ENTREVISTA

‘Parecia que o Tim Maia estava ali com a gente’, conta Rogério Flausino sobre gravação de tributo

Vocalista do Jota Quest conta sobre processo de produção do álbum, a relação com o cantor carioca e as expectativas para a turnê que vai rodar o país

Gabriela de Castro*
gabriela.castro@hojeemdia.com.br
Publicado em 07/09/2026 às 07:03.
Rogério Flausino da banda mineira Jota Quest (Fernando Young/Divulgação)
Rogério Flausino da banda mineira Jota Quest (Fernando Young/Divulgação)

Vocalista da banda mineira de pop-rock Jota Quest, Rogério Flausino se prepara para uma grande missão: rodar o país com uma turnê inspirada no legado de Tim Maia. Em 27 de agosto, o grupo lançou o álbum de tributo ao cantor carioca. Com 16 faixas e várias parcerias, o disco traz tanto sucessos do compositor quanto canções do “lado B” de Tim. 

O repertório foi apresentado ao vivo pela primeira vez no Rock in Rio nesse domingo (6), e agora o show seguirá para outras cidades brasileiras. “Só não posso adiantar as datas, porque eu ainda não as tenho”, disse Flausino. “Mas BH com certeza vai assistir esse Jota Quest toca Tim Maia.”

Ao Hoje em Dia, Rogério contou sobre o processo de produção do álbum, que celebra 30 anos do 1º disco da banda – o “J. Quest”, dedicado à black music e traz uma composição de Tim Maia, gravada em parceria com o músico antes de sua morte. Ele também fala sobre outras homenagens prestadas pela banda a artistas que vieram antes – como Rita Lee – e conta quais artistas da nova geração tem escutado.

Como surgiu a ideia de gravar um disco homenageando o Tim Maia? 

Nosso disco de estréia foi lançado em 1996 e foi totalmente dedicado à black music. Então, a gente foi atrás dos nossos grandes ídolos da black music nacional da época, e o Tim Maia sempre foi o maior representante desse estilo musical no Brasil. Na época, ele não tinha empresário, então peguei o contato dele com umas amigas daqui de BH que sempre traziam ele para tocar aqui e liguei. 

Ele achou muito engraçado uma banda de Minas querendo gravar uma música dele que não era um hit - se chama “Dance Enquanto É Tempo”, por isso o nome do álbum em homenagem a ele. Essa música acabou sendo a música de abertura de todos os shows da turnê da banda da primeira turnê do primeiro disco. E aí começamos a cruzar com o Tim em algumas situações, só que ele faleceu ali no início de 1998.

Nós tínhamos ali um ano e pouco de disco lançado e nós nos sentimos um tanto quanto “órfãos” naquele momento. A gente queria aprender mais com ele, e desde então a gente fala de fazer um disco em homenagem ao Tim Maia. Agora chegou a hora de celebrar os 30 anos desse disco do Jota Quest (que inclusive vai ser relançado em vinil), e a gente lembrou disso.

Aí, na época em que a gente estava de férias na época, o PJ foi para a Bahia, começou a fazer as paradas no computador e enviou para todo mundo, as demos foram ficando incríveis, ainda com a voz do Tim. Aí quando as férias acabaram a gente começou a trabalhar no disco. Começou com um lance de ser um EP, mas acabou virando um álbum de 16 faixas, dando uma geral aí na caminhada do Tim Maia.

É interessante que você fala justamente ter a voz do Tim nas gravações, o que dá até um pouco da sensação de que ele está ali dentro do estúdio com vocês gravando. Como foi essa ideia de colocar esses áudios nas faixas?

Primeiro que nada disso seria possível se não fosse o apoio do filho do Tim, que é o Carmelo. A partir do momento em que a gente viu a possibilidade de que a voz do Tim poderia estar no disco, mais do que nunca a gente ia precisar dele, porque esses fonogramas são os originais do Tim Maia. A gente não usou nenhum tipo de inteligência artificial para trabalhar com isso. 

Uma coisa foi somando a outra, porque o fato do PJ ter começado as demos a partir das versões originais com a voz do Tim ali meio que guiou esse processo. Então ele foi começando por ali e na hora que a gente ouviu com a voz do Tim, eu falei: "Pô, bicho, podia deixar essa voz aí, hein?". Aí, obviamente, se nós não tivéssemos o apoio do Carmel, as vozes teriam que ser totalmente retiradas.

Realmente parecia que ele estava ali com a gente, nós começamos a sentir isso também. Ele não aparece em todas as faixas. Por exemplo, nas músicas em que a gente precisou mexer no tom, teríamos que alterar a voz do Tim, então não inserimos as vozes, porque a premissa básica era que a gente não mexesse, em hipótese alguma, na voz do Tim, para que as vozes fossem originais. Então, por exemplo, “Que Beleza” não tem o Tim, porque não teria como ter a voz dele ali artificialmente falando.

Além do próprio Tim, o álbum tem várias participações e são bem diversas: Negra Li, do rap; Os Garotin, Tony Tornado e Lincoln Tornado, da black music e cultura soul; Mãeana, da MPB e que tem bastante habilidade em misturar outros gêneros musicais (como bossa nova e piseiro); e Thiaguinho, que é do pagode. Como foi feita a escolha desses artistas?

Foi acontecendo paulatinamente, nós começamos a olhar para cada música e falar, por exemplo: "Nossa, a Mãeana é a cara de ‘I Don't Know What To Do With Myself’”. Essa faixa é um lado B do Tim Maia em inglês, só que ela tem uma peculiaridade que na hora do refrão entrava umas meninas da bossa nova cantando o refrão. Então a gente estava procurando uma menina meio bossa nova. E aí o PJ tinha acabado de ver o show da “Mãeana canta JG” - que é João Gilberto e João Gomes - durante a viagem para a Bahia e falou: "Bicho, amanhã tô vindo para casa, vamos chamar ela". E ela topou na hora. Foi uma das primeiras a topar participar, a a topar. 

