ENTREVISTA

Reduzir estrago das telas no cérebro dos alunos levará anos, diz PhD em neurociências

Professora, pedagoga, psicanalista e escritora, Ângela Mathylde Soares faz balanço de um ano da proibição do celular nas escolas

Ana Paula Lima
@anaplimabh
Publicado em 12/01/2026 às 06:00.
"Escola e família precisam atuar em corregulação, pois o cérebro aprende melhor quando há coerência entre os ambientes", diz Ângela Mathylde Soares (VALÉRIA MARQUES)
"Escola e família precisam atuar em corregulação, pois o cérebro aprende melhor quando há coerência entre os ambientes", diz Ângela Mathylde Soares (VALÉRIA MARQUES)

Um ano após a proibição dos celulares nas escolas, estudantes colhem frutos da medida: a menor hiperestimulação sensorial favorece a regulação emocional e aumenta a socialização. Mas reduzir pra valer o estrago das telas na capacidade de atenção, na autorregulação e na aprendizagem profunda será um processo de anos. Quem afirma é a PHD em neurociências Ângela Mathylde Soares.

Professora, pedagoga, psicanalista e escritora, atuando desde 1983 em escolas públicas e privadas, instituições filantrópicas e clínicas, ela explica que o cérebro “maltratado” é capaz de se recuperar, mas do ponto de vista da neurociência isso  depende de repetição, tempo e contexto emocionalmente seguros.  

Por isso, nem mesmo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), estudo comparativo internacional realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e que teve uma edição em 2025, será capaz de já mostrar esses resultados.

Nessa entrevista, Ângela fala ainda sobre indisciplina em sala de aula e escolas cívico-militares. “Educação de qualidade exige mais do que ordem: exige investimento no cérebro, na emoção e na dignidade humana”, diz a especialista, também CEO da clínica Aprendizagem e Companhia - Saúde Integral, em Belo Horizonte,  e conselheira Nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp). Confira.

A senhora sempre foi crítica ao uso de celulares por crianças e adolescentes na escola, e  2025 foi o primeiro ano de proibição dos telefones nesse ambiente, após a aprovação da lei federal sobre o tema. Já é possível fazer um balanço da medida? Os ganhos serão maiores na socialização ou na aprendizagem? 

Já é possível fazer um balanço inicial sob a perspectiva da Neurociência do Desenvolvimento. O uso contínuo do celular ativa intensamente o sistema dopaminérgico de recompensa imediata, reduzindo a capacidade de atenção sustentada e prejudicando funções executivas mediadas pelo córtex pré-frontal, estrutura ainda em maturação na infância e adolescência.

A retirada do celular reduz a hiperestimulação sensorial e favorece a regulação emocional. Os primeiros ganhos surgem na socialização, pois o cérebro é relacional. A melhora nas interações sociais cria a base neurobiológica para uma aprendizagem mais consistente ao longo do tempo.

Acredita que já poderemos colher algum fruto dessa proibição no Pisa 2025 - que foi aplicado em maio, pouco meses após o veto ao celular nas escolas?

Do ponto de vista neurocientífico, a neuroplasticidade exige repetição, tempo e contexto emocionalmente seguros. A aplicação do Pisa 2025 ocorreu cedo demais para capturar mudanças estruturais no funcionamento cognitivo dos estudantes. As mudanças comportamentais podem ocorrer rapidamente, mas a consolidação de novas redes neurais responsáveis por atenção, autorregulação e aprendizagem profunda leva anos, não meses.

Ainda sobre o Pisa 2025, que deve ter o resultado divulgado em dezembro de 2026: pela primeira vez, o letramento digital dos alunos de 15 anos também está sendo avaliado, além da capacidade de leitura e dos conhecimentos em matemática. Qual a expectativa da senhora sobre o desempenho dos brasileiros na prova?

A Neurociência Cognitiva diferencia de forma precisa o simples uso de tecnologias do verdadeiro letramento digital. Do ponto de vista cerebral, aprender implica integrar informações, avaliar conteúdos de maneira crítica e transferir conhecimentos para novas situações.

No contexto do Pisa, espera-se que os estudantes brasileiros demonstrem domínio operacional das ferramentas digitais. Contudo, a expectativa neurocientífica aponta possíveis fragilidades nas funções executivas superiores, especialmente no pensamento crítico, na análise de dados e na tomada de decisões éticas no ambiente digital. Essas habilidades dependem da maturação e do treinamento do córtex pré-frontal, ainda pouco estimulados por práticas pedagógicas meramente instrumentais.

Historicamente, os estudantes brasileiros não têm um bom desempenho nessa avaliação. Em matemática, ficamos em 65º lugar entre 81 países na última edição, de 2022. Se somos a 11ª economia do mundo, e em tese temos condições de investir em educação, onde estamos errando? 

A aprendizagem matemática envolve redes neurais no lobo parietal, memória de trabalho e controle inibitório. No Brasil, muitos alunos chegam ao ensino fundamental com essas funções fragilizadas, além de apresentarem ansiedade matemática, que ativa a amígdala e inibe o hipocampo, comprometendo a consolidação da aprendizagem. O erro não está apenas no ensino da matemática, mas na base neurocognitiva negligenciada, desde a primeira infância.

Em um dos artigos publicados no Hoje em Dia, a senhora cita a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostrando que os professores brasileiros gastam uma a cada cinco horas do tempo de aula só para manter a disciplina em sala. Quais os efeitos dessa perda para os alunos? 

Ambientes escolares marcados pela indisciplina ativam cronicamente o eixo do estresse (hipotálamo-hipófise-adrenal), elevando o cortisol. Esse estado bloqueia funções cognitivas essenciais, como atenção, memória e aprendizagem. O aluno deixa de aprender, não por incapacidade intelectual, mas porque seu cérebro opera em modo de sobrevivência.

E  para os professores?

Professores expostos continuamente ao estresse desenvolvem sobrecarga do sistema límbico, o que leva ao burnout, à perda de empatia e ao comprometimento da tomada de decisão pedagógica. Um educador emocionalmente adoecido tem menor capacidade de criar ambientes de aprendizagem seguros, o que afeta diretamente o funcionamento cerebral dos alunos.

Nessa engrenagem, onde entram os pais? Eles parecem cada vez mais exigentes em relação aos deveres da escola, mas e a relação deles com os filhos, como a senhora vê?

A Neurociência Afetiva demonstra que limites, rotina e vínculo estruturam o cérebro infantil. Quando a família transfere integralmente essa função para a escola, a criança chega com dificuldades de autorregulação emocional e baixa tolerância à frustração. Escola e família precisam atuar em corregulação, pois o cérebro aprende melhor quando há coerência entre os ambientes.

Com certa frequência, o modelo de escola cívico-militar é apontado como suposta “solução“ para a questão da disciplina e até da aprendizagem nas escolas públicas. Como a senhora avalia essa alternativa?

A avaliação do modelo cívico-militar precisa ser feita com cautela e à luz da Neurociência do Desenvolvimento e da Aprendizagem, evitando tanto idealizações quanto demonizações.

Entre as vantagens, é inegável que esse modelo oferece previsibilidade, rotina clara e organização do ambiente, fatores que o cérebro aprecia. Os ambientes estruturados reduzem a incerteza, diminuem a ativação do sistema de estresse e favorecem a sensação de segurança, especialmente para alunos que vivem em contextos sociais desorganizados. Para alguns estudantes, essa previsibilidade pode melhorar o comportamento e reduzir episódios de indisciplina no curto prazo.

Além disso, regras claras e consequências consistentes facilitam a corregulação comportamental, algo importante em cérebros que ainda não desenvolveram plenamente o controle inibitório e a autorregulação emocional.

No entanto, as desvantagens são significativas quando analisadas neurocientificamente. Os modelos excessivamente baseados na hierarquia, obediência e punição ativam a amígdala, área cerebral relacionada ao medo, e inibem o córtex pré-frontal, responsável por pensamento crítico, tomada de decisão, empatia e autonomia.Isso gera comportamento controlado, mas não autorregulação, que é o verdadeiro objetivo da educação.

Outro ponto crítico é que a aprendizagem profunda exige engajamento emocional positivo, curiosidade e sentido. O medo pode silenciar, mas não ensina. Ele bloqueia a memória de longo prazo, reduz a criatividade e limita a capacidade de resolver problemas complexos - exatamente as competências exigidas no século XXI.

Há ainda o risco de o modelo funcionar como uma solução rápida para a disciplina, mas mascarar problemas estruturais: ausência de políticas de saúde mental, formação docente insuficiente, sobrecarga emocional dos professores e fragilidades na relação escola-família.

Do ponto de vista da Neurociência, o ideal não é escolher entre rigidez ou permissividade, mas construir escolas com limites claros, vínculos fortes e práticas pedagógicas que promovam autonomia progressiva. A disciplina que educa não nasce do medo, nasce da compreensão, do pertencimento e do sentido.

Portanto, a educação cívico-militar pode produzir resultados comportamentais imediatos em contextos específicos, mas não deve ser tratada como solução universal. Educação de qualidade exige mais do que ordem: exige investimento no cérebro, na emoção e na dignidade humana.

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