SAÚDE DO FUTURO

Uma noite de sono pode revelar risco futuro de doenças? IA abre novo caminho na medicina

Modelo estudado com dados de mais de 65 mil pessoas analisa sinais cerebrais, cardíacos e respiratórios durante o sono; tecnologia ainda não é usada para diagnóstico

Ana Luísa Ribeiro
aribeiro@hojeemdia.com.br
Publicado em 03/09/2026 às 11:43.Atualizado em 03/09/2026 às 11:43.
Inteligência artificial pode ampliar informações obtidas durante exames do sono e ajudar, no futuro, a estimar riscos de diferentes doenças (katemangostar/Freepik)
Inteligência artificial pode ampliar informações obtidas durante exames do sono e ajudar, no futuro, a estimar riscos de diferentes doenças (katemangostar/Freepik)

Uma única noite de sono pode fornecer pistas sobre o risco futuro de doenças neurológicas, cardiovasculares, respiratórias e metabólicas. Pesquisas que combinam dados da polissonografia com inteligência artificial (IA) apontam para essa possibilidade e podem, no futuro, transformar o exame do sono em uma ferramenta também voltada à prevenção e identificação precoce de problemas de saúde. A tecnologia, porém, ainda está em fase de estudo e não deve ser utilizada como instrumento de diagnóstico clínico.

O tema foi apresentado pela neurologista e especialista em Medicina do Sono do Fleury, Rosana Cardoso Alves, durante o 11º Encontro Fleury de Jornalismo em Saúde, realizado nessa quarta-feira (2). O evento discutiu os avanços da medicina relacionados à longevidade saudável.

Um dos estudos abordados utiliza o SleepFM, modelo de inteligência artificial apresentado em publicação da Nature Medicine em 2026. A tecnologia foi desenvolvida a partir de informações de mais de 65 mil participantes e 585 mil horas de polissonografia, integrando sinais de atividade cerebral, cardíaca, muscular e respiratória registrados enquanto os pacientes dormiam.

A proposta é que a IA encontre padrões em milhares de variáveis simultaneamente. Os sinais analisados podem fornecer informações diferentes: a atividade cerebral, por exemplo, apresentou relação com doenças neurológicas e psiquiátricas; os sinais respiratórios, com condições respiratórias e metabólicas; e os dados cardíacos, com doenças cardiovasculares. A combinação das informações apresentou o melhor desempenho.

Na prática, a perspectiva é que dados produzidos durante uma polissonografia possam ajudar, futuramente, não apenas a identificar distúrbios como a apneia, mas também a estimar riscos de outros problemas de saúde antes mesmo do aparecimento de sintomas.

Sono também está relacionado à longevidade

A discussão ganha importância diante das evidências sobre a relação entre sono e envelhecimento saudável. Um dos estudos apresentados no encontro analisou dados dos Estados Unidos entre 2019 e 2025 e encontrou associação significativa entre dormir menos de sete horas por noite e uma menor expectativa de vida.

Segundo o material apresentado, a relação permaneceu mesmo após o controle de outros fatores tradicionais ligados à mortalidade. Entre os comportamentos analisados, apenas o tabagismo apresentou associação mais forte com a redução da expectativa de vida do que o sono insuficiente.

O avanço de relógios, pulseiras, anéis inteligentes e outros dispositivos capazes de acompanhar continuamente o sono também tende a aumentar a quantidade de informações disponíveis sobre a saúde ao longo dos próximos anos.

Apesar das possibilidades, os próprios estudos impõem cautela. O modelo de IA analisado foi desenvolvido principalmente com dados de pessoas encaminhadas para exames do sono, e ainda não está claro se o desempenho será o mesmo na população em geral. Há também limitações relacionadas à interpretação dos resultados e diferenças entre populações. Por enquanto, portanto, a tecnologia aponta um potencial para a medicina preventiva, e não uma forma de prever individualmente quem desenvolverá determinada doença.

Leia também:

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por