Região Oeste

‘Cenário de guerra’: moradores relatam momentos de desespero durante incêndio em fábrica de BH

Moradora que vive ao lado da empresa precisou retirar a mãe, de 91 anos, e outros familiares às pressas; imóvel foi interditado e família terá de deixar a casa

Bernardo Haddad
@_bezao
Publicado em 10/08/2026 às 11:47.Atualizado em 10/08/2026 às 12:06.
 (Valéria Marques/ Hoje em Dia )
(Valéria Marques/ Hoje em Dia )

O barulho intenso, as chamas que superavam a altura das casas e o risco de explosão provocaram pânico entre moradores do entorno da fábrica da Suggar, no bairro Olhos D’Água, na região Oeste de Belo Horizonte. O incêndio, registrado na madrugada da última sexta-feira (7), fez com que famílias deixassem os imóveis às pressas. Três dias após o incidente, vizinhos do complexo industrial ainda convivem com o cheiro residual de fumaça e com os prejuízos causados pelo calor extremo.

“Eu só tinha visto isso em cenário de guerra”, conta a assistente administrativa Elisângela Silva Braça, de 47 anos, que mora há mais de três décadas na rua Professor Otílio Macedo, ao lado da fábrica. O imóvel onde ela vive com a família foi atingido pelo calor e pelas chamas e, por orientação da Defesa Civil, terá de ficar vazio até que sejam feitas novas intervenções no local.

Elisângela estava em casa com a mãe, de 91 anos, que tem Alzheimer e dificuldade de locomoção, quando foi avisada por um vizinho de que a fábrica estava pegando fogo. Ela conta que, ao abrir a porta da sala, já viu as chamas próximas à residência.

“Eu fui ao quarto, minha mãe estava dormindo com a minha irmã. Eu falei: ‘Maria, esse lugar está pegando fogo, vamos sair correndo’. Só que minha irmã não assimilou. Ela sentou na cama e eu falei: ‘Não é hora de você passar mal’. Aí ela pegou a minha mãe e saiu correndo”, relata.

A retirada dos familiares foi feita com ajuda dos vizinhos. Entre as pessoas que precisaram deixar o imóvel estava uma jovem de 23 anos com síndrome de Down. Segundo Elisângela, ela não queria sair de casa e precisou ser retirada à força. Um rapaz que estava na rua entrou no imóvel e a carregou no colo.

“Depois entrou meu irmão, meu sobrinho e um colega do meu sobrinho para tirar os botijões, porque estava com risco de explosão”, conta.

Elisângela ainda não sabe quando poderá retornar ao imóvel onde vive há mais de 30 anos. A liberação depende de novas vistorias e das condições da estrutura da fábrica, que ainda apresenta pontos de calor.

A perícia da Polícia Civil também ainda não pôde ser realizada, segundo a moradora, porque o local permanece quente. A definição sobre como será feita a retirada das estruturas danificadas também depende de avaliações dos órgãos responsáveis.

“Eu já gostaria que derrubasse e eu já voltasse para casa. Se derrubar o muro, não tem nem perigo. Mas eles precisam fazer as vistorias, investigar”, afirma.

‘A chama estava muito mais alta que a casa’, conta moradora

Imóveis localizados na rua Jerônimo Marcucci, no mesmo quarteirão da fábrica, também foram afetados pelos impactos do incêndio. Famílias precisaram sair de casa com urgência devido aos riscos. A massoterapeuta Marluce Soraia, de 44 anos, acordou com o barulho das chamas. Ela conta que, inicialmente, não conseguiu identificar o que estava acontecendo.

“Eu acordei era meia-noite e pouco. Liguei para os bombeiro às 0h46. Eu devo ter acordado umas 0h40, com barulho de estalando mesmo, parecendo um barulho de metal arrastando no chão. Quando olhei pela janela eu vi que a chama estava muito mais alta que a casa. Aí acordei meus filhos para a gente poder sair correndo”, afirma.

O medo aumentou porque havia veículos no pátio da empresa. A dona de casa Hélia Fátima, de 51 anos, conta que temia que o fogo atingisse caminhões e provocasse uma explosão. Segundo ela, os bombeiros conseguiram retirar alguns veículos, mas outros acabaram queimados.

Ao todo, 11 pessoas vivem nos três imóveis da mesma propriedade onde Hélia e Soraya moram. Todos conseguiram sair durante o incêndio e ninguém ficou ferido.

O que diz a Suggar

Em nota, a Suggar Eletrodomésticos informou que realizou o cadastro das pessoas afetadas e mantém contato direto com os moradores do entorno da unidade para prestar o suporte necessário. 

“Nos próximos dias, também serão disponibilizados atendimentos médico e psicológico aos moradores que necessitarem desse suporte. A Suggar aguarda a conclusão do trabalho da Defesa Civil para os próximos passos”, escreveu a empresa.

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