Rogério Greco

‘Sou 100% armamentista’: secretário de Segurança defende acesso às armas após análises 'criteriosas'

Em entrevista, mestre em Ciências Penais pela UFMG também fala sobre o combate às facções criminosas, efetivo das forças de segurança e câmeras corporais no fardamento da polícia

Leandro Alves*
@leandroalves04
Publicado em 20/04/2026 às 07:00.

O Brasil teve alta de 78% no registro de armas de fogo, entre 2021 e 2025, conforme dados do Instituto Sou da Paz. Neste arsenal privado, quase 2 milhões de pistolas foram registradas. O tema é polêmico, mas o secretário de Segurança Pública de Minas, Rogério Greco, não se esquiva e deixa clara a posição sobre o assunto. “Eu sou 100% armamentista. E você vê que, para as pessoas portarem uma arma, elas passam por todo um processo. Não é simplesmente comprar uma arma e colocar na cintura”, afirma. 

Para o servidor, a medida pode “favorecer” a segurança das famílias mineiras. “O criminoso é covarde, ele quer facilidade. Então, entre roubar uma pessoa que está numa situação de vulnerabilidade e a outra que vai ter esse direito, ele vai roubar o vulnerável, isso é óbvio”, acrescenta. 

Ex-procurador de Justiça, Rogério Greco está à frente da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) há 5 anos. Ele é professor, mestre em Ciências Penais pela UFMG e pós-doutor pela Universidade de Burgos, na Espanha. Em entrevista ao HOJE EM DIA, Greco também falou sobre o combate às facções criminosas, efetivo das forças de segurança e as câmeras corporais no fardamento da polícia. 

Secretário, o senhor assumiu o cargo na Sejusp em 2021. Qual ainda é o maior desafio da segurança pública em Minas?
Continua sendo o combate a essas facções criminosas que se espalharam pelo país, de uma forma geral. Em Minas, a gente tem adotado medidas mais duras para combater essas facções, e tem tido sucesso. Então, ao contrário do que acontece em outros Estados, a gente está vendo que eles tentam se estabelecer, mas a segurança pública pega pesado, porque eles não criam domínio territorial.

E onde as facções têm atuado?
Temos uma incidência maior em Belo Horizonte, pelo grande número de aglomerados. No interior você tem situações esporádicas. Então, para você ter uma ideia, a gente tem 72 mil presos hoje, aqui em Minas. Nosso sistema prisional está superlotado. Desses 72 mil, nós temos 3 mil faccionados. No Rio, a média é de 42 mil presos. Desses 42 mil, eles têm aproximadamente 25 mil a 30 mil faccionados presos. Eles têm muito menos presos no sistema, com uma quantidade de faccionados bem maior. Então, estendo, obviamente, para outros Estados, não é um problema só do Rio. Isso infelizmente começou lá e se expandiu. Hoje, o país convive com aproximadamente 90 facções criminosas. Mas não é um problema, na verdade, de Minas Gerais. Minas tem conseguido controlar de uma forma bastante efetiva o crescimento dessas facções.

O senhor falou de 90 facções criminosas. Quantas estão em Minas?
Aqui, a gente tem conhecimento do Comando Vermelho, PCC e Terceiro Comando Puro. São as três maiores que a gente conhece, que tentam de alguma forma atuar no Estado. Mas o combate aqui tem sido muito duro, tem sido muito intenso com relação a elas. A Polícia Civil tem feito um trabalho espetacular de inteligência, de investigação. Tem prendido pessoas de fora de Minas. São prisões que acontecem no Rio e até mesmo fora do país, como no Paraguai e Bolívia.

No início do ano foi preso um traficante de pasta base, o Sonny Clay. A Civil falou que ele tinha contato com a alta cúpula do narcotráfico da Bolívia e do Paraguai. Existem indícios de que o narcotráfico internacional atua em Minas?
Não. Dessa forma, não. O que acontece é que os traficantes brasileiros tentam contato com traficantes internacionais. Não que eles atuem aqui, mas eles querem evitar o intermediário. Então, o que eles querem é lucro. 

Em Minas, os casos de feminicídio são recorrentes. É possível uma solução a curto prazo para tentar enfrentar de vez a violência contra a mulher?
Não. A curto prazo eu acho pouquíssimo provável, porque o feminicídio não é um crime que você combate nas ruas. O feminicídio, como regra, é aquela morte da mulher que acontece dentro dos lares. É uma questão mais cultural do que qualquer outra coisa. O que você tem que combater, e isso começa nas escolas, é esse machismo, que infelizmente acontece aqui no Brasil. E acontece em todos os Estados.

"Em Minas, infelizmente, tem tido uma incidência grande, sim. Mas isso é da cultura daquela pessoa. Por exemplo, se você tem aqui uma incidência grande de homicídio de facções, é possível montar uma operação, identificar os alvos e diminuir o índice de homicídios. Agora, o feminicídio não. O feminicídio é uma briga que acontece geralmente entre casais, então você não tem como controlar isso, a não ser com uma mudança de cultura."

Com exceção de feminicídios e estupros, houve uma queda nos números de crimes violentos no Estado. Mas até com essa redução, é recorrente a população falar em sensação de insegurança…
Mas é engraçado que quando você conversa sobre essa sensação de insegurança, se você pergunta a essa pessoa se ela foi vítima de algum crime violento ou conhece alguém, a maioria absoluta diz que não. Então, essa sensação de insegurança é transmitida mais pela mídia. A mídia, por exemplo, você pega um caso de repercussão e joga isso numa cadeia de TV. As pessoas passam a ter a sensação de insegurança por conta disso, o que aconteceu através da mídia. Elas não teriam essa sensação de insegurança.

Como está o efetivo das forças de segurança em Minas atualmente?
Existe um déficit de pessoal. Ele sempre foi muito grande, isso não é de agora. Eu, por exemplo, venho do Ministério Público, entrei em 1989. Nunca foi preenchido o quadro de promotores, nunca foi preenchido o quadro de juízes, o quadro de defensores, de policiais. Então, não é só um dado específico da segurança. É a Justiça como um todo. Muitas vezes, as pessoas falam assim: “tá faltando Polícia Militar”, mas está faltando promotor também. Tem comarcas aí que tem 20 anos sem um promotor. Então, é o sistema de Justiça como um todo que tem que recuperar esse tempo perdido com a colocação de servidores.

E quantos policiais são necessários no Estado?
A Polícia Civil está com um déficit muito grande, por conta de uma legislação, infelizmente, que existe e travou a carreira da Civil. A Polícia Penal, com esse próximo concurso que a gente está fazendo aqui, ela vai preencher completamente os quadros, ou seja, 17 mil policiais penais. Então, o Estado tem se esforçado ao máximo para preencher essa lacuna. Então, o que a gente pode fazer, a gente está fazendo. E é um trabalho incessante, porque você tem aposentadorias, você tem saída de servidores para outros concursos, você tem as mortes naturais. Todo ano você tem centenas de pessoas que saem dos quadros, e nós não conseguimos preencher de forma imediata.

Mas o senhor pensa em algum programa específico que possa repor esses quadros?
Eu, particularmente, entendo o seguinte. Da mesma forma que existe um percentual generoso para a saúde, para a educação, tem que ter esse percentual de orçamento para a segurança pública. Só assim a gente vai conseguir suprir, porque o Estado não tem dinheiro. Então, o Estado fica limitado, entendeu? Muitas vezes você tem que investir demais numa determinada área, enquanto a outra está precisando. E hoje, o foco de todo mundo é segurança pública. Não tem meta maior do que resolver o problema de segurança. Isso no Brasil como um todo.

"Então, quando você tem um Estado seguro, as pessoas investem, as pessoas têm maior qualidade de vida. Então, hoje você vê até nas próprias pesquisas, mais do que educação, mais do que saúde, mais do que habitação, o que as pessoas querem é viver de forma tranquila. Isso é segurança pública."

O armamento da população é um assunto sempre muito discutido, e em Minas não é diferente. Como o senhor enxerga o porte de armas pelo cidadão comum?
Eu sou 100% armamentista. E você vê que, para as pessoas portarem uma arma, elas passam por todo um processo. Não é simplesmente comprar uma arma e colocar na cintura. Há toda uma seleção, há todo um critério, com exames psicológicos e psicotécnicos. Não é qualquer um que vai portar uma arma. Eu acho que quando o cidadão tem o direito de se defender, ele vai exercitar esse direito. E aquele camarada que quer praticar uma infração penal, ele vai pensar duas vezes, porque pode ter reação do outro lado. Porque o criminoso é covarde, ele quer facilidade. Então, entre roubar uma pessoa que está numa situação de vulnerabilidade e a outra que vai ter esse direito, ele vai roubar o vulnerável, isso é óbvio. Então, eu não tenho absolutamente nada contra as pessoas que queiram se armar, desde que seja de uma forma consciente, de uma forma responsável.

Existe uma discussão sobre o uso de câmeras corporais pela Polícia Militar. Qual a atual situação das câmeras utilizadas no fardamento?
É uma política da Polícia Militar. Seria até um pouco leviano da minha parte falar pela PM.

Mas o senhor concorda com o uso?
Eu concordo em determinadas situações. Só para você ter um dado estatístico, na grande maioria dos países que utilizavam a câmera corporal, o custo dela era muito caro, é um equipamento muito caro, porque é uma locação. Você tem que ter local para armazenamento das imagens durante muito tempo. O percentual de policiais que erram é tão insignificante, é tão pequeno, que esses países voltaram atrás. É que no Brasil a gente começa a ter essa inversão de valores. Você acha que a maioria da polícia erra enquanto uma pequena parte acerta. É justamente o contrário. Erro você vai ter em qualquer lugar. 

Mas o senhor não acha que a população se sentiria mais segura caso os policiais usassem as câmeras?
Não. A vida inteira não teve nada de câmera corporal, e a população sempre se sentiu segura com a presença da polícia. A população não sabe nem como se usa a câmera corporal, não sabe nem se ela está sendo filmada em tempo real, se aquilo fica gravado, se é jogado fora. A população não tem esse conhecimento. Então, não é isso que vai trazer a sensação de segurança.

* Estagiário, sob supervisão do editor Renato Fonseca 

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