entrevista

‘Meu sonho sempre foi voltar para o Minas’, diz o ponteiro Lucarelli

Atleta retorna ao clube, conquista o Mineiro como capitão e fala sobre Seleção

Angel Drumond
angel.lima@hojeemdia.com.br
Publicado em 26/10/2026 às 07:00.

Ricardo Lucarelli Santos de Souza voltou ao Minas Tênis Clube 13 anos depois de deixar o time que o revelou para o voleibol profissional. Nascido em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em 14 de fevereiro de 1992, o ponteiro construiu uma carreira marcada por títulos no Brasil e no exterior, além de uma trajetória de destaque com a Seleção Brasileira. Aos 34 anos, o jogador inicia uma nova etapa na equipe mineira com a experiência acumulada em diferentes escolas do voleibol mundial.

Depois de defender o Minas entre 2008 e 2012, Lucarelli passou por clubes importantes do cenário nacional, como Sesi-SP e Taubaté, e ampliou a carreira internacional com passagens por Trentino, Civitanova e Piacenza, na Itália, além do JTEKT Stings, do Japão. A experiência em competições de alto nível, incluindo a Liga dos Campeões da Europa, contribuiu para o desenvolvimento técnico e tático do atleta, que também precisou lidar com a responsabilidade de atuar como estrangeiro em equipes de diferentes culturas.

Na Seleção Brasileira, Lucarelli estreou na equipe adulta em 2012, aos 19 anos, e participou de conquistas importantes, como o ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, o título da Copa do Mundo de 2019 e a vitória na Liga das Nações de 2021. Em 2026, voltou a se destacar com a camisa verde e amarela ao conquistar o prêmio de melhor jogador do Campeonato Sul-Americano, competição na qual o Brasil garantiu a classificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Agora, o ponteiro divide a experiência de quem já disputou grandes decisões com a responsabilidade de contribuir para a renovação da equipe nacional.

O retorno ao Minas ganhou um significado especial com a conquista do Campeonato Mineiro de 2026. Como capitão, Lucarelli ajudou o clube a encerrar um jejum de mais de 15 anos sem levantar o troféu estadual, resultado que marcou o início de sua nova passagem pela equipe. Em entrevista ao Hoje em Dia, o jogador falou sobre a emoção de voltar às origens, a liderança dentro de quadra, o aprendizado adquirido na Itália e no Japão, a evolução da Seleção Brasileira e os objetivos para a temporada 2026/27, sem perder de vista a preparação para buscar mais uma medalha olímpica.

Você deixou o Minas ainda jovem, construiu uma carreira vitoriosa no Brasil e no exterior e voltou 13 anos depois como capitão. Qual é o significado pessoal de conquistar o Campeonato Mineiro logo no retorno, encerrando um jejum de mais de 15 anos do clube?

É um sentimento de muita alegria. Meu sonho sempre foi voltar para o Minas para ajudar o clube a conquistar títulos e chegar às finais. Fico muito feliz e realizado por, já no nosso primeiro campeonato, a equipe ter conquistado esse título, que o Minas vinha buscando havia alguns anos. Foi maravilhoso. Fiquei muito feliz por começar com o pé direito.

Ser capitão de uma equipe que busca retomar o protagonismo estadual traz uma responsabilidade diferente. Como você exerceu essa liderança dentro e fora de quadra para ajudar o Minas a conquistar esse título?

Tento exercer minha liderança por meio do exemplo. Comentei algumas vezes que tive pessoas ao meu lado que eram líderes, e sempre respeitei muito aquelas que lideravam pelo exemplo, que faziam as coisas, se dedicavam e eram realmente exemplares. Então, tento ser assim no dia a dia: uma pessoa que os outros possam enxergar como exemplo.
Primeiro, preciso ser o primeiro a fazer as coisas para poder realmente servir de exemplo. Acho que, obviamente, a idade e as experiências que vivi no voleibol também contribuem. Além disso, a comunicação é importante nesse processo.

Você passou por clubes importantes da Itália, como Trentino, Civitanova e Piacenza, além de atuar no voleibol japonês. O que essas experiências acrescentaram ao seu jogo e à sua maneira de enxergar o voleibol? Como pretende aplicar esse aprendizado nesta nova passagem pelo Minas?

Acredito que, na Itália, aprendi muito com a maneira de jogar voleibol. É um estilo que também acaba aparecendo bastante na Seleção Brasileira, com um nível muito agressivo de saque e uma quantidade um pouco maior de bolas altas. São equipes que mantêm uma pressão de saque muito forte durante todo o tempo, e o campeonato italiano tem um nível realmente muito alto.

