
WASHINGTON (EUA) - Em 2025, o Brasil consolidou uma posição desconfortável no cenário internacional. O país é o maior mercado absoluto de cigarros ilegais entre 11 nações da América Latina e o Canadá. O consumo dos produtos contrabandeados atingiu a marca de 41,8 bilhões de unidades, o que representa 36% de todo o mercado nacional de tabaco.
O estudo feito pela consultora especializada KPMG, encomendado pela Philip Morris International (PMI) - multinacional produtora de tabaco e derivados -, destaca que, enquanto o consumo legal de cigarros domésticos caiu 2,9%, o mercado ilegal demonstrou resiliência.
O Brasil sozinho concentra 54% de todo o volume ilícito dos 11 países pesquisados. O Paraguai permanece como o epicentro do suprimento, sendo a fonte de 44% de tudo o que é ofertado ilegalmente nesses mercados.
De acordo com o relatório, os produtos ilegais já respondem por 31,9% do consumo total nos mercados analisados (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala, México e Panamá). No total, 77 bilhões de cigarros ilícitos circularam nessas regiões em 2025, gerando uma perda fiscal estimada em US$ 8,5 bilhões (cerca de R$ 65 bilhões).
Para Marco Hannappel, presidente da PMI para a América Latina e o Canadá, o cenário é reflexo de uma estrutura criminosa profissionalizada que opera onde o Estado falha em regular.
"A América Latina apresenta números que são o dobro da média mundial. Isso ocorre porque o ilícito está ligado ao crime organizado. É dinheiro fácil para essas organizações. Se você for pego com cigarros, o risco é muito menor do que com drogas ou outros materiais, mas o lucro é extremamente alto", afirma Hannappel.
Uma categoria específica domina as apreensões e o consumo: os chamados Illicit Whites. São cigarros fabricados legalmente em um país (majoritariamente no Paraguai), mas com o propósito exclusivo de serem contrabandeados para outros mercados. Em 2025, eles representaram 73% de todo o volume ilegal.
Percentual do mercado ilegal de cigarros por país (2025)
- Panamá - 89%
- Equador - 84%
- Chile - 58%
- Brasil - 36%
- México - 22%
- Argentina - 11%
Debate sobre produtos sem fumaça
Na visão da Philip Morris International, a discussão sobre o mercado ilegal de cigarros no Brasil esbarra na proibição de alternativas, como os dispositivos de tabaco aquecido e vapes. A empresa alega que, enquanto o cigarro tradicional é permitido e tributado, essas "tecnologias" permanecem na ilegalidade.
"A proibição não impede o consumo, ela apenas retira o controle das mãos do Estado e o entrega ao crime organizado", entende Hannappel.
Além da questão fiscal, a Philip Morris defende que a regulamentação de novos produtos poderia transformar o Brasil em um polo de exportação tecnológica. Conforme o executivo, o país, que já é um dos maiores produtores de tabaco do mundo, poderia converter suas fábricas para atender a demanda global por produtos de menor risco.
Vice-presidente de Comunicação Internacional da PMI, o italiano Tommaso Di Giovanni, que é casado com uma brasileira que mora em São Paulo, afirma que muitas pessoas utilizam produtos ilegais - especialmente os dispositivos eletrônicos - sem compreender que estão consumindo algo sem qualquer garantia de origem ou controle de qualidade. "É um problema de segurança e saúde pública que o governo ainda não conseguiu estancar", pontua.
“Não importa o tipo de tecnologia, o cigarro eletrônico é prejudicial à saúde", reforça Anvisa
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe desde 2009 a importação, publicidade e comercialização de DEFs (Dispositivos Eletrônicos para Fumar), o que inclui cigarros eletrônicos com vapor inalado, tabaco aquecido e vaporizadores de ervas secas.
No ano passado, a agência fez uma extensa revisão do tema que culminou na manutenção do veto aos dispositivos eletrônicos para fumar. Conforme a Anvisa, todos os dados científicos “indicam que o produto contribui para adesão de novos fumantes e aumento do consumo de nicotina, não havendo sustentação para sua permissão”.
A agência sempre destacou que “não importa o tipo de tecnologia, o tipo de cigarro eletrônico, todos são prejudiciais à saúde”.
*O repórter viajou a convite da Philip Morris International (PMI)
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