Das músicas que gravamos, “Réu Confesso” é a mais samba, então queríamos alguém do samba. Eu me lembro que naqueles dias ali, eu encontrei com o Thiaguinho e falei: "Mano, quero te chamar para fazer um negócio". Ele topou na mesma hora. Fui para São Paulo, gravei com ele lá. Ficou a coisa mais linda e achei que essa a gente conseguiu fazer um lance legal, porque é um samba soul, mas ela tem uma coisa de eletrônico junto e ficou meio moderna. 

Já o Tony Tornado, é muito especial a presença dele, porque há 30 anos, quando a gente lançou esse primeiro álbum em homenagem à black music, ele participou do disco. Agora ele tem 96 anos de idade e está cantando com a gente nesse novo disco com o filho dele, o Lincoln Tornado

A Negra Li já era amiga nossa, e quando estava fazendo o Descobridor do Sete Mares, que já foi muito regravado, e a gente falou: "Cara, tem que ter alguma coisa diferente, vamos chamar alguém do rap", e aí lembramos dela. 

O verso dela na faixa é um freestyle? Ou ela chegou com o texto pronto?

Ela escreveu antes, e foi muito legal porque quando eu comecei a pensar num rap assim, eu falei: "Não, eu não vou nem pensar porque galera do rap costuma escrever as coisas”, mas na minha cabeça vieram coisas a partir da letra, dos sete mares, do mar… sei lá, comecei a viajar. E ela chegou aqui com aquele escrito que era uma homenagem para o Tim Maia. Eu falei: "Nossa, mas aí ela arrebentou”. Somou muito para que essa faixa passasse a ser o single de estreia do disco.

No ano passado, vocês participaram de uma regravação de “Linda Juventude” para um álbum do Flávio Venturini. Também em 2025, vocês lançaram uma música em homenagem a Rita Lee. Na perspectiva de vocês, o que significa incorporar essas referências a quem veio antes na discografia do Jota Quest?

Não sei se é porque nós viramos todos cinquentões ou por a gente estar celebrando 30 anos do primeiro disco… acho que a gente amadureceu definitivamente em todos os sentidos. O Jota sempre fez regravações, sempre fomos muito gratos ao aos caras que vieram antes da gente, e graças a Deus não nos faltaram oportunidades de estar com esses caras e de cantar com eles. 

Então o falecimento da Rita, por exemplo, tocou todo mundo, a gente fez tava fazendo uma letra e acabou homenageando a Rita, colocamos o nome dela. O Flávio, gravando o seu disco 50 anos, nos convidou, e a gente falou: "Claro que a gente vai". Além do disco em homenagem ao Tim Maia, estou fazendo um trabalho com meu irmão em homenagem ao Cazuza, porque a gente ama o Cazuza. 

Então é uma coisa que tá vindo de dentro da gente e tal. E como são carreiras e obras profundamente bacanas e importantes, você acaba se reconectando com os motivos que te fizeram ser artista. É a hora que você vai ali de novo (e agora mais maduro), você consegue enxergar coisas que você não enxerga nas obras que sempre te fizeram a cabeça. E talvez a gente esteja enchendo o pulmão de ar para depois soprar algo novo.

Falando em “soprar algo novo”, o disco em homenagem ao Tim tem uma faixa em parceria com Os Garotin, que são da nova geração da música brasileira. Tem mais algum artista jovem que você tem escutado e pensa em trabalhar junto? 

Ah, cara, tem muita coisa que eu gosto. Bom, tem o Lagum, que é nossa banda mineira da nova geração e são uns queridões. Eu olho para eles, vejo tanto a gente, sabe? Aquela energia, aquela vontade… o Pedro (vocalista do Lagum), é um cara muito simpático e que escreve legal. É uma banda que tem referência, eu gosto muito disso. Acho que estamos numa fase musical muito boa, porque eu adoro o FBC, a Marina Sena, a Lamparina... 

Eu, como gosto muito de MPB, tenho essa influência muito forte, do Clube da Esquina e todas essas coisas, e a gente vê a nova geração bebendo na fonte da da MPB, eu acho isso muito legal e importante. Acho bacana, porque é a raiz da raiz. Então, o rock é um trem que chega depois da Música Popular Brasileira, a gente tem que buscar lá na fonte da fonte - então você vai indo atrás das referências.

Então, gosto muito desses meninos todos aí, gosto do Vitor Kley, acho um menino extremamente talentoso, faz pop rock mas também toca um violão muito bom. Gosto muito também de Anavitória, do Silva… 

Gosto muito de música eletrônica também, tem um monte de DJ legal, então aí já é uma outra parada que me pega  que eu gosto muito. Mas tô gostando demais de ver a molecada se voltando para boas letras, para a boa poesia e para a harmonia. Eu acho muito importante isso.

Voltando a falar sobre o álbum, vocês vão começar uma turnê tocando Tim Maia no Rock in Rio, e depois devem viajar o Brasil com esse show. Vai ter data em BH?

Vai ter BH com certeza. Eu só não posso adiantar as datas, porque eu ainda não as tenho. Gostaria de ter para já aproveitar esse momento de lançamento e contar onde é que vai ser, que dia que vai ser, mas nós ainda não batemos o martelo. Temos uma caminhada para acabar de fechar essas datas e montar essa lista de cidades, mas BH com certeza vai assistir esse Jota Quest toca Tim Maia.

*Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca

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