RISCO DE CONTAMINAÇÃO

Lavei vasilha com detergente Ypê. Devo jogar a esponja fora?

Anvisa determinou suspensão da fabricação, comercialização e o uso de produtos da marca

Agência Brasil
Publicado em 08/05/2026 às 17:23.Atualizado em 08/05/2026 às 19:13.
 (FreeImages/Divulgação)
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A bactéria Pseudomonas aeruginosa, encontrada em produtos da indústria Ypê, apresenta forte resistência a antibióticos. Nessa quinta-feira (7), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão da fabricação, comercialização e o uso de diversos materiais de limpeza da marca. A medida foi motivada após a identificação de falhas graves no processo de produção de uma fábrica em São Paulo.

A forte resistência a antibióticos é alertada pelo infectologista Celso Ferreira Ramos Filho, membro titular da Academia Nacional de Medicina (ANM) e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Agora, excepcionalmente, ela causa doenças de forma espontânea. Ela vai causar doenças dentro de um hospital, em uma pessoa com traqueostomia, com respirador, com cateter venoso”, completou o especialista.

Segundo o infectologista, como se trata de uma "bactéria ambiental", esponjas com o produtos que foram usadas normalmente para lavar louça podem estar contaminadas, assim como panos de chão. O descarte é a medida mais segura.

De acordo com ele, é uma bactéria de "vida livre", ou seja, diferente de outras bactérias como a Escherichia coli, que vive dentro do intestino, ou o meningococo, que vive nas fossas nasais das pessoas.

Infecções urinária a respiratória

Segundo ele, a bactéria pode causar uma série de problemas em pessoas imunocomprometidas, desde infecções urinária a respiratória, em pessoas já com que doenças respiratórias crônicas.

“Também pode ocorrer em pessoas que estejam fazendo quimioterapia, o que faz com que haja um comprometimento maior e prévio da saúde da pessoa”, explicou Celso Ferreira.

Pessoas imunocomprometidas

A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que o maior problema dessa bactéria ocorre quando pessoas imunocomprometidas, que têm o sistema imunológico enfraquecido, entram em contato com ela. 

Em pacientes com fibrose cística, por exemplo, ela é causa comum de pneumonia. E o tratamento é muito difícil. Advertiu, por outro lado, que ela pode causar também problemas em pessoas saudáveis.

“Dependendo da cepa da Pseudomonas, mesmo a pessoa saudável pode desenvolver uma infecção, como a otite de nadador, em pessoas que nadam em piscinas, rios, praias”, ressaltou Chamon.

Para a profissional de saúde, o maior problema é quando a bactéria chega ao ambiente hospitalar, e a porta de entrada, geralmente, são as pessoas que trabalham ali ou entram no hospital.

A médica relatou ainda que, dentro do ambiente hospitalar, onde uma pressão seletiva de antibióticos é muito grande, a bactéria carrega dentro dela uma série de resistências.

Segundo Chamon, isso pode provocar infecções mais graves, associadas a pessoas que usam sonda urinária, têm infecção de corrente sanguínea, estão com pneumonia, pessoas com ventilação mecânica. E o tratamento, por conta da gravidade da infecção, é mais difícil, além da questão de a bactéria aumentar o poder de resistência. “Esse é o pior cenário de todos”, afirmou.

Bactéria vive muito bem no solo e na água

Como a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria que vive muito bem no solo e na água, Raiane acredita que a contaminação pode ter ocorrido no momento de produção.

“Não houve um controle microbiológico adequado. Provavelmente, algum reagente na hora de fabricação desses produtos estava contaminado pela Pseudomonas, e acaba que ela consegue se multiplicar nesses ambientes úmidos também”, explicou.

“Na falta do controle microbiológico nas etapas necessárias de fabricação, pode ter tido um crescimento descontrolado de uma cepa específica, que vive melhor em ambientes com detergentes, por exemplo, e a gente acaba detectando, ela, nesses materiais”.

Segundo a médica, existem níveis aceitáveis de contaminação microbiana em todos os produtos. O que não pode é ultrapassar esse nível para não oferecer risco à saúde, principalmente nos indivíduos que estão mais comprometidos em seu sistema imune.

Ypê afirma colaborar integralmente com Anvisa e conduzir ações necessárias com máxima prioridade

De acordo com a decisão da Anvisa, lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetantes da Ypê com lote de numeração final 1 terão de ser recolhidos e não poderão ser usados pelos consumidores.

A Ypê informou que apresentou um recurso perante a Anvisa, com o objetivo de reforçar os compromissos assumidos no seu Plano de Ação e Conformidade, e, ao mesmo tempo, apresentar esclarecimentos adicionais e subsídios técnicos relacionados à Resolução-RE n. 1.834/2026, publicada ontem.

A empresa alega que, com este recurso, a proibição de fabricar e comercializar produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido e desinfetantes "teve seus efeitos automaticamente suspensos até novo pronunciamento da agência, tal como dispõe o art. 17 da RDC n. 266/2019/Anvisa". A agência foi questionada pela reportagem sobre o informado pela marca, mas não houve retorno.

"Porém, ainda que a interposição do recurso tenha resultado na suspensão dos efeitos da medida anterior, a Ypê reforça que a segurança dos seus consumidores é – e sempre será - sua maior prioridade".

A Ypê ainda reafirmou seu compromisso "com a qualidade, a segurança e a transparência".

* Informações da Agência Brasil

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