LEGADO INFINITO

Morre Yayoi Kusama, aos 97 anos; artista deixa galeria permanente no Inhotim, em Minas

Japonesa, um dos maiores nomes da arte contemporânea mundial, morreu em 14 de agosto, em Tóquio; morte foi anunciada nesta quinta-feira (27)

Ana Luísa Ribeiro
aribeiro@hojeemdia.com.br
Publicado em 27/08/2026 às 09:58.Atualizado em 27/08/2026 às 09:58.
Yayoi Kusama morreu aos 97 anos e deixa duas instalações imersivas expostas permanentemente em galeria dedicada à artista no Instituto Inhotim, em Brumadinho (Reprodução/Redes Sociais)
Yayoi Kusama morreu aos 97 anos e deixa duas instalações imersivas expostas permanentemente em galeria dedicada à artista no Instituto Inhotim, em Brumadinho (Reprodução/Redes Sociais)

Yayoi Kusama, uma das artistas mais influentes da arte contemporânea mundial e dona de uma galeria permanente no Instituto Inhotim, em Brumadinho, na Grande BH, morreu aos 97 anos. A japonesa faleceu em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio, mas a morte foi anunciada somente nesta quinta-feira (27), por meio do site oficial da artista. A causa não foi informada.

Conhecida mundialmente pelas bolinhas que se multiplicam por pinturas e esculturas e pelas instalações imersivas com espelhos e luzes, Kusama permaneceu em atividade até os últimos dias de vida. No comunicado, o estúdio responsável pela artista destacou que ela não abandonou os pincéis mesmo perto da morte e afirmou que pretende dar continuidade ao legado deixado por ela.

Em Minas Gerais, parte desse legado pode ser vista de perto. Desde 2023, o Inhotim mantém sua 20ª galeria permanente dedicada exclusivamente à artista. O espaço reúne duas de suas instalações mais conhecidas: “I’m Here, But Nothing” (2000) e “Aftermath of Obliteration of Eternity” (2009).

Um pedaço do infinito em Minas

Na primeira obra, Kusama transforma um ambiente doméstico aparentemente comum. Sob luz negra, móveis, paredes e objetos são tomados por inúmeros pontos fluorescentes coloridos, fazendo com que o visitante também pareça se misturar à instalação.

Já “Aftermath of Obliteration of Eternity” utiliza espelhos e pequenas fontes de luz para criar a impressão de um espaço que se prolonga indefinidamente. Segundo o Inhotim, a iluminação remete, na tradição japonesa, à espiritualidade e à conexão com os ancestrais.

As duas experiências dialogam diretamente com uma ideia central na produção de Kusama: a “auto-obliteração”, conceito relacionado ao apagamento da existência individual e à integração do indivíduo ao infinito. A noção atravessou pinturas, esculturas, performances, instalações, filmes e trabalhos literários da japonesa.

A galeria fica no Eixo Laranja do Inhotim, próxima à Galeria Cosmococa e ao Jardim Veredas, e possui 1.436,97 m². A visita às instalações segue regras específicas devido à capacidade limitada dos espaços.

Das alucinações para a arte

Nascida em Matsumoto, no Japão, em 1929, Yayoi Kusama começou a transformar em arte ainda jovem as alucinações e visões que a acompanhavam. Pontos, redes e padrões repetitivos que enxergava passaram a ocupar seus trabalhos e, décadas mais tarde, se tornariam algumas das imagens mais reconhecidas da arte contemporânea.

Kusama estudou a técnica tradicional japonesa Nihonga em Kyoto, mas se incomodava com as limitações artísticas e sociais que encontrava no país. Em 1957, mudou-se para os Estados Unidos e se estabeleceu em Nova York, onde passou a produzir pinturas, esculturas, performances e instalações experimentais.

Foi durante o período norte-americano que ganhou espaço na cena de vanguarda. Além das artes visuais, realizou happenings, manifestações contra a guerra, performances com pintura corporal e experiências envolvendo moda e cinema.

Kusama retornou definitivamente ao Japão em 1973. Sua produção, porém, continuou se expandindo internacionalmente. A artista também escreveu romances e poesias e desenvolveu trabalhos monumentais, esculturas ao ar livre e as célebres Infinity Mirror Rooms, ambientes construídos com espelhos que criam a sensação de repetição infinita.

Abóboras, bolinhas e reconhecimento mundial

Além dos ambientes espelhados e das bolinhas, as esculturas de abóboras se transformaram em outra assinatura visual de Kusama. Ao longo das décadas, seus trabalhos chegaram a alguns dos principais museus e instituições de arte do mundo.

Em 1993, ela representou o Japão na Bienal de Veneza. Também ganhou retrospectivas e grandes exposições internacionais, incluindo uma mostra no Whitney Museum of American Art, nos Estados Unidos, e uma exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em 2014.

O reconhecimento se refletiu ainda nas honrarias recebidas ao longo da carreira. Entre elas estão a Ordem das Artes e das Letras da França, o Praemium Imperiale e a Ordem da Cultura, uma das principais distinções concedidas pelo Japão. Em 2017, Tóquio ganhou o Museu Yayoi Kusama, instituição dedicada à preservação e divulgação de sua produção.

Mesmo depois de atravessar décadas de transformações no mundo da arte, Kusama manteve a criação como parte central da vida. Entre 2009 e 2021, produziu aproximadamente 900 trabalhos para a série “My Eternal Soul”. Depois, iniciou “Every Day I Pray for Love”, continuando a explorar temas que a acompanharam durante praticamente toda a trajetória: amor, natureza, vida, morte e infinito.

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