Sem as bets, como Cruzeiro e Atlético vão substituir patrocínios de R$ 100 milhões por ano?
Acordos de Raposa e Galo com empresas de apostas somam R$ 100 milhões por temporada; proibição abre espaço para novos parceiros e exige reorganização comercial

Cruzeiro e Atlético terão de reorganizar parte importante de suas receitas comerciais com a proibição das apostas esportivas no Brasil. Os contratos mantidos pelos dois clubes com empresas do setor representam, juntos, cerca de R$ 100 milhões por ano: aproximadamente R$ 40 milhões destinados à Raposa e R$ 60 milhões ao Galo.
Os valores, porém, envolvem propriedades diferentes. No Cruzeiro, os cerca de R$ 40 milhões correspondem ao patrocínio máster da Betnacional na equipe profissional masculina. No Atlético, o acordo de R$ 60 milhões anuais com a H2 Bet também contempla o time feminino, camisas de treinamento e outras propriedades comerciais. A diferença abre possibilidades distintas para que os clubes redistribuam esses espaços entre novos parceiros e ampliem a arrecadação com outros contratos.
A cifra de R$ 100 milhões também não representa uma perda imediata desse montante em 2026. Trata-se da soma dos valores anuais previstos nos dois acordos, que já estavam em execução antes da mudança. O impacto no caixa dependerá das parcelas ainda não pagas e das condições estabelecidas nos contratos.
A mudança ocorre após a publicação da Medida Provisória 1.394, que proíbe no território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa. A medida entrou em vigor na sexta-feira (25) e ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional.
Cruzeiro tem espaço para novos parceiros
A saída da Betnacional disponibiliza uma das propriedades mais valorizadas do Cruzeiro: o espaço máster da camisa masculina. A Raposa poderá buscar uma empresa para assumir o local ou utilizar outras combinações comerciais para recompor a receita.
O clube também possui outros patrocinadores e propriedades negociadas separadamente, o que permite trabalhar diferentes fontes de arrecadação. A soma desses contratos pode alcançar cifras superiores às de um único acordo, dependendo das empresas interessadas e dos valores negociados.
Essa possibilidade ganha importância em um mercado no qual as casas de apostas elevaram significativamente os investimentos em publicidade no futebol. Sem elas, caberá aos departamentos comerciais encontrar empresas de outros setores dispostas a ocupar as vitrines abertas.
Atlético terá de reorganizar pacote mais amplo
No Atlético, a H2 Bet assinou contrato por três temporadas, entre 2025 e 2027, por R$ 180 milhões fixos, com possibilidade de o valor total ultrapassar R$ 200 milhões mediante o cumprimento de metas.
Como a parceria contempla diferentes propriedades, o Galo poderá procurar uma empresa para assumir o pacote ou negociar os espaços separadamente. A segunda opção permitiria distribuir os ativos entre diferentes patrocinadores e buscar a recomposição da receita por meio de mais de um acordo.
E as camisas que já estão com os torcedores?
A proibição das bets não impede cruzeirenses, atleticanos ou torcedores de outros clubes de continuarem usando camisas que tenham a logomarca de empresas de apostas. A medida atinge a exploração comercial e as ações de publicidade e patrocínio, e não o uso particular de uma peça adquirida pelo consumidor.
Assim, quem já comprou um uniforme com Betnacional, H2 Bet ou qualquer outra empresa do setor poderá continuar utilizando a camisa normalmente. Não há previsão de punição ao torcedor pelo uso particular dessas peças.
A mudança ocorre na atividade comercial dos clubes e das empresas. Com o fim do prazo estabelecido para adequação, as marcas das bets terão de deixar as novas ações publicitárias e os espaços institucionais atingidos pela proibição.
Quem pode ocupar o espaço das bets?
Instituições financeiras, bancos digitais, empresas de tecnologia e telecomunicações, varejistas, indústrias, montadoras e marcas de bens de consumo estão entre os setores que tradicionalmente investem no futebol e podem voltar a disputar com maior força os principais espaços publicitários.
O desafio será manter os valores alcançados nos últimos anos. A entrada das bets aumentou a concorrência e levou os contratos de patrocínio a cifras elevadas. Sem essas empresas, Cruzeiro e Atlético precisarão testar quanto o mercado tradicional está disposto a investir.
A recomposição também não precisa ocorrer exclusivamente na camisa. Direitos de transmissão, programas de sócio-torcedor, bilheteria, venda de jogadores, licenciamento de produtos e propriedades comerciais dos estádios fazem parte das fontes que podem ganhar ainda mais importância.
Governo discute alternativas
Os impactos da medida no futebol serão discutidos pelo governo federal com representantes dos clubes. Uma reunião está prevista para terça-feira (29), com participação dos ministérios do Esporte e da Fazenda e dirigentes das Séries A e B.
Entre as possibilidades em discussão estão linhas de crédito relacionadas aos passivos dos clubes e a recursos futuros. Até o momento, porém, não há definição sobre valores, condições ou critérios para eventual acesso.
O ministro do Esporte, Paulo Henrique Perna Cordeiro, afirmou que “o futebol sempre viveu sem as bets” ao comentar a reação provocada pela proibição.
Para Cruzeiro e Atlético, a mudança abre uma corrida por novos parceiros em um momento no qual propriedades comerciais importantes voltarão ao mercado. Mais do que simplesmente substituir as marcas das casas de apostas, Raposa e Galo terão de encontrar uma nova combinação de patrocinadores e receitas capaz de preservar o nível de arrecadação construído nos últimos anos.
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