‘Quando a gente treina e trabalha a mente, tudo é possível’, relata Amanda Oliveira
Após fazer história na Volta Internacional da Pampulha, mineira que ficou no topo do pódio projeta novos desafios no atletismo, da São Silvestre à próxima temporada

Em 7 de dezembro, a Volta Internacional da Pampulha voltou a ter uma brasileira no lugar mais alto do pódio após mais de uma década. A mineira Amanda Oliveira venceu os 18,65 quilômetros da tradicional prova em Belo Horizonte, com o tempo de 1h07min05s, encerrando um jejum de 11 anos sem vitórias nacionais na competição e tornando-se a primeira atleta de Minas a conquistar o título.
A vitória representou mais do que um resultado expressivo. Foi a consolidação de uma trajetória construída com disciplina, constância e superação, iniciada ainda na adolescência, em Mercês, no interior de Minas, quando deu os primeiros passos na corrida de forma quase casual, sem imaginar até onde poderia chegar.
Sem estrutura nos primeiros anos e, muitas vezes, treinando sozinha, Amanda avançou das provas escolares para o alto rendimento, acumulando convocações para a Seleção Brasileira, títulos nacionais e resultados relevantes no cross country, na pista e nas provas de rua. Em 2023, encontrou na maratona um novo caminho competitivo, ampliando o protagonismo no cenário nacional.
Nesta entrevista ao jornal Hoje em Dia, Amanda Oliveira fala sobre a vitória histórica na Volta Internacional da Pampulha, revisita os principais momentos da carreira, analisa a preparação e as expectativas para a Corrida Internacional de São Silvestre, no último dia do ano, e projeta os objetivos e desafios para a próxima temporada.
Sua vitória na Volta Internacional da Pampulha foi histórica para Minas Gerais. O que passou pela sua cabeça nos metros finais, quando você acelerou e ultrapassou as atletas africanas para cruzar a linha de chegada em primeiro lugar?
Fiquei muito feliz e orgulhosa com esse título na Volta Internacional da Pampulha. Foi uma prova muito disputada do início ao fim. Saí no ritmo junto com elas desde o começo. Durante a prova, as atletas africanas tentaram fazer uma estratégia para me quebrar. Até o quilômetro 6, havia outras brasileiras com a gente, mas depois elas foram ficando para trás, e eu segui apenas com as quenianas.
Faltando mais ou menos um quilômetro para o final, elas deram um tiro, acelerando bastante o ritmo. Eu vinha trabalhando naquele ritmo e estava preparada. Quando elas arrancaram, fiquei um pouco atrás, mas mantive o meu passo. Na hora em que começou a virar a curva, assumi a frente e pensei: “Hoje vai ser o meu dia”.
Eu estava com a mente forte e com o corpo forte. Coloquei-me à frente e falei: “Agora é força até a linha de chegada”. Mentalizei que eu podia, que eu tinha treinado para aquilo. A gente sabe que o esporte é dia de luta, de abdicar de muita coisa, e tudo é treino. É preciso arriscar, ter coragem e acreditar que também pode.
Cruzar aquela linha de chegada foi emocionante, eletrizante e muito marcante. Fiquei muito feliz de trazer esse título para mim, para Minas Gerais, para a minha cidade de Mercês e para o Brasil. Foi um sentimento enorme de orgulho. Essa prova me mostrou ainda mais que eu posso acreditar no meu potencial e evoluir cada vez mais. Quando a gente treina e trabalha a mente, tudo é possível.
Você começou a correr ainda muito jovem, em Mercês, quase por acaso. Olhando para trás, como aquela primeira corrida aos 13 anos ajudou a moldar a atleta e a pessoa que você é hoje?
Desde pequena, desde os meus 9 ou 10 anos, eu sempre gostei muito de esporte. Tudo o que eu fazia tinha competitividade; eu queria dar o meu melhor. Comecei no futsal e até tenho um troféu de artilheira. Eu era muito ativa, corria o tempo todo, ajudava na defesa e no ataque.
Nas brincadeiras de rua, no pique-pega, eu sempre fui rápida e esperta. Sempre fui determinada e disciplinada em tudo o que fazia. Não gostava de faltar aos treinos nem à escola. Desde cedo, tive muita força de vontade.
A partir dos 11 anos, já ficava sozinha em casa e comecei a cozinhar para os meus irmãos. Isso tudo ajudou a formar a pessoa que eu sou hoje: uma Amanda dedicada, determinada, que não desiste dos seus sonhos, que acredita, mesmo passando por dificuldades e desafios.
No alto rendimento, há muita cobrança e momentos difíceis, mas é a paciência, a persistência e a constância que nos fazem chegar mais longe. Eu me orgulho muito da Amanda que eu sou hoje, da atleta que inspira, que sonha, que acredita e que, nos últimos anos, ganhou ainda mais coragem para arriscar e evoluir.
