivência na Baixada Fluminense. E é justamente essa bagagem, de uma infância dura, como ela própria descreve, que norteia o KM2, álbum da rapper lançado em 2025 e que ganha uma versão de luxo nesta segunda-feira (6), com sete novas faixas – detalhes sobre o novo trabalho serão divulgados ao longo do dia.
Ao Hoje Em Dia, Ebony falou sobre o crescente destaque das mulheres no rap e a importância do estilo musical como uma ferramenta para denunciar as violências sofridas pelo gênero. Além disso, a cantora, que apresenta em 25 de abril a turnê do KM2 Deluxe na Autêntica, no Santa Efigênia, Leste de Belo Horizonte, falou sobre a relação com o público mineiro e contou as expectativas para o show.
Em uma entrevista em 2025, antes da versão original do KM2 ser lançada, você disse que esse álbum traz uma versão “um pouco mais profunda” sua. De que forma esse álbum dialoga com partes da sua história?
Eu li um texto que fizeram sobre o meu álbum (KM2), que eu achei muito bom, porque falava assim: “O disco não é linear e nem tão explicado e organizado, porque a vida da Ebony também não foi”. Me senti muito vista por esse texto, porque é literalmente isso. Minha infância e a minha adolescência foram muito misturadas.
Eu estava sendo reflexiva e assertiva, mas eu não estava sendo raivosa. Só que eu passei a mudar a minha percepção sobre a raiva feminina, e hoje estou aqui para validar a raiva feminina. Inclusive como uma mulher negra carioca, sinto muito isso aqui.
Tem um texto da Folha de São Paulo publicado nos anos 90 que diz que o Rio de Janeiro era um purgatório da beleza e do caos. A palavra “purgatório” encaixa muito nessa frase porque eu, como mina de favela, me sinto assim sabendo que às vezes eu vou sair e vai ter 70 corpos estirados no chão e as únicas pessoas chorando são as mães, e o restante das pessoas estão gravando ou tirando foto.
E quando a gente sente raiva, os homens falam que até entendem o que estamos falando, mas questionam o tom que estamos usando. Então, eu estou aqui para não pedir mais desculpas pelo meu tom.
Inclusive, você participou recentemente da assinatura do pacto nacional contra o feminicídio no Palácio do Planalto. Como você acredita que a música, principalmente o rap, pode transformar toda essa raiva em ferramenta de denúncia?
Os homens ainda têm os holofotes maiores e os microfones mais altos, e eu sinto que eles se acovardaram na falsa paz que o dinheiro traz. Parece que eles esqueceram completamente o porquê que eles são rappers e porquê que eles fazem o que eles fazem. Eu sei que eles ainda sentem raiva, mas na minha opinião, eles atribuem às mulheres tudo o que na realidade eles são.
Então, eles falam que as mulheres são boas em receber ordens, mas quem são ótimos em receber ordens são eles, porque alguém mandou eles calarem a boca e eles calaram, sendo que eles são rappers, se alguém te manda calar a boca, você faz uma música de 7 minutos. Então, não é como o rap pode ser isso, mas eu sinto que está muito adormecido porque os homens se acovardaram na falsa tranquilidade que o dinheiro traz.
Você sempre diz que se formos nos referir às mulheres do rap como “rap feminino”, temos que começar a falar que os homens fazem “rap masculino”, porque as mulheres sempre atuaram no estilo musical. Como você vê esse momento dos holofotes se voltando mais para as mulheres que fazem rap ganhando mais espaço e músicas não só suas sendo cada vez um acesso maior?
Eu acho incrível, é isso aí mesmo. Assim que nós roubarmos todos os fãs e o dinheiro desses homens e todo mundo entender que nós somos as divas pops do momento, o que já está acontecendo, vai ser quente. Filho vai chorar e a mãe não vai ver. Estou aqui para roubar todos os contratos e shows de todos eles (rappers masculinos), não quero saber mais, estou em paz com a minha raiva.
