ENTREVISTA

Técnico do Cruzeiro, Jonas Urias consolida trajetória marcada por evolução no esporte feminino

‘futebol é trabalho, ainda que seja também alegria e irreverência’, destaca o comandante

Angel Drumond
angel.lima@hojeemdia.com.br
Publicado em 15/12/2025 às 07:30.
Indicado pela IFFHS ao prêmio de melhor técnico de clubes do mundo, Jonas Urias consolida trajetória marcada por evolução no esporte feminino brasileiro (Gustavo Martins/Cruzeiro)
Indicado pela IFFHS ao prêmio de melhor técnico de clubes do mundo, Jonas Urias consolida trajetória marcada por evolução no esporte feminino brasileiro (Gustavo Martins/Cruzeiro)

A trajetória de Jonas Urias no futebol feminino é uma história de construção paciente, escolhas firmes e constante evolução. Aos 36 anos, o técnico natural de Pindamonhangaba (SP) se tornou um dos principais nomes da modalidade no Brasil, acumulando experiências relevantes nas categorias de base, na seleção brasileira e em clubes. Em 2025, viveu a temporada mais emblemática ao colocar o Cruzeiro na final do Brasileirão Feminino e conduzir o clube a mais um ano de alto rendimento.

Jonas iniciou a jornada no Centro Olímpico, em 2016, e ganhou projeção nacional no Sport, onde comandou campanhas de destaque que o impulsionaram até a Seleção Brasileira de Base. Ali, conquistou números impressionantes, incluindo temporadas invictas e uma taxa de vitórias que o credenciou a ser um dos treinadores mais promissores de sua geração.

Em 2023, assumiu o Cruzeiro e rapidamente transformou o projeto celeste em uma referência no país. Em três temporadas, soma 39 vitórias em 62 jogos, consolidando um time competitivo, moderno e com identidade clara. Esse trabalho consistente o levou à indicação da IFFHS ao prêmio de melhor técnico de clubes do mundo — reconhecimento que, segundo ele, simboliza não apenas seu esforço, mas o de todos os profissionais envolvidos no crescimento do futebol feminino dentro do clube.

Sereno, convicto e atento a cada detalhe, Jonas Urias falou ao Hoje em Dia sobre os desafios da modalidade, a evolução do Cruzeiro, as mudanças no elenco e o impacto desse novo momento em sua carreira.

Depois de uma temporada de destaque em 2025, quais são suas expectativas para o Cruzeiro Feminino em 2026? O que precisa evoluir para o clube continuar avançando?

Bom, nós encerramos a temporada de 2025 com um sentimento muito claro de dever cumprido por parte de todos que compuseram esse grupo de trabalho. Creio que os desafios para 2026, a fim de mantermos o nível que atingimos, passam por seguirmos com a nossa mentalidade infinita, olhando para cada detalhe e encarando cada desafio como se fosse o último, como se fosse uma final.

É fazer com que cada dia seja especial e de evolução, mantendo nosso compromisso diário com a excelência. O clube tem nos oferecido a estrutura de que precisamos, então o foco é criar conexões e fortalecer o comprometimento com o trabalho para continuarmos competitivos no mais alto escalão do Brasil e, agora, também da América do Sul com a Libertadores.

A indicação ao prêmio de melhor técnico de clubes do mundo pela IFFHS colocou seu nome em destaque internacional. O que essa nomeação representa?

A indicação significa muito. Principalmente porque não conseguimos conquistar nem a Copa do Brasil, nem o Campeonato Brasileiro, nem a Supercopa. E, mesmo assim, olharam para o Cruzeiro como um trabalho diferenciado. Isso é fruto de muitas mãos, de profissionais trabalhando juntos todos os dias. Sinto que represento um grande projeto que o Cruzeiro tem desenvolvido no futebol feminino.

É algo fantástico para a minha carreira, mas acredito que o mais importante é levar o nome de mais pessoas comigo para um lugar de reconhecimento internacional. Representamos muito bem o Cruzeiro e espero que essa porta aberta permita ainda mais conquistas e reconhecimentos no futuro — não só para mim, mas para todos que fazem parte desse projeto.