A possibilidade de disputar a Liga dos Campeões e enfrentar grandes equipes de outros países da Europa também fez meu jogo amadurecer muito. Além disso, existe a questão de ser estrangeiro. Acredito que, quando você joga fora do seu país, a pressão é um pouco maior, principalmente nos momentos importantes. Passei bastante por isso, e essa experiência faz uma pessoa amadurecer e aprender a resolver situações decisivas. Acho que tudo isso agregou bastante à minha carreira.
No voleibol japonês, além desses aspectos, existe também a questão cultural e a maneira como eles enxergam o esporte. Acredito que isso também pode acrescentar ao voleibol.

Você estreou na Seleção Brasileira aos 19 anos, conquistou o ouro olímpico no Rio 2016 e acumulou títulos importantes desde então. Aos 34 anos, em que aspectos você considera que mais evoluiu como jogador e como essa maturidade influencia seu desempenho atualmente?

Acredito que evoluí principalmente na parte defensiva. Sempre me considerei um jogador um pouco mais ofensivo. Era no ataque e no saque que eu mais me destacava, enquanto, às vezes, não era tão bom na recepção, na defesa e nessa leitura mais defensiva do jogo.
Acho que isso foi amadurecendo com o tempo. Fui entendendo a importância de um ponteiro também contribuir bem no passe e em outros fundamentos. Continuo não sendo um exímio passador, mas acredito que o sistema defensivo foi uma das áreas em que mais evoluí.

Depois de garantir a vaga para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 e conquistar o prêmio de MVP no Sul-Americano em 2026, como você avalia o atual momento da Seleção Brasileira? O que ainda precisa evoluir para que o Brasil volte a brigar de forma consistente pelos principais títulos internacionais?

Acredito que passamos por anos difíceis depois do Mundial e da Liga das Nações, com muita cobrança por resultados. Nós mesmos nos cobramos bastante dentro da equipe. Sabemos onde queremos chegar e quais são os nossos objetivos, então, obviamente, não ficamos felizes com esses resultados.

Também sabemos que precisamos evoluir. Existem seleções à nossa frente em aspectos físicos e de jogo. Por isso, precisamos ter humildade para entender o nosso lugar e correr atrás. Sabemos que, quando conseguimos fazer uma partida de alto nível, podemos jogar de igual para igual com todas as equipes. Acho que o principal é tentar manter esse nível de jogo pelo maior tempo possível e oscilar menos durante as partidas.

O voleibol brasileiro vive um processo de renovação, com jogadores experientes dividindo espaço com uma nova geração. Como você enxerga essa transição na Seleção e qual acredita ser o seu papel na formação e no desenvolvimento dos atletas mais jovens?

Acho que a Seleção sempre teve bastante disso. Há jogadores que estão há mais tempo na equipe, mas praticamente todos os anos um ou dois atletas chegam. Eles vão entendendo o ritmo dos jogos, o nível das partidas e aprendendo a maneira de trabalhar. Acredito que essa seja a forma correta, porque investir na base é a única maneira de fazer com que o nível da equipe adulta seja alto.

Quando existe uma base forte, com vários jogadores atuando em alto nível, campeonatos de formação competitivos e uma grande disputa por vagas nas seleções de base, há muitos atletas talentosos. Isso faz com que as competições de base sejam melhores e o nível aumente, influenciando muito o crescimento desses jovens. Com certeza, esse processo também ajuda e facilita a transição da base para a equipe adulta.

Por isso, é sempre importante mesclar a juventude com jogadores mais experientes, para que os mais novos amadureçam tanto dentro de quadra quanto fora dela.

A conquista do Mineiro representa um começo importante nesta nova etapa no Minas. Quais são os principais objetivos para a temporada 2026/27 e como conciliar os desafios pelo clube com a preparação para chegar aos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 em condições de disputar mais uma medalha?

Acredito que tínhamos consciência de que temos uma equipe com potencial, que precisa ser trabalhada. Obviamente, precisamos treinar bem, continuar buscando evolução em todos os fundamentos e ser um time que queira brigar por títulos. Para isso, temos de demonstrar essa intenção em cada treinamento e em cada jogo, sempre procurando fazer o nosso melhor.

Acho que vamos entrar em quadra tentando jogar com essa agressividade para buscar mais um título, sabendo da quantidade de outras grandes equipes que também estarão nessa disputa. Espero que tudo dê certo para o Minas.

Conciliar as duas atividades é tranquilo. Já estou acostumado há muito tempo a jogar por clube e Seleção, então acredito que será apenas mais um ano nesse sentido. Acho que será muito positivo estar aqui no Minas. Voltando ao Brasil, tenho uma comunicação mais fácil com as comissões técnica e médica, e acredito que isso também ajuda bastante a conciliar as atividades e a chegar sempre na melhor forma possível tanto no clube quanto na Seleção.

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