Árvore da Mata Atlântica resiste a calor extremo e rejeitos de mineração, aponta estudo da UFMG
Resiliência destaca potencial da espécie para programas de restauração de áreas impactadas pela mineração

Uma árvore nativa da Mata Atlântica apresentou capacidade incomum de sobreviver a solos contaminados por rejeitos de mineração e a temperaturas extremas, segundo estudo divulgado nesta terça-feira (16) por pesquisadores da UFMG. O estudo indica que a pitanga-preta, cientificamente conhecida como Eugenia florida, mantém alta eficiência fotossintética e ativa mecanismos fisiológicos de defesa mesmo em áreas afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão, na cidade de Mariana, em 2015.
Os pesquisadores analisaram a espécie em áreas contaminadas e não contaminadas da bacia do Rio Doce, avaliando tanto as condições do solo quanto 16 variáveis fisiológicas ligadas à nutrição, fotossíntese, fotoproteção e tolerância ao calor.
O trabalho, publicado na revista científica Theoretical and Experimental Plant Physiology, é resultado de uma parceria entre UFMG, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade de Oxford e o Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI).
Solo degradado e respostas adaptativas
As análises confirmaram que os solos atingidos pelos rejeitos apresentam baixa fertilidade, pouca matéria orgânica, redução de nutrientes essenciais e alta concentração de ferro. Ainda assim, a pitanga-preta conseguiu compensar essas limitações.
Mesmo com uma redução no balanço de nitrogênio, as plantas aumentaram a produção de clorofila e flavonoides, compostos importantes para a proteção celular contra o estresse ambiental.
Segundo o estudo, a eficiência da fotossíntese permaneceu estável nos indivíduos que crescem em áreas contaminadas. Isso ocorre porque a espécie consegue reorganizar o metabolismo e ativar mecanismos de fotoproteção, reduzindo perdas de energia e mantendo o funcionamento do sistema fotossintético mesmo sob múltiplos estresses.
Mais tolerância ao calor em cenário de crise climática
Outro dado relevante é que as plantas estabelecidas em solo contaminado mostraram maior tolerância ao calor. Elas só começam a perder metade da eficiência fotossintética em temperaturas cerca de 6,5% mais altas do que aquelas suportadas por plantas de áreas não impactadas. Para os pesquisadores, esse fenômeno indica um tipo de “tolerância cruzada”, em que a exposição prolongada a um estresse, como o solo degradado, aumenta a resistência a outros, como ondas de calor.
Esse comportamento é considerado especialmente importante diante do avanço das mudanças climáticas e do aumento da frequência de eventos extremos, como períodos prolongados de calor intenso.
Com base nos resultados, os autores concluem que a pitanga-preta apresenta elevada plasticidade funcional, coordenando mecanismos de fotoproteção, equilíbrio energético e defesas antioxidantes para sobreviver em ambientes severamente degradados. Essa resiliência destaca o potencial da espécie para programas de restauração de áreas impactadas pela mineração, especialmente em matas ciliares expostas a estresses climáticos.
Os pesquisadores reforçam que os achados reforçam a importância de investir em soluções baseadas na natureza, com o uso de espécies nativas capazes de responder a múltiplos estresses ambientais, contribuindo para a recuperação de ecossistemas tropicais degradados.
Leia mais: