‘Sou 100% armamentista’: secretário de Segurança defende acesso às armas após análises 'criteriosas'
Em entrevista, mestre em Ciências Penais pela UFMG também fala sobre o combate às facções criminosas, efetivo das forças de segurança e câmeras corporais no fardamento da polícia
O Brasil teve alta de 78% no registro de armas de fogo, entre 2021 e 2025, conforme dados do Instituto Sou da Paz. Neste arsenal privado, quase 2 milhões de pistolas foram registradas. O tema é polêmico, mas o secretário de Segurança Pública de Minas, Rogério Greco, não se esquiva e deixa clara a posição sobre o assunto. “Eu sou 100% armamentista. E você vê que, para as pessoas portarem uma arma, elas passam por todo um processo. Não é simplesmente comprar uma arma e colocar na cintura”, afirma.
Para o servidor, a medida pode “favorecer” a segurança das famílias mineiras. “O criminoso é covarde, ele quer facilidade. Então, entre roubar uma pessoa que está numa situação de vulnerabilidade e a outra que vai ter esse direito, ele vai roubar o vulnerável, isso é óbvio”, acrescenta.
Ex-procurador de Justiça, Rogério Greco está à frente da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) há 5 anos. Ele é professor, mestre em Ciências Penais pela UFMG e pós-doutor pela Universidade de Burgos, na Espanha. Em entrevista ao HOJE EM DIA, Greco também falou sobre o combate às facções criminosas, efetivo das forças de segurança e as câmeras corporais no fardamento da polícia.
Secretário, o senhor assumiu o cargo na Sejusp em 2021. Qual ainda é o maior desafio da segurança pública em Minas?
Continua sendo o combate a essas facções criminosas que se espalharam pelo país, de uma forma geral. Em Minas, a gente tem adotado medidas mais duras para combater essas facções, e tem tido sucesso. Então, ao contrário do que acontece em outros Estados, a gente está vendo que eles tentam se estabelecer, mas a segurança pública pega pesado, porque eles não criam domínio territorial.
E onde as facções têm atuado?
Temos uma incidência maior em Belo Horizonte, pelo grande número de aglomerados. No interior você tem situações esporádicas. Então, para você ter uma ideia, a gente tem 72 mil presos hoje, aqui em Minas. Nosso sistema prisional está superlotado. Desses 72 mil, nós temos 3 mil faccionados. No Rio, a média é de 42 mil presos. Desses 42 mil, eles têm aproximadamente 25 mil a 30 mil faccionados presos. Eles têm muito menos presos no sistema, com uma quantidade de faccionados bem maior. Então, estendo, obviamente, para outros Estados, não é um problema só do Rio. Isso infelizmente começou lá e se expandiu. Hoje, o país convive com aproximadamente 90 facções criminosas. Mas não é um problema, na verdade, de Minas Gerais. Minas tem conseguido controlar de uma forma bastante efetiva o crescimento dessas facções.
O senhor falou de 90 facções criminosas. Quantas estão em Minas?
Aqui, a gente tem conhecimento do Comando Vermelho, PCC e Terceiro Comando Puro. São as três maiores que a gente conhece, que tentam de alguma forma atuar no Estado. Mas o combate aqui tem sido muito duro, tem sido muito intenso com relação a elas. A Polícia Civil tem feito um trabalho espetacular de inteligência, de investigação. Tem prendido pessoas de fora de Minas. São prisões que acontecem no Rio e até mesmo fora do país, como no Paraguai e Bolívia.
No início do ano foi preso um traficante de pasta base, o Sonny Clay. A Civil falou que ele tinha contato com a alta cúpula do narcotráfico da Bolívia e do Paraguai. Existem indícios de que o narcotráfico internacional atua em Minas?
Não. Dessa forma, não. O que acontece é que os traficantes brasileiros tentam contato com traficantes internacionais. Não que eles atuem aqui, mas eles querem evitar o intermediário. Então, o que eles querem é lucro.
Em Minas, os casos de feminicídio são recorrentes. É possível uma solução a curto prazo para tentar enfrentar de vez a violência contra a mulher?
Não. A curto prazo eu acho pouquíssimo provável, porque o feminicídio não é um crime que você combate nas ruas. O feminicídio, como regra, é aquela morte da mulher que acontece dentro dos lares. É uma questão mais cultural do que qualquer outra coisa. O que você tem que combater, e isso começa nas escolas, é esse machismo, que infelizmente acontece aqui no Brasil. E acontece em todos os Estados.
