
Depois de mais de 20 anos testando e escrevendo sobre jogos, 2025 foi uma espécie de banho de água fria, principalmente quando falamos de títulos Triple A (as produções de grande orçamento). E a razão é simples: eles perderam a essência, o jogador ficou em segundo plano e o acionista se tornou prioridade.
Claro que todo negócio existe para dar lucro. Não há nada de errado nisso. Mas a indústria de jogos se perdeu em algum momento. Dois títulos foram emblemáticos para essa percepção de que o cliente virou apenas uma fonte de arrecadação. Call of Duty: Black Ops 7 e EA Sports FC26.
Estamos falando de duas franquias poderosíssimas, que giram uma soma absurda de dinheiro com desenvolvimento, marketing e vendas. Basta analisarmos os valores das aquisições de Electronic Arts e Activision movimentaram mais de US$ 120 bilhões. Ou seja, são operações robustas, que exigem projetos sem chance de fracasso comercial.
Recentemente li um artigo no IGN sobre o drama que é ser diretor de estúdio. Ele não tem margem para erro. Seu jogo tem que funcionar. Não é muito diferente da indústria do cinema. Assim, a indústria aposta em receitas de faturamento assertivo.
Jogos online, assinaturas, vendas de itens cosméticos, pacotes disso e daquilo e mais um monte de quinquilharia para manter a base de jogadores. Tudo isso sem considerar o pagamento pelo jogo em si. Hoje, games Triple A, em suas edições de luxo, podem superar os R$ 500.
E diante desse cenário, foi decepcionante jogar FC26 e Black Ops 7. O game de futebol propôs uma nova forma de jogo, mais realista, que na verdade não muda nada. Joguei FC26 no PS4 e no PC. A ideia era realmente comparar as discrepâncias gráficas e técnicas de cada versão. Não muda nada.
Se não bastasse, o game não traz nada de substancial em comparação com FC25. A única “vantagem” é o acesso ao servidor para partidas online. Ou seja, o jogador compra seu passe para jogar online, pois além de o tempo de funcionamento do servidor ser finito, há uma migração de jogadores.
O mesmo pôde ser anotado com Black Ops 7. Além do enredo bisonho, o jogo é burocrático e praticamente impossível de se começar a jogar. A ferramenta para evitar trapaças (na edição para PC) exige ajustes na BIOS do computador e também no Windows. Ou seja, se o jogador não for familiarizado com as entranhas virtuais da máquina, precisará chamar um técnico para fazer o ajuste. Uma ferramenta para evitar evasão de jogadores e logo, perda de receita. Que se dane o Fair Play.
Dentro do jogo, CoD tenta vender porcarias a todo tempo. Parece um shopping de muambas. Tudo isso para manter a rentabilidade ativa e amortizar a fortuna gasta no desenvolvimento.
Mas e o jogo? O jogo é um mero detalhe, os dois medalhões que estão no mercado há anos deixam claro que algo precisa mudar na indústria e varejo de games. Talvez fosse mais digno que a EA fizesse como a Konami e oferecesse gratuitamente seu jogo de futebol. Ela pode cobrar assinatura ou pelas melhorias, mas cobrar uma pequena fortuna para entregar a mesma coisa não é legal.
É por essas e outras que nos últimos tempos temos visto atrasos intermináveis de produções de alto orçamento. Tem sido assim com GTA 6, que tem causado arroubos nas redes sociais, escalas extenuantes, que levaram a conflitos trabalhistas e outros imbróglios. Tudo para evitar um lançamento falho.
A CD Projekt Red sabe bem o que é lançar um jogo Triple A defeituoso. O fracassado lançamento de Cyberpunk 2077 foi case do que não pode ser feito. O game finalizado às pressas era um lixo, impossível de jogar. Mas que se dane o jogador, o problema é que o jogo podre derrubou ações da empresa. Segundo analistas, um tombo de 75% do valor. Isso o acionista não podia aceitar.
Assim, vemos que os jogos Triple A se tornaram um brinquedo de quem aposta nos papéis da indústria. O problema é que nesse Jogo do Tigrinho, só o gamer tem o direito de se dar mal.