1 mês após chuvas

Dia e noite em colchão na garagem: morador de JF vive entre escombros de casa atingida por lama

Vítimas da tragédia das chuvas na cidade da Zona da Mata reclamam abandono

Do HOJE EM DIA*
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Publicado em 21/03/2026 às 10:07.
Gilvan Leal Luzia, 55 anos, no colchão em que está dormindo em sua casa no bairro Três Moinhos, uma das regiões mais afetadas pelas chuvas (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Gilvan Leal Luzia, 55 anos, no colchão em que está dormindo em sua casa no bairro Três Moinhos, uma das regiões mais afetadas pelas chuvas (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Na comunidade Três Moinhos, em Juiz de Fora, Zona da Mata, o morador Gilvan Leal Luzia, de 55 anos, passa dia e noite em um colchão posicionado no que restou da garagem. De um lado, a casa destruída pela lama. Do outro, parte do carro soterrada. Para se abrigar da chuva, um teto improvisado com colchonete, pedaços de telha e outros destroços.

Há um mês, na noite de 23 de fevereiro, ele escapou por pouco de ser um dos mortos das enchentes e deslizamentos de terra que atingiram a região. No total, 73 pessoas perderam a vida em Juiz de Fora e Ubá.

“Eu ia entrar aqui para pegar uns documentos, aí a minha irmã falou para eu não fazer isso. Na hora que eu pensei em entrar, desmoronou tudo”, lembra Gilvan.

A residência ficou inabitável. Gilvan passou a dormir do lado de fora, mesmo com a previsão de novas chuvas. “Se tiver de morrer, eu vou morrer. Eu nasci e fui criado aqui. Tem lugar para eu ir?”, questiona.

Tragédia agrava situação de saúde já delicada

Nascido e criado na região, ele afirma nunca ter presenciado algo semelhante. A tragédia agravou uma situação de saúde já delicada. Gilvan sofreu um infarto recentemente e diz que não pode realizar esforço físico, mas depende de trabalhos informais para sobreviver.

“Não posso pegar peso, mas, mesmo assim, estou trabalhando para sobreviver. Até agora não tive ajuda nenhuma. Eu não quero dinheiro. Só quero uma solução para morar”, diz Gilvan.

Sem definição sobre a liberação da área ou planos de reassentamento, o morador tenta planejar sozinho a reconstrução, mesmo com recursos limitados.

“Vou limpar tudo e fazer um quarto, um banheiro e uma cozinha para mim”, diz.

Como reconstruir a rotina em meio ao isolamento?

A feirante Kasciany Pozzi Bispo, de 36 anos, ainda tenta entender como reconstruir a rotina em meio ao isolamento, à falta de renda e às incertezas sobre o futuro. Ela depende da venda de cana-de-açúcar para sobreviver, atividade que ficou completamente paralisada nos últimos 30 dias.

“Muita cana jogada fora. É a única renda que a gente tem. Sem acesso para veículos, o transporte da produção se tornou impossível. O caminhão não consegue sair. A gente improvisa, pega carro emprestado e vai ao canavial cortar o que dá para tentar sobreviver”, disse.

'Estamos ilhados em um bairro e ninguém faz nada', reclama moradora

O plano imediato é esperar o barro secar, retirar a Kombi da família, que está presa na lama, e tentar retomar o trabalho em outro lugar. A casa onde vivia foi interditada, assim como a de vizinhos. As crianças também foram afetadas.

“Todos sem ir para a escola. Estão querendo colocar em colégio longe. É complicado”, lamenta Kasciany Bispo.

Enquanto tenta resolver questões burocráticas para ter acesso aos auxílios do governo, ela pede por medidas urgentes na comunidade.

“Podiam, pelo menos, liberar uma máquina para limpar a rua, para o pessoal tirar o que sobrou de dentro de casa. Estamos ilhados em um bairro e ninguém faz nada. Os próprios moradores é que estão limpando a rua. Só pedimos um pouco de dignidade para o pessoal daqui", pede Kasciany.

A Prefeitura de Juiz Fora informou, em nota, que o auxílio calamidade municipal será creditado na próxima segunda-feira (23) nas contas do Cadastro Único (CadÚnico) das famílias afetadas.

Também contabilizou 1.008 moradias completamente destruídas e oito imóveis demolidos. E registrou ter encaminhado famílias desabrigadas, que estavam inicialmente em abrigos temporários, para hotéis da cidade.

Disse ainda que a rede municipal já retomou as atividades em 101 unidades, e cinco escolas permanecem sem retorno às aulas até o momento: EM Adenilde Bispo, EM Clotilde Hargreaves, EM Antônio Faustino, EM Santa Catarina Labouré e EM Murilo Mendes.

* Informações da Agência Brasil

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