'Sonho aliado a bom plano de ação e disciplina é fórmula para o sucesso’, diz CEO do Clara Resorts
Uma das vozes mais influentes do setor hoteleiro, Taiza Krueder fala de desafios e comemora reconhecimento internacional de hotel em Inhotim

Em um país onde o turismo de luxo amadurece rapidamente e a gastronomia conquista espaço como experiência transformadora, Taiza Krueder se destaca como uma das vozes mais influentes do setor. À frente do Clara Resorts, ela conduz um projeto que une arquitetura autoral, acolhimento sofisticado e um olhar atento para a natureza e para as pessoas — movimento que ganhou ainda mais força com a inauguração do Clara Arte (dezembro de 2024), dentro do Instituto Inhotim, hoje citado entre os destinos imperdíveis pelo The New York Times. Sua trajetória, que começou entre panelas na cozinha da avó, é marcada por disciplina, sensibilidade e decisões ousadas que a colocaram no centro de uma das operações hoteleiras mais celebradas do país.
Nesta entrevista, Taiza fala sobre liderança feminina, sensibilidade na gestão, os desafios e riscos de empreender em um segmento tradicionalmente masculino e o impacto do reconhecimento internacional. Comenta ainda a expansão do Clara Arte, seus compromissos com acessibilidade e sustentabilidade e a forma como redesenhou sua presença pública ao se aproximar do público pelas redes sociais. Entre estratégias, crenças e memórias afetivas, emerge uma executiva que combina rigor e afeto, e que acredita que o futuro da hospitalidade passa, sobretudo, pelo cuidado.
Você saiu das memórias na cozinha da sua avó para comandar um hotel dentro do Instituto Inhotim, hoje citado entre destinos imperdíveis pelo The New York Times. O que essa trajetória diz sobre a mulher em posição de comando no Brasil?
Essa trajetória fala sobre empreendedorismo, independentemente de ser mulher ou não. Acredito que sonho, aliado a um bom plano de ação e disciplina, é uma fórmula para o sucesso. Tenho orgulho de poder ser exemplo para outras mulheres que desejam empreender.
Em algum momento duvidaram da sua capacidade de liderar por você ser mulher? Como você respondeu a isso?
Sim. Vim de uma família espanhola/ portuguesa, na qual o homem tinha a figura de líder da casa. Comecei minha carreira na empresa da minha família e tive de batalhar bastante para conquistar a confiança e o respeito dos meus pares — principalmente porque ainda carregava o estigma de “herdeira”. Mas, mais uma vez, o exemplo arrasta. Sempre trabalhei e me dediquei mais do que as outras pessoas para provar meu valor.
Liderar com sensibilidade e falar de afeto na gastronomia é força ou ainda é visto como fragilidade no mundo corporativo?
Eu tenho uma personalidade muito forte, e a cozinha me traz um lado mais doce, criativo e sensível. Não sou vista como alguém frágil; me considero firme, mas afetuosa. Tenho um time maravilhoso que acredita nos meus sonhos e abraça as minhas loucuras.
O Clara Arte une arte contemporânea, natureza e luxo. Qual foi o maior risco que você correu ao apostar nesse conceito?
Sou apaixonada por arquitetura, design, arte e natureza. Poder colocar esses elementos juntos em um só lugar foi um privilégio. Nunca pensei no risco — segui minha intuição, e vem dando certo. Mas sabe quando eu soube que acertei?
Outro dia, um garotinho de 6 anos entrou no hotel, olhou tudo e me disse: “Eu queria morar aqui pra sempre”. É sobre isso: quando até uma criança sente que tivemos o cuidado de criar uma arquitetura aconchegante e com propósito.
O reconhecimento internacional aumenta a pressão? O que muda na sua cobrança interna como CEO?
Não, mas me encheu de orgulho. Eu sabia que a abertura do Clara Arte traria muita atenção para o Clara Resorts e para mim, mas não imaginei essa dimensão e rapidez. É incrível ajudar a divulgar o nome do Brasil e de Inhotim no exterior.
A expansão com novos apartamentos 100% acessíveis é também uma declaração de valores? Que Brasil você quer ajudar a construir com essa decisão?
Foi um ato de coragem, e pensei bastante antes de tomar essa decisão. Acessibilidade não é apenas para cadeirantes — temos grávidas, idosos e pessoas com alguma restrição motora que se beneficiam de quartos mais adaptados. Nossa população vai envelhecer nos próximos anos, e queremos estar preparados.
Pode detalhar um pouco a expansão — como estão as obras, onde entra a sustentabilidade, enfim…
As obras estão na fase final, com entrega prevista para agosto. Sustentabilidade está em nossos princípios: usamos materiais e fornecedores locais, fazemos gestão de resíduos e temos purificadores de água em todos os quartos. Essa medida evita o uso de centenas de garrafas por ano.
O projeto Clara in Casa nasceu na pandemia. O que aquele período revelou sobre sua capacidade de adaptação como líder?
Tudo na vida tem um lado bom, e desafios são oportunidades. Nosso propósito é levar alegria para a vida das pessoas e, já que elas não podiam vir até nós, nós iríamos até elas. O sucesso do Clara in Casa foi uma surpresa — um presente que a pandemia me deu.
Antes de cozinhar na internet (hoje tenho 800 mil seguidores), as pessoas não se aproximavam tanto de mim. Agora, todo mundo se sente íntimo porque me vê nos vídeos, contando minhas histórias e receitas. Vêm me abraçar, conversar, tirar foto. Acho tudo isso uma delícia e me dá forças. A liderança é, muitas vezes, um lugar solitário.
É possível crescer mantendo exclusividade ou toda expansão traz o risco de perder identidade?
Muitos têm essa preocupação, e eu já passei por isso nos outros hotéis. Ambos começaram pequenos antes de terem o tamanho atual. O segredo é crescer trazendo sempre benefícios para o hóspede.
Por exemplo, com essa expansão, teremos também um complexo esportivo, com quadras de tênis, beach tênis, padel e pickleball, além de um centro de eventos que ficará pronto em fevereiro. Sempre fizemos assim nos Claras: o crescimento de quartos acompanha o crescimento da área social. Funciona muito bem.
O setor de hotelaria de luxo ainda é um ambiente majoritariamente masculino nas decisões estratégicas? Como você ocupa esse espaço?
Não paro muito para pensar nisso, sinceramente. A hotelaria é um setor com muita diversidade, e nunca senti preconceito entre meus pares por ser mulher.
No Mês das Mulheres, qual é a principal barreira que ainda precisa ser quebrada para que mais mulheres cheguem ao topo — e o que depende delas e o que depende do sistema?
As mulheres ajudarem mais as próprias mulheres. Às vezes somos mais críticas e rigorosas entre nós. Precisamos nos apoiar. Tenho participado de grupos poderosos de mulheres para mudar essa realidade, como o programa Winning Women da EY e o Aladas.