Durante um período importante da sua formação, você treinou sozinha, sem estrutura e sem patrocínio. Que lições essa fase deixou e como ela influencia sua mentalidade hoje?
Eu sempre treinei sozinha. Nunca tive um pace fixo ou pessoas me acompanhando diariamente. Por isso, a base da minha carreira sempre foi a disciplina e a dedicação: levantar todos os dias, cumprir o treino e entregar o ritmo.
No início foi difícil. A estrutura e os patrocínios nem sempre existem, mas não é algo que a gente possa reclamar. Com o pouco que se tem, é preciso fazer a nossa parte. Os apoios surgem quando vêm os resultados; infelizmente, essa é a realidade.
Essa fase me ensinou a ter uma mentalidade forte. Acordar, treinar, cumprir o treino, mesmo quando ninguém está olhando. Isso me deixou mais forte como atleta e como pessoa. Também houve muitas abdicações, como ficar longe da família.
Quando saí de casa para estudar em Juiz de Fora, larguei tudo para tentar algo novo. Trabalhei, estudei e treinei, e foi lá que me formei em Educação Física. Tudo foi sobre arriscar para evoluir. Hoje, olho para trás com gratidão por tudo o que vivi.

Juiz de Fora marcou uma virada na sua carreira. O que mudou a partir desse período?
Juiz de Fora foi fundamental. Ganhei uma bolsa integral para estudar Educação Física, que sempre foi um sonho. No começo foi bem difícil, porque eu trabalhava, treinava e estudava, mas nunca reclamei.
Treinava cedo, na pista da UFJF, sempre dedicada. Foi ali que comecei oficialmente no alto rendimento: me federando, disputando campeonatos sub-23 e conquistando resultados expressivos. Passei a competir em provas de elite e a acreditar ainda mais no meu potencial.
Também tive acompanhamento mais próximo, novas amizades e referências. Juiz de Fora se tornou minha segunda casa. Foi lá que me inspirei em atletas que já tinham defendido a Seleção Brasileira e, em 2019, conquistei meu primeiro título brasileiro de cross country, o que me levou à minha primeira convocação para a Seleção Brasileira, no Equador.
Onde você coloca a vitória na Pampulha dentro da sua trajetória?
Cada conquista tem um significado diferente. A corrida me proporcionou minha primeira viagem de avião e minha primeira viagem internacional. Tudo isso é fruto de dedicação, treino e coragem para arriscar.
A vitória na Pampulha foi, sem dúvida, a mais marcante, emocionante e impactante da minha carreira até hoje. Vencer uma prova tão tradicional, no meu estado, Minas Gerais, foi especial demais.
Eu já tinha falado com meu treinador que um dos meus sonhos era vencer a Pampulha e quebrar essa hegemonia das atletas africanas. Muitas vezes o atleta brasileiro é subestimado, e eu quis mostrar que a gente também pode fazer a nossa parte.
Foi um dia inesquecível, que ficará para sempre na minha memória como atleta.
Com uma rotina de até 150 km semanais, como você equilibra disciplina, descanso e alimentação para manter a performance em alto nível?
Hoje posso dizer que disciplina, descanso e alimentação são tudo para um atleta profissional. Antes de viver exclusivamente do esporte, era muito difícil, porque não havia descanso suficiente.
Depois que comecei a fazer maratona e passei a viver somente da corrida, percebi uma evolução muito maior. Ter tempo para descansar entre os treinos faz toda a diferença no rendimento.
É preciso respeitar o corpo, entender os dias mais fortes e os dias mais leves. Tudo precisa caminhar junto: treino, descanso e alimentação, sempre com paciência, persistência e constância.
Agora o foco se volta para a São Silvestre, no último dia do ano. Que expectativa você tem para essa prova e como a vitória na Pampulha pode impulsionar esse momento?
A São Silvestre é uma prova muito diferente. Acontece no fim do ano, quando a gente já vem de uma temporada inteira. O percurso é exigente, com início rápido, viadutos, trechos planos e a subida final da Brigadeiro.
Este ano tem sido o mais produtivo da minha carreira. Pela primeira vez consegui fazer um trabalho específico para a São Silvestre, e isso me deixa muito confiante. Estou preparada para qualquer situação e acredito que posso fazer a melhor edição da minha vida.
A vitória na Pampulha me mostrou a força que eu tenho, a coragem e o talento. Com dedicação, treino e disciplina, nada é impossível. Vou para a São Silvestre mais forte, acreditando em mim e buscando um grande resultado.
Depois de um ano tão marcante, quais são as expectativas e objetivos para a próxima temporada?
Minhas expectativas para 2026 são melhorar minhas marcas nos 10 km, na meia maratona e na maratona. Vou participar, já no início do ano, do Mundial de Cross Country e, depois, disputar também uma prova rápida de meia maratona.
Meu principal objetivo é melhorar todas as minhas marcas e estar sempre no pódio das principais provas do Brasil, buscando evolução diária com disciplina, dedicação e constância.
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