'Entrar no rio'

Exposição no Inhotim convida público a 'mergulhar' em ambiente imersivo inspirado no Velho Chico

Instalação é do artista mineiro davi de jesus do nascimento

Ana Luísa Ribeiro*
aribeiro@hojeemdia.com.br
Publicado em 26/04/2026 às 07:00.Atualizado em 26/04/2026 às 11:07.
Instalação Tororó, de davi de jesus do nascimento, transforma a Galeria Nascente em ambiente imersivo inspirado nas profundezas do Rio São Francisco (Ícaro Moreno/Divulgação)
Instalação Tororó, de davi de jesus do nascimento, transforma a Galeria Nascente em ambiente imersivo inspirado nas profundezas do Rio São Francisco (Ícaro Moreno/Divulgação)

BRUMADINHO - Na Galeria Nascente, no Instituto Inhotim, em Brumadinho, a instalação Tororó, do artista mineiro davi de jesus do nascimento - nome é grafado assim mesmo -, transforma o espaço em uma experiência sensorial que mistura escuridão, sons, água e memória. A mostra integra a programação de 20 anos do museu

Logo na entrada, o visitante é convidado a atravessar um portal marcado por carrancas, esculturas típicas da região do Rio São Francisco, e mergulhar em um ambiente que remete às profundezas do curso d´água. Luzes avermelhadas, texturas que lembram raízes e barro, além de uma paisagem sonora contínua, criam a sensação de estar dentro de um “sorvedouro”, ponto mais escuro, denso e misterioso das águas.

“Vocês vão conhecer minha mãe ali dentro”, disse o artista durante a apresentação, ao explicar que a obra é atravessada por memórias pessoais.

Nascido em Pirapora, no Norte de Minas, davi constrói sua produção a partir da relação com o Rio São Francisco. Filho de pescador e descendente de uma família de lavadeiras e artesãos, ele transforma elementos do cotidiano ribeirinho em linguagem artística. Em Tororó, essa conexão ganha contornos íntimos: a instalação dialoga com a morte da mãe, afogada em 2013, e com as imagens que o artista diz acessar em sonhos.

Registros nas Cavernas do Peruaçu

A obra reúne diferentes linguagens: vídeo, instalação e objetos, organizadas de forma contínua, criando um ambiente imersivo. Entre os elementos estão carrancas produzidas por Mestre Expedito, referência da tradição popular, e registros visuais feitos nas Cavernas do Peruaçu, em Minas Gerais.

A proposta, segundo a curadoria, é levar o público a experimentar o rio não apenas como paisagem, mas como força simbólica e espiritual. “Sorvedouro é esse lugar de profundeza do rio”, explicou durante a visita.

Reocupação e transformação de espaços no Inhotim

A exposição também marca uma mudança na forma como o Inhotim expande o acervo. Em vez de construir novos pavilhões, o museu tem apostado na reocupação e transformação de espaços já existentes. A Galeria Nascente, que anteriormente abrigava outro trabalho, foi completamente reformulada para receber a instalação.

“É um trabalho que moveu muitas equipes e transformou completamente esse espaço”, destacou a equipe curatorial, ao mencionar o envolvimento de áreas como infraestrutura, paisagismo, marcenaria e produção.

Com isso, Tororó se consolida como uma das experiências mais imersivas do novo ciclo do Inhotim. Mais do que apresentar uma obra, a instalação propõe um mergulho, físico e emocional, nas águas do São Francisco e na memória de quem vive às suas margens.

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