
Os americanos vão às urnas nesta terça-feira (3) em uma eleição que pode tirar do presidente Donald Trump o controle do Congresso pelos dois anos restantes de seu mandato. A votação, conhecida como eleição de meio de mandato (midterms), é o primeiro grande teste eleitoral do republicano desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025.
Estão em disputa as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e os governos de 36 dos 50 estados americanos. Atualmente, o Partido Republicano, de Trump, tem maioria nas duas Casas do Congresso, mas por margens apertadas. As pesquisas indicam vantagem dos democratas na disputa pela Câmara, enquanto o cenário no Senado permanece indefinido.
Conforme agências internacionais de notícias, Trump chega à votação com índices de aprovação inferiores a 40%, os mais baixos de sua trajetória política, segundo pesquisas recentes. O custo de vida é apontado como uma das principais preocupações dos eleitores. A guerra contra o Irã, iniciada pelos Estados Unidos e por Israel em fevereiro, pressionou os preços dos combustíveis, enquanto as tarifas de importação impostas pelo governo também contribuíram para o aumento da inflação.
A campanha democrata também explorou acusações de enriquecimento do presidente e de familiares durante o exercício do mandato. Segundo declarações apresentadas ao órgão federal de ética, Trump teria acumulado cerca de US$ 2,2 bilhões desde que assumiu a Presidência, em grande parte por meio de negócios envolvendo criptomoedas.
O próprio presidente transformou a disputa em uma espécie de plebiscito sobre sua gestão. Durante comícios, pediu aos eleitores que votassem nos republicanos "como se meu nome estivesse na cédula".
Como funciona a eleição nos EUA
Diferentemente da eleição presidencial, realizada a cada quatro anos, as eleições de meio de mandato ocorrem a cada dois anos e renovam parte da estrutura política americana. Na Câmara dos Representantes, todas as 435 cadeiras são disputadas, já que os deputados têm mandatos de dois anos.
No Senado, cada um dos 50 estados tem direito a dois representantes, com mandatos de seis anos. A renovação ocorre de forma escalonada, com aproximadamente um terço das cadeiras em disputa a cada eleição.
Para conquistar a maioria na Câmara, um partido precisa alcançar 218 cadeiras. Atualmente, os republicanos têm 218 representantes, enquanto os democratas contam com 214, além de vagas abertas e um independente. Dependendo da configuração das vagas, os democratas precisam conquistar de três a quatro cadeiras para assumir o controle.
No Senado, os republicanos têm 53 assentos, contra 47 da bancada alinhada aos democratas — 45 democratas e dois independentes. Para alcançar a maioria, os democratas precisam conquistar quatro cadeiras líquidas. Em caso de empate em 50 a 50, o voto de desempate cabe ao vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, do Partido Republicano.
O que muda se Trump perder a maioria
O controle do Congresso é fundamental para a condução do governo americano. Caso os democratas conquistem a maioria na Câmara, poderão dificultar a aprovação de projetos defendidos por Trump, influenciar as discussões sobre o orçamento e abrir investigações contra integrantes da administração.
Se também conquistarem o Senado, terão poder para barrar indicações do presidente para cargos importantes, incluindo ministérios e vagas na Suprema Corte.
Uma eventual derrota republicana, porém, não significa necessariamente o fim do mandato de Trump. A abertura de um processo de impeachment depende da aprovação da Câmara, mas a condenação e a destituição do presidente exigem o apoio de dois terços dos senadores.
Historicamente, o partido que ocupa a Casa Branca costuma perder espaço no Congresso nas eleições de meio de mandato. Desde a Segunda Guerra Mundial, a legenda do presidente perdeu cadeiras em quase todas as disputas desse tipo, com apenas duas exceções.
Disputas importantes e risco de contestação
Algumas das disputas mais simbólicas ocorrem em estados tradicionalmente republicanos. No Texas, o democrata James Talarico aparece tecnicamente empatado nas pesquisas com o republicano Ken Paxton, que enfrenta controvérsias. O estado não elege um senador democrata desde 1988.
No Kansas, onde Trump venceu por mais de 16 pontos percentuais em 2024, o democrata Adam Hamilton aparece com leve vantagem. Já na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms pode fazer história caso seja eleita governadora, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar o cargo no estado.
A possibilidade de contestação do resultado também está no radar. Trump frequentemente questiona, sem apresentar provas, a segurança das eleições americanas. Na semana passada, ao ser perguntado se aceitaria o resultado da votação, respondeu que isso dependeria de a eleição ser "honesta".
O Departamento de Justiça também tentou, na Justiça, separar mais de 20 mil votos pelo correio na Califórnia, sob a alegação de que poderiam ter sido enviados por estrangeiros. A Suprema Corte rejeitou o pedido na segunda-feira (2). Estudos independentes apontam que a participação de não cidadãos nas eleições americanas é extremamente rara.
Quando saem os resultados
As primeiras seções eleitorais começam a fechar às 20h, pelo horário de Brasília. Os resultados iniciais devem ser divulgados ao longo da noite, mas a apuração pode se estender por vários dias em estados com grande volume de votos enviados pelo correio, como Califórnia e Alasca.
Além dos impactos sobre a política interna americana, o resultado também pode repercutir na América Latina. Uma derrota expressiva dos republicanos enfraqueceria politicamente Trump e poderia afetar aliados da direita na região, como o presidente argentino Javier Milei, que recebeu apoio financeiro de US$ 20 bilhões do Tesouro americano.