Força feminina

Jequitinhonha: mulheres preservam tradições, impulsionam economia e ajudam na transformação social

Protagonismo feminino ganha força no Serro, São João da Chapada (distrito de Diamantina) e na Vila de Biribiri

Bernardo Haddad*
@_bezao
Publicado em 18/07/2026 às 08:00.Atualizado em 18/07/2026 às 08:46.

A mais de 300 quilômetros de Belo Horizonte, o Vale do Jequitinhonha guarda muito mais do que paisagens históricas e belezas naturais. Em diferentes comunidades da região, mulheres assumem o protagonismo na preservação de tradições, na geração de renda e na transformação social. Em Serro, São João da Chapada (distrito de Diamantina) e na Vila de Biribiri, três histórias mostram como a força feminina se tornou parte da identidade local. 

Embora atuem em áreas distintas, Christiane Brandão, Sônia Leite e Maria da Conceição, a dona Sãozinha, compartilham experiências comuns: transformaram desafios pessoais e coletivos em oportunidades para fortalecer as comunidades.

Do luto ao queijo premiado

Em Serro, Christiane Brandão, de 43 anos, atual proprietária da Fazenda Maria Nunes, nunca imaginou que voltaria para o campo, onde cresceu. Formada em Sistemas de Informação e morando em Belo Horizonte, ela viu a vida mudar completamente após o assassinato do pai. A tragédia fez com que retornasse ao interior para acompanhar o inventário da família, dez anos após deixar a região.

Na divisão das terras entre os irmãos, ficou justamente com o trecho da propriedade que não possuía qualquer estrutura. Não havia estrada, energia elétrica nem construções. O acesso era feito apenas a cavalo.

Ao lado da filha, Jady Brandão, construiu a Fazenda Maria Nunes e iniciou a produção artesanal de queijos. O trabalho atravessou dificuldades financeiras e exigiu que aprendesse, sozinha, a administrar a propriedade rural.

A recompensa veio anos depois. Os queijos produzidos na fazenda conquistaram medalha de ouro no Mondial du Fromage et des Produits Laitiers, realizado em Tours, na França. Christiane afirma que, durante a infância, nunca foi incentivada a seguir o ofício da família por ser mulher.

“Eu não escolhi o queijo, porque não foi me dada essa opção. Meu pai não chegou pra mim e falou assim: ‘ó minha filha, se você quiser a gente faz um queijo aqui que o seu avô fazia, que o seu bisavô fazia’. Isso foi trabalhado com os meus irmãos, mas não com as mulheres. Então, eu não escolhi o queijo, o queijo me escolheu”, conta Christiane. 

Liderança que fortalece comunidade quilombola

Em São João da Chapada, distrito de Diamantina formado majoritariamente por descendentes de quilombolas, Sônia Leite encontrou no trabalho comunitário uma forma de mudar realidades. Ela lidera iniciativas dos projetos Caminhando Juntos (Procaj) e também do Afroplay, que reúne jovens para confeccionar roupas inspiradas na ancestralidade africana. As primeiras peças foram feitas com retalhos, costuradas manualmente, quando sequer havia máquinas de costura disponíveis. 

Hoje, o grupo conta com 15 costureiras, que produzem roupas artesanais utilizando tecidos africanos e tintas naturais feitas a partir de sementes coletadas na própria comunidade. Toda renda obtida é destinada para ajudar famílias em situação de vulnerabilidade da região. 

Mais do que ensinar uma profissão, Sônia acredita que o projeto fortalece a autoestima dos participantes. Segundo ela, muitos jovens encontraram no Afroplay um espaço de acolhimento, convivência e valorização da própria identidade. 

“Gostamos de interpretar como uma ferramenta de empoderamento. Hoje eles têm um domínio deles mesmos, conseguem não ser dependentes da comunidade, de ganhar cesta básica e não sofrer por falta de alimentação”, conta. 

Sabores que mantêm Biribiri viva

Na Vila de Biribiri, a tradição ganha forma na cozinha. Há mais de 40 anos, Maria da Conceição, conhecida por todos como dona Sãozinha, prepara receitas típicas da culinária mineira no restaurante do Adilson, um dos locais mais procurados por quem visita a antiga vila operária. 

Nascida em Biribiri, ela começou a cozinhar para turistas em 1982, pouco depois do encerramento das atividades da fábrica têxtil que deu origem ao povoado. Desde então, acompanhou a transformação da vila em um dos principais destinos turísticos da região.

"Eu vi a fábrica fechando. Foi muito triste para nós. Depois a vila levantou de novo e hoje está firme e forte", recorda. 

Nos períodos de maior movimento, como feriados prolongados, o restaurante chega a servir cerca de 700 pessoas em um único domingo.

Entre os pratos mais procurados estão o tradicional frango ao molho pardo preparado no fogão a lenha e a costelinha de porco com ora-pro-nóbis. Para dona Sãozinha, o diferencial permanece o mesmo desde que começou a cozinhar.

"O segredo é o tempero da roça, o fogão a lenha, que cozinha tudo devagarinho, e muito amor", destaca.

*Repórter viajou a convite do Instituto Mundu

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