Uma noite de sono pode revelar risco futuro de doenças? IA abre novo caminho na medicina
Modelo estudado com dados de mais de 65 mil pessoas analisa sinais cerebrais, cardíacos e respiratórios durante o sono; tecnologia ainda não é usada para diagnóstico

Uma única noite de sono pode fornecer pistas sobre o risco futuro de doenças neurológicas, cardiovasculares, respiratórias e metabólicas. Pesquisas que combinam dados da polissonografia com inteligência artificial (IA) apontam para essa possibilidade e podem, no futuro, transformar o exame do sono em uma ferramenta também voltada à prevenção e identificação precoce de problemas de saúde. A tecnologia, porém, ainda está em fase de estudo e não deve ser utilizada como instrumento de diagnóstico clínico.
O tema foi apresentado pela neurologista e especialista em Medicina do Sono do Fleury, Rosana Cardoso Alves, durante o 11º Encontro Fleury de Jornalismo em Saúde, realizado nessa quarta-feira (2). O evento discutiu os avanços da medicina relacionados à longevidade saudável.
Um dos estudos abordados utiliza o SleepFM, modelo de inteligência artificial apresentado em publicação da Nature Medicine em 2026. A tecnologia foi desenvolvida a partir de informações de mais de 65 mil participantes e 585 mil horas de polissonografia, integrando sinais de atividade cerebral, cardíaca, muscular e respiratória registrados enquanto os pacientes dormiam.
A proposta é que a IA encontre padrões em milhares de variáveis simultaneamente. Os sinais analisados podem fornecer informações diferentes: a atividade cerebral, por exemplo, apresentou relação com doenças neurológicas e psiquiátricas; os sinais respiratórios, com condições respiratórias e metabólicas; e os dados cardíacos, com doenças cardiovasculares. A combinação das informações apresentou o melhor desempenho.
Na prática, a perspectiva é que dados produzidos durante uma polissonografia possam ajudar, futuramente, não apenas a identificar distúrbios como a apneia, mas também a estimar riscos de outros problemas de saúde antes mesmo do aparecimento de sintomas.
Sono também está relacionado à longevidade
A discussão ganha importância diante das evidências sobre a relação entre sono e envelhecimento saudável. Um dos estudos apresentados no encontro analisou dados dos Estados Unidos entre 2019 e 2025 e encontrou associação significativa entre dormir menos de sete horas por noite e uma menor expectativa de vida.
Segundo o material apresentado, a relação permaneceu mesmo após o controle de outros fatores tradicionais ligados à mortalidade. Entre os comportamentos analisados, apenas o tabagismo apresentou associação mais forte com a redução da expectativa de vida do que o sono insuficiente.
O avanço de relógios, pulseiras, anéis inteligentes e outros dispositivos capazes de acompanhar continuamente o sono também tende a aumentar a quantidade de informações disponíveis sobre a saúde ao longo dos próximos anos.
Apesar das possibilidades, os próprios estudos impõem cautela. O modelo de IA analisado foi desenvolvido principalmente com dados de pessoas encaminhadas para exames do sono, e ainda não está claro se o desempenho será o mesmo na população em geral. Há também limitações relacionadas à interpretação dos resultados e diferenças entre populações. Por enquanto, portanto, a tecnologia aponta um potencial para a medicina preventiva, e não uma forma de prever individualmente quem desenvolverá determinada doença.
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