Com exceção de feminicídios e estupros, houve uma queda nos números de crimes violentos no Estado. Mas até com essa redução, é recorrente a população falar em sensação de insegurança…
Mas é engraçado que quando você conversa sobre essa sensação de insegurança, se você pergunta a essa pessoa se ela foi vítima de algum crime violento ou conhece alguém, a maioria absoluta diz que não. Então, essa sensação de insegurança é transmitida mais pela mídia. A mídia, por exemplo, você pega um caso de repercussão e joga isso numa cadeia de TV. As pessoas passam a ter a sensação de insegurança por conta disso, o que aconteceu através da mídia. Elas não teriam essa sensação de insegurança.
Como está o efetivo das forças de segurança em Minas atualmente?
Existe um déficit de pessoal. Ele sempre foi muito grande, isso não é de agora. Eu, por exemplo, venho do Ministério Público, entrei em 1989. Nunca foi preenchido o quadro de promotores, nunca foi preenchido o quadro de juízes, o quadro de defensores, de policiais. Então, não é só um dado específico da segurança. É a Justiça como um todo. Muitas vezes, as pessoas falam assim: “tá faltando Polícia Militar”, mas está faltando promotor também. Tem comarcas aí que tem 20 anos sem um promotor. Então, é o sistema de Justiça como um todo que tem que recuperar esse tempo perdido com a colocação de servidores.
E quantos policiais são necessários no Estado?
A Polícia Civil está com um déficit muito grande, por conta de uma legislação, infelizmente, que existe e travou a carreira da Civil. A Polícia Penal, com esse próximo concurso que a gente está fazendo aqui, ela vai preencher completamente os quadros, ou seja, 17 mil policiais penais. Então, o Estado tem se esforçado ao máximo para preencher essa lacuna. Então, o que a gente pode fazer, a gente está fazendo. E é um trabalho incessante, porque você tem aposentadorias, você tem saída de servidores para outros concursos, você tem as mortes naturais. Todo ano você tem centenas de pessoas que saem dos quadros, e nós não conseguimos preencher de forma imediata.
Mas o senhor pensa em algum programa específico que possa repor esses quadros?
Eu, particularmente, entendo o seguinte. Da mesma forma que existe um percentual generoso para a saúde, para a educação, tem que ter esse percentual de orçamento para a segurança pública. Só assim a gente vai conseguir suprir, porque o Estado não tem dinheiro. Então, o Estado fica limitado, entendeu? Muitas vezes você tem que investir demais numa determinada área, enquanto a outra está precisando. E hoje, o foco de todo mundo é segurança pública. Não tem meta maior do que resolver o problema de segurança. Isso no Brasil como um todo.
O armamento da população é um assunto sempre muito discutido, e em Minas não é diferente. Como o senhor enxerga o porte de armas pelo cidadão comum?
Eu sou 100% armamentista. E você vê que, para as pessoas portarem uma arma, elas passam por todo um processo. Não é simplesmente comprar uma arma e colocar na cintura. Há toda uma seleção, há todo um critério, com exames psicológicos e psicotécnicos. Não é qualquer um que vai portar uma arma. Eu acho que quando o cidadão tem o direito de se defender, ele vai exercitar esse direito. E aquele camarada que quer praticar uma infração penal, ele vai pensar duas vezes, porque pode ter reação do outro lado. Porque o criminoso é covarde, ele quer facilidade. Então, entre roubar uma pessoa que está numa situação de vulnerabilidade e a outra que vai ter esse direito, ele vai roubar o vulnerável, isso é óbvio. Então, eu não tenho absolutamente nada contra as pessoas que queiram se armar, desde que seja de uma forma consciente, de uma forma responsável.
Existe uma discussão sobre o uso de câmeras corporais pela Polícia Militar. Qual a atual situação das câmeras utilizadas no fardamento?
É uma política da Polícia Militar. Seria até um pouco leviano da minha parte falar pela PM.
Mas o senhor concorda com o uso?
Eu concordo em determinadas situações. Só para você ter um dado estatístico, na grande maioria dos países que utilizavam a câmera corporal, o custo dela era muito caro, é um equipamento muito caro, porque é uma locação. Você tem que ter local para armazenamento das imagens durante muito tempo. O percentual de policiais que erram é tão insignificante, é tão pequeno, que esses países voltaram atrás. É que no Brasil a gente começa a ter essa inversão de valores. Você acha que a maioria da polícia erra enquanto uma pequena parte acerta. É justamente o contrário. Erro você vai ter em qualquer lugar.
Mas o senhor não acha que a população se sentiria mais segura caso os policiais usassem as câmeras?
Não. A vida inteira não teve nada de câmera corporal, e a população sempre se sentiu segura com a presença da polícia. A população não sabe nem como se usa a câmera corporal, não sabe nem se ela está sendo filmada em tempo real, se aquilo fica gravado, se é jogado fora. A população não tem esse conhecimento. Então, não é isso que vai trazer a sensação de segurança.
* Estagiário, sob supervisão do editor Renato Fonseca
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