O Cruzeiro passou por uma reformulação importante no elenco para 2025. O que norteou essas decisões e como o grupo respondeu?

Realizamos muitas mudanças de 2024 para 2025. Entendemos, após avaliações constantes, que precisávamos fazer ajustes para elevar o patamar competitivo. Acredito que um trabalho sólido da comissão técnica atrai jogadoras muito talentosas, sejam promissoras ou de nível mais alto, que buscam novos desafios e evolução.

Criamos monitoramento anual de atletas e critérios internos de avaliação técnica que nos ajudam a tomar decisões difíceis — sempre em prol de algo maior: o crescimento do clube. Quando você combina talento com processos claros, a conexão é rápida. Isso acelera a identificação com o trabalho e, consequentemente, o desempenho.

Você já trabalhou na base, em clubes, na seleção e hoje lidera um projeto sólido no Cruzeiro. Como essas experiências moldaram seu método de trabalho?

Acho que cada experiência nos engrandece. Por isso, sempre vivi cada etapa com intensidade, compromisso e excelência. Nunca permiti que aquilo que faltava justificasse queda de desempenho ou dedicação. Essa mentalidade me permitiu extrair o máximo de cada ambiente e me moldar como um profissional mais preparado, mais dinâmico e com maior repertório de soluções — algo fundamental no futebol, onde as decisões precisam ser rápidas e assertivas. Lidar com pessoas diferentes diariamente exige muito, e eu acredito que essa bagagem contribuiu profundamente para a forma como trabalho hoje.

A formação das atletas é um dos seus temas recorrentes. Que avanços você observa e o que ainda precisa evoluir?

A defasagem na formação aparece de diferentes formas, não apenas na técnica, tática ou preparação física. Ela está também na construção das personalidades e na relação das atletas com o trabalho. Como muitas vieram de ambientes amadores, essa percepção profissional nem sempre foi bem estruturada. Mas isso vem mudando a cada temporada.

Hoje, vemos mais compromisso com alimentação, rotina, responsabilidade e entendimento de que o futebol é trabalho — ainda que seja também alegria e irreverência. As categorias de base estão mais estruturadas e, com isso, teremos jogadoras com menor defasagem e maior entendimento profissional. Esse será o grande salto da modalidade nos próximos anos.

A final do Brasileirão contra o Corinthians neste ano foi histórica para o Cruzeiro. Como foi preparar o time emocional e taticamente?

Enfrentar o Corinthians é sempre desafiador. Taticamente, mergulhamos em cada detalhe: tendências, comportamentos, pontos fortes, o que explorar e o que inibir. E executar isso contra uma equipe tão competente é ainda mais difícil. No emocional, trabalhamos para colocar nossas atletas em ótimo estado de desempenho, para que a grandeza do jogo não fosse maior do que a segurança de saber que tinham as ferramentas para vencer.

Elas enfrentaram uma equipe acostumada a finais — era a nona do Corinthians — enquanto muitas das nossas atletas tinham sua primeira experiência desse tipo. Saímos de cabeça erguida e com a sensação de que era possível vencer. Essa bagagem fica conosco e nos prepara melhor para 2026.

O que significa, pessoalmente, viver este momento sendo alguém que saiu de Pindamonhangaba e hoje ocupa papel de destaque no futebol feminino?

Tenho muito orgulho de ser um cidadão pindense. É uma cidade especial, onde construí minhas raízes e onde está minha família. Minha esposa, Larissa, também é de lá, assim como nossos pais. Voltar para lá nos momentos de descanso é sempre especial. Traz humildade, respeito às origens e reforça tudo o que nos formou.

Acredito que representar o futebol feminino, ampliar sua visibilidade e levar esse orgulho para minha cidade torna tudo ainda mais significativo. Sou muito feliz no Cruzeiro e quero conduzir a equipe a feitos ainda maiores, honrar nossa trajetória e dar ainda mais orgulho aos que torcem por nós.

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