Você tem falado muito de como começou a escutar MPB recentemente e teve uma conversa com a Adriana Calcanhoto após ela declarar ser sua fã. Você tem planos de fazer alguma parceria com alguém de outro estilo musical, talvez da MPB?
Todos os planos possíveis. Inclusive fiquei muito triste porque era para eu estar no álbum do Cícero (Lins), que eu ouço já há muito tempo, só que por estar trabalhando nas minhas paradas não consegui participar. Mas eu acredito que vai rolar esse feat sim. Tem muitos nomes com quem eu quero criar e que são grandes amigos meus, como, por exemplo, a Clarice Falcão. Recentemente, comecei a trocar artisticamente com o Rubel, talvez saia alguma coisa. A Marina Sena também, a gente já deve ter umas cinco músicas já gravadas aí ao longo da vida.
E em relação às mineiras do rap... Tem alguma com quem você planeja colaborar?
Eu tenho pra caramba. Meu pai é mineiro, então eu já morei em Minas, grande parte da minha infância foi em Carangola, até meu sotaque tem um pouco de influência do sotaque mineiro. Já tive pra fazer algumas coisas com a Mac Julia e outras pessoas também.
Eu sou muito de criar as músicas quando eu tô sozinha em casa, então a parceria musical para mim é algo que acontece quando o momento rola. Por exemplo, quando eu e Marina (Sena) estamos na casa dela, temos um instrumento aqui e vamos fazer música, porque é divertido. Tanto que tem amigas minhas do rap, como a Budah e a Duquesa, com quem eu não tenho feat, porque nunca aconteceu. Então, levo muito a sério isso da música ser espiritual, ela tem que pedir pra ser feita, não posso só negociar.
Falando em Minas, você vai trazer a turnê do KM2 De Luxo para BH. Como é sua relação com o público mineiro?
Eu amo. Eu me vejo muito em Minas. Inclusive, já tiveram amigos meus que falavam assim: “Se você não tivesse passado parte da sua vida em Minas, você seria totalmente diferente”. Tem muita coisa cultural de Minas que eu amo e ressoa em mim, sinto que os mineiros são ‘muita pureza’. E acho que eu sou pureza igual uma mineira, de querer saber como foi o dia das pessoas, e sinto que, muitas vezes, no Rio, as pessoas não entendem isso. Então, eu amo o calor das pessoas de Minas, amo a comida…
Recentemente você esteve em Nova York para participar do From the Block (canal norte-americano de performances de rua, considerado uma das principais vitrines globais do estilo musical) e foi a primeira brasileira a se apresentar na plataforma. Como você enxerga, de uma forma geral, esse momento da carreira que você está vivendo?
Eu acho que é uma visão que realmente tem que vir de fora, porque não consigo ver. É muito doido isso, porque para mim é só a minha vida, então não sei te dizer. Por exemplo, eu não acho que eu estar lá, ter conhecido a galera do From the Block e ter participado signifique que eu estou iniciando uma carreira internacional. Sinto apenas que eu estou botando meu corpo no mundo.
Depois que você fizer turnê do KM 2 de luxo, você já está pensando em fazer um novo álbum?
Eu vou fazer um álbum sobre o amor. Quero que seja depois do KM2, mas talvez eu tenha que fazer um lance antes, porque eu estou um pouco cismada com algumas coisas que eu preciso falar. Aí talvez eu lance um pequeno EP sobre essas coisas, para depois falar sobre amor depois.
E esse EP ainda vai ter isso de externalizar a raiva, que você mencionou antes?
Eu acho que é isso, porque como eu estava querendo tirar a raiva do KM2, acho que eu vou pegar toda raiva e colocar no EP. Então, vou pesar um pouco o clima ali e falar sobre amor depois.
* Estagiária, sob supervisão do editor Renato Fonseca
