
Moradores de Belo Horizonte e de cidades da região metropolitana devem manter o alerta à crescente onda de golpes envolvendo o aluguel de caçambas de entulho. A bandidagem tem criado websites, perfis em redes sociais e até números de WhatsApp para se passar por empresas do ramo. Os criminosos exigem pagamentos antecipados dos clientes que, após realizarem a transferência, nunca recebem o serviço.
O prejuízo para quem contrata pode ser imediato. Foi o que ocorreu recentemente com a contadora Fernanda Freitas, síndica de um condomínio na capital. Ao precisar retirar resíduos da poda do jardim do prédio, a contadora buscou pelo serviço no Google e foi atraída pelo preço abaixo do mercado - cerca de R$ 180, enquanto a média cobrada gira entre R$ 300 e R$ 450.
Na pressa e com a necessidade da caçamba para fazer o descarte correto, ela decidiu dar um voto de confiança. “A minha inocência é que todos os sindícios apontavam que eu estava caindo em um golpe, mas na urgência eu não acreditei”, relata Fernanda.
Golpistas exigem pagamento antecipado
Ela conta que o golpista insistiu no pagamento para "emitir a ordem de serviço". O suspeito disse que os motoristas só fariam a entrega da caçamba após o adiantamento de 50% do valor, pois alegavam que eram “orientados a dirigir com o recibo do cliente” para não serem multados.
Após realizar o pagamento para a conta de uma pessoa física - outro indício de golpe -, ela revelou que o contato desapareceu, apagando as mensagens. Como utilizou o dinheiro do condomínio, a síndica precisou cobrir o prejuízo do próprio bolso.
Empresas locais sofrem com sites clonados
Profissionais do ramo de aluguéis de caçamba também sofrem com o golpe. Amanda Antunes, gerente comercial da JM Caçambas, relata que o site da empresa foi clonado entre abril e dezembro de 2025. Segundo ela, muitos clientes foram vítimas do crime.
“Colocaram o número deles (golpistas) em um site idêntico ao meu. Tinham fotos dos meus caminhões e até das placas. Foram mais de 100 clientes lesados. Nossa credibilidade no Google e no Reclame Aqui caiu demais e cheguei a receber ameaças de vítimas que apareciam na nossa porta”, afirma.
O impacto no mercado forçou mudanças operacionais em empresas da capital. Kelly Viana, gerente da Oi Caçambas, explica que a companhia precisou abolir a prática de pagamentos antecipados para tentar reconquistar a confiança do cliente.
"Hoje, o pagamento é feito apenas quando a caçamba chega ao local. Isso nos prejudicou, pois também corremos o risco de levar o equipamento e o cliente não pagar, mas é um risco que tivemos que assumir devido aos golpes", pontua.
O Sindicato das Empresas Locadoras de Equipamentos, Máquinas, Ferramentas e Serviços Afins do Estado de Minas Gerais (Sindileq-MG) informou que está ciente dos casos e orientou aos clientes que procurem empresas associadas à corporação. É possível conferir a relação de empresas registradas no sindicato pelo link.
Como evitar cair no golpe da caçamba?
Para a professora Ana Cecília Rocha Veiga, pesquisadora em cibersegurança da Escola de Ciência da Informação da UFMG, o sucesso desses crimes reside na “engenharia social”, que utiliza o charme e a simpatia dos bandidos para manipular as vítimas.
“O golpista usa a urgência. Ele pressiona você a tomar uma decisão sem pensar, dizendo que o preço só vale para aquele momento. Se alguém te pressiona, é porque não quer que você raciocine”, explica a especialista.
Ana Cecília destaca que o "primeiro instinto" no ambiente digital deve ser a desconfiança. "Se o preço é muito abaixo da concorrência e as vantagens são altas demais, certamente não é verdade".
Veja outras dicas de segurança
- Desconfie de preços baixos: valor muito fora da média de mercado é a principal isca
- Verifique o domínio: golpistas compram endereços de sites muito parecidos com os originais, mudando apenas uma letra.
- Checagem física: se possível, visite a sede da empresa ou peça referências
- Evite Pix para CPFs: empresas de caçamba legítimas geralmente têm contas vinculadas ao CNPJ
- Fuja do imediatismo: não realize pagamentos sob pressão de "perda de reserva"
O que diz a Polícia Civil?
A Polícia Civil orienta que as vítimas desse tipo de estelionato registrem imediatamente o Boletim de Ocorrência (Reds), que pode ser feito de forma presencial ou pela Delegacia Virtual.
A corporação reforçou a importância de salvar prints das conversas, comprovantes de transferência e os números de telefone utilizados pelos criminosos para auxiliar nas investigações.
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