Exportações deixam de ser saída para a crise com a valorização do real

Janaína Oliveira
joliveira@hojeemdia.com.br
Publicado em 12/08/2016 às 07:00.Atualizado em 15/11/2021 às 20:19.
 (Lucas Prates / Hoje em Dia)
(Lucas Prates / Hoje em Dia)

A valorização do real pegou a indústria brasileira de surpresa. Soou como “presente de grego” a depreciação do dólar desde o início do ano, que empurra para baixo a competitividade das empresas nacionais, tanto no mercado externo quanto no interno. 

Neste ano, a moeda americana saiu do patamar próximo de R$ 4,20, em janeiro, para R$ 3,14, ontem. A queda de aproximadamente 25% na cotação jogou uma ducha de água fria no setor produtivo, que, apostando na continuidade da alta do dólar ante o real do ano passado, promoveu uma reorganização e passou a enxergar o mercado externo como válvula de escape para uma das mais profundas crises econômicas, senão a mais profunda, da história do Brasil. 

Entre os empresários, o sentimento é um misto de frustração e preocupação. 

“Depois de um período terrível, começamos a experimentar uma fase de mudança, com um dólar mais favorável. A moeda estava ajudando, inclusive, na exportação de manufaturados, que são produtos com maior valor agregado. Mas infelizmente esse alívio foi interrompido”, diz o presidente do Conselho de Política Econômica da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Gonçalves Fernandes. 

Segundo ele, muitas empresas fizeram planos imaginando que o dólar estivesse muito mais próximo de R$ 4 do que dos R$ 3, como hoje. 

“A valorização do real corrói o resultado das exportações, especialmente em um cenário de desestruturação do parque (fabril) brasileiro”, afirma. No primeiro semestre do ano, a indústria mineira acumula um tombo de 11% no faturamento. 

Para Fernandes, também não “cola” o discurso de que o câmbio sirva de instrumento de controle inflacionário. “Tenho ouvido isso de entes do governo Temer. Mas isso é perigoso. Na verdade, o dólar nesse patamar gera uma perda do potencial de retomada do emprego”, diz. 

O presidente do Sindicato da Indústria Têxtil de Minas Gerais (Sindimalhas), Flávio Roscoe, também condena a desvalorização da moeda americana frente ao real. 

“Isso é péssimo porque sofremos dos dois lados. Perdemos espaço lá fora para o produto da China, nosso principal concorrente, e também perdemos o clientes no nosso próprio mercado”, lamenta. O planejamento financeiro das companhias também é prejudicado, uma vez que os preços calculados e feitos nas pré-vendas são afetados. 

O setor agropecuário é um dos poucos na indústria que vê algum ponto positivo no dólar mais “baixo”. 

“Há uma perda de valor nas exportações, mas ao mesmo tempo conseguimos importar insumos, como fertilizantes e defensivos agrícolas, por um preço melhor”, diz a coordenadora da Assessoria Técnica da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais (FAEMG), Aline Veloso. 

Como o momento é de colheita de café nas cidades mineiras, a recomendação aos produtores é escalonar a comercialização. 



Se o real valorizado atinge em cheio a indústria e as exportações, do carrinho de compras às férias, a expectativa para o consumidor é de refresco no bolso. 

Para o superintendente da Associação Mineira dos Supermercados (Amis), Antônio Claret, o dólar em patamar mais próximo de R$ 3 interfere não só no valor do produto importado, como também de seus similares nacionais e daqueles produzidos com insumos importados. 

“A farinha de trigo, por exemplo, é praticamente toda importada. Como está presente em vários produtos, o dólar alto pressiona os preços em série”, diz. 

Até o feijão, que virou símbolo da inflação, poderia ficar menos salgado.

“O governo Temer autorizou a importação de feijão para aumentar a oferta no mercado interno, mas com o dólar elevado a medida não surtiu efeito. Se na época a cotação estivesse mais favorável, isso teria ajudado a reduzir o preço para a dona de casa”, afirma. 

O superintendente da Amis diz ainda que a cotação em níveis mais baixos é apreciada por quem aprendeu a levar pra a adega vinhos importados. “Se continuar assim, os preços das bebidas importadas tendem a cair”, diz. 



A valorização da moeda nacional também já bateu às portas do setor de turismo. 

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens em Minas (Abav-MG), Antonio da Matta, as consultas para passeios internacionais já ganharam um fôlego extra. 

“É uma luz no fim do túnel, mas a maioria dos clientes está em compasso de espera com relação à situação econômica e política do país para fechar negócio”, diz. 

Matta afirma que é possível encontrar passagens para a Europa por US$ 400. 

“Se considerarmos a cotação que usamos hoje (ontem) para o dólar turismo, na casa dos R$ 3,50, isso dá cerca de R$ 1.400, o que é um excelente valor”, diz. 

No entanto, ele lembra que o circuito terrestre, que inclui hotéis, passeios e translados, geralmente considera o dólar um pouco mais alto. 

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