Renovação automática de CNH tira ‘barreira de proteção’ do trânsito, dizem especialistas
Médicos e psicólogos peritos de Minas se mobilizam em Brasília e BH contra fim da exigência de exames para atualização de documento

Médicos e psicólogos peritos de Minas alertam para os riscos da renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para condutores que não apresentam infrações, medida que na prática dispensa a exigência de exames. Para os especialistas, mudança pode acarretar no aumento de acidentes de trânsito. O assunto é debatido nesta quarta-feira (8), em audiência pública da Comissão Especial da Câmara dos Deputados, em Brasília.
A psicóloga perita Giuliana Araújo Mezzasalma destaca que os exames para a renovação da habilitação servem como uma “barreira de proteção” para o trânsito. A especialista destacou que a falta da perícia no processo da CNH pode reduzir de forma brusca a segurança nas vias.
"Será renovada de forma automática a carteira de pessoas que são bons condutores, mas que a gente não sabe se estão dirigindo efetivamente. Muitas vezes pode haver pessoas (neste grupo) com problemas de saúde. Ser um bom condutor não tira a questão da saúde da pessoa e da avaliação da saúde", afirma.
Segundo a psicóloga, os exames identificam casos que passariam despercebidos em uma renovação automática, como o uso intenso de drogas, quadros de demência ou transtornos mentais graves.
“Tem pessoas que nós atendemos com problemas psiquiátricos, demências, Alzheimer, uso indiscriminado de substâncias psicoativas. (Agora), não vão ser avaliadas porque, em princípio, são bons motoristas. Então tem o risco dessas pessoas estarem circulando com todo mundo sem nenhuma avaliação, sem nenhum critério, sem nenhuma barreira de proteção”, reforçou.
Ana Cristina Machado Tavares, psicóloga especialista em trânsito com 32 anos de experiência, destaca que a avaliação psicológica monitora fatores como impulsividade, atenção e tendências depressivas.
Além disso, a perita alerta que a renovação automática não leva em consideração condições como catarata, problemas ortopédicos e doenças neurológicas, como o Alzheimer, que podem surgir de forma silenciosa.
"O trânsito é usado, muitas vezes, como forma de autoextermínio ou sinistros causados por desequilíbrio emocional. Uma pessoa avaliada aos 20 anos pode desenvolver diversas comorbidades aos 60. A renovação automática ignora esse envelhecimento e o impacto das doenças mentais na direção", explica.
O debate sobre o tema ocorre em Brasília. Em Belo Horizonte, cerca de 140 profissionais se reuniram na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para acompanhar a sessão em tempo real. A transmissão é feita por meio de um telão.
Além disso, uma comitiva de 150 profissionais mineiros, organizada pela Associação de Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (ACTRANS-MG), está no plenário em Brasília para acompanhar a discussão presencialmente.
Entidades médicas criticam renovação de CNH sem exame de aptidão
Em meio às discussões, mais de 35 entidades médicas brasileiras divulgaram um manifesto para alertar sobre a retirada da exigência do exame. Segundo as associações, a medida pode comprometer a capacidade do país de prevenir mortes no trânsito.
O posicionamento, liderado pela Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), reforça que a aptidão para dirigir não é permanente, mas uma condição que pode ser alterada ao longo do tempo em razão de doenças, do uso de medicamentos ou de eventos clínicos que afetam visão, reflexos, cognição e capacidade motora.
“Na prática, isso significa que um condutor pode estar inapto para dirigir sem qualquer registro de infração. Problemas como diabetes, cardiopatias, epilepsia, distúrbios do sono e doenças neurológicas não aparecem em radares nem em multas, mas impactam diretamente a segurança ao volante”, destacou a Abramet.
Leia também: