
HANGZHOU (CHINA) - Se o amigo não passou as últimas três décadas num abrigo nuclear, certamente sabe quem é Pikachu. E não estamos falando do Yago, mas do bichinho amarelo, que parece um coelho e solta raios.
Pikachu há décadas é o rosto de Pokémon, um dos produtos mais lucrativos da Nintendo, capaz de ofuscar a realeza de Super Mario. Mas por que falar de Pokémon logo agora, em abril de 2026?
Simples! Porque Pokémon nunca sai de moda. Seja no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos ou na China. Inclusive, na terra dos pandas há incontáveis lojas dedicadas aos monstrinhos que vendem pelúcias, cartas e até açucareiros em forma de pokébolas (se é que se grafa dessa forma).
Mas o que chama mais atenção é o frenesi que essas criaturinhas de mentirinha causam. Na cobertura do Salão de Pequim, rodamos muito na China e ainda iremos perambular bastante por aqui nos próximos dias. E por onde quer que você vá, tem uma loja oficial Pokémon.
Em uma das várias galerias de Hangzhou, no Sul da China, uma loja da franquia era disputada por visitantes nativos e estrangeiros. Mesas para jogar cartas (que têm uma lógica mais complexa que o Super Trunfo de minha geração) permitem posicionar corretamente as cartinhas. Cada uma representa uma criatura.
Até então, tinha plena convicção de que Pokémon era uma febre infantil, como catapora. Vi meus primos mais novos e meu filho se encantarem por eles. Mas não imaginaria que meus colegas de 30, 40 e até 50 anos também se derretem pelos bichinhos. Conhecem nomes, evoluções, era e outras segmentações.
Comprei um deles, de forma aleatória, para meu filho. Para todos que mostrei, quase fui execrado, porque o bicho não era “digno” de coleção. Um ratinho, com cara de malvado, que se chama Ratatá.
É uma cultura que movimenta milhões de dólares e tem uma legião de séquitos fieis, como meu filho e meus colegas de meia idade.
Mas onde tudo isso começou? Muita gente acredita que Pokémon nasceu de uma série de desenhos animados que fez sucesso a partir dos anos 1990, mas na verdade, o primeiro produto foi um jogo para Game Boy, lançado em 19xx.
A Nintendo criou o desenho para ajudar a divulgar o game. No joguinho, a lógica é participar de duelos, em que o jogador deve lutar com seus monstrinhos e combinar golpes e movimentos de defesa.
É uma lógica parecida com a dos jogos de RPG de turnos, como Final Fantasy e Phantasy Star. A diferença é que o jogador não precisa se envolver numa história sem fim.
E o desenho foi o que ajudou a massificar a franquia. A molecada assistiu na TV, começou a colecionar cartas e demais quinquilharias. E claro, descobriram que poderiam ser treinadores se tivessem um Nintendo.
Hoje, há títulos modernos para Switch e Switch 2, cheios de efeitos e com uma narrativa cinematográfica. Mas muitos jogadores da “velha guarda” e jovens ainda se amarram nos games antigos. Claro que quase ninguém tem um Game Boy de primeira geração na mochila (e muito menos um estoque de pilhas AAA), inclusive meus companheiros de viagem pela China.
Mas todos jogam Pokémon nos celulares, por meio de emulação, inclusive no iPhone. E mesmo que a Nintendo mova milhões de dólares todos os anos para coibir a prática (que é ilegal se o jogador não tiver uma cópia do jogo), o joguinho baixado mantém vivo a relação com a franquia.
Pelo menos quatro colegas, que jogam Pokémon no celular, foram na loja oficial e gastaram pequenas fortunas com bichinhos, cartas e toda sorte de produtos licenciados. E mais, todos eles gastaram muito mais com consoles como Switch e as caríssimas cópias (originais) dos jogos atuais, assim como assinaturas de conteúdos antigos em sua plataforma.
Quem sou eu para dizer se a Big N está certa ou errada em sua batalha contra a emulação. Mas uma coisa é certa: assim como o desenho, o joguinho no celular ainda mantém o desejo de consumo latente. É uma febre que não passa.