Cidade Arrasada

Catástrofe pode ‘redesenhar’ mapa das áreas de risco em Juiz de Fora, apontam especialistas

Avaliação é de professores da Faculdade de Engenharia da UFJF

Bernardo Haddad
@_bezao
Publicado em 02/03/2026 às 07:30.
Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas com deslizamentos, desmoronamentos e desalojados (Tânia Rego/Agência Brasil)
Bairro Três Moinhos, um dos mais afetados pelas fortes chuvas com deslizamentos, desmoronamentos e desalojados (Tânia Rego/Agência Brasil)

Pelo menos 129 mil pessoas vivem em áreas de risco em Juiz de Fora, na Zona da Mata. São casas, principalmente, à beira de encostas, sejam barracos, residências de classe média ou mesmo mansões. O número, levantado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), tende a aumentar após a catástrofe. É o que apontam especialistas da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal da cidade (UFJF). Até o momento, a tragédia já provocou mais de 60 mortes e deixa 5,8 mil pessoas fora de casa, entre desabrigadas e desalojadas. 

Para a engenheira geotécnica e professora da UFJF Tatiana Tavares Rodriguez, o erro está em tratar as áreas de risco como dados imutáveis. Ela defende que a prefeitura e os órgãos de controle adotem mapeamentos dinâmicos, que acompanhem as mudanças no solo e as novas intervenções feitas pela população.

“Áreas de risco podem ser agravadas após esses eventos. Por isso, sempre é bom reforçar que os mapeamentos não são fixos, são dinâmicos, têm que ser revistos constantemente. Temos ações preventivas que são feitas antes que os eventos aconteçam. Os mapeamentos não são instrumentos que a gente define uma vez e aquilo fica para sempre. São instrumentos que precisam ser melhorados com uma periodicidade constante”, pontua.

De acordo com Tatiana, a interferência direta dos moradores - como cortes inadequados em encostas e a criação de aterros sem critérios técnicos - reduz drasticamente o “fator de segurança” dos terrenos. Isso significa que encostas que antes eram consideradas estáveis podem se tornar perigosas após uma obra mal executada ou um período de chuva prolongado que altera a resistência interna do solo.

“Por isso, é importante que toda obra feita no terreno seja feita com acompanhamento técnico, com projetos de engenharia, que vão considerar todos esses fatores complexos em análises”, afirma. 

Frear crescimento desordenado

A solução para frear o crescimento das áreas de risco em Juiz de Fora passa por uma reestruturação da administração pública. O professor e doutor em geotecnia Márcio Marangon ressalta que o município agora lida com uma demanda de pontos vulneráveis que exigem investimento pesado em engenharia.

“Trata-se também de problema social, econômico, entre outros, mas o problema passa fundamentalmente pelo investimento em engenharia. (...) O município tem suas características, e a gestão pública destas áreas de risco tem que ser trabalhada fortemente na área de projetos e obras de engenharia”, destacou. 

Para o futuro, a orientação é que as ações não sejam apenas reativas, mas sim de prevenção. Tatiana Tavares reforça que o planejamento precisa ser multidisciplinar, envolvendo hidrologia, assistência social e parcerias entre instituições públicas e privadas. 
O objetivo é que a cidade não apenas recupere o que foi perdido, mas se reorganize para suportar novas alterações climáticas. “A cidade pode voltar a ser o que era antes, até melhor. Com mais cuidado, mais segurança, mas depende dessa organização como um todo”, conclui a engenheira.

‘Chamado da natureza’, diz prefeita de Juiz de Fora

Nesse momento, as atenções em Juiz de Fora no amparo às famílias atingidas e no restabelecimento dos serviços públicos. A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), descreveu a atual crise provocada pelas chuvas na Zona da Mata como um alerta sobre a ocupação urbana da região. A chefe do Executivo municipal afirmou que uma em cada quatro pessoas da cidade mora em área de risco e que é preciso fazer intervenções por toda a cidade para evitar novas tragédias.

“Essa triste tragédia é, de certo modo, um chamado da natureza para que todos nós prestemos atenção. A cidade é – como Petrópolis (RJ), Angra (dos Reis -RJ), e tantas cidades aqui dessa região – construída na serra. As pessoas vão ocupando as encostas e não são só as pessoas pobres, mesmo a população mais afortunada, classe média alta, vive em lugares que são de risco”, disse.

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