Caso Alice

Justiça manda prender um dos garçons acusado de espancar mulher trans na Savassi

Outro funcionário do estabelecimento acusado de envolvimento no crime segue em liberdade

Do HOJE EM DIA
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Publicado em 19/12/2025 às 12:33.Atualizado em 19/12/2025 às 17:24.
Decisão da Justiça determina que garçom acusado pela morte da mulher trans Alice Martins vá a júri popular em Belo Horizonte. Prisão preventiva foi revogada, e réu responderá em liberdade com tornozeleira eletrônica (Reprodução/Redes sociais)
Decisão da Justiça determina que garçom acusado pela morte da mulher trans Alice Martins vá a júri popular em Belo Horizonte. Prisão preventiva foi revogada, e réu responderá em liberdade com tornozeleira eletrônica (Reprodução/Redes sociais)

A Justiça de Minas Gerais mandou prender de forma preventiva o um garçom, de 27 anos, suspeito de espancar a mulher trans Alice Martins, que morreu dias depois. Outro homem, indiciado no processo, segue em liberdade. A decisão foi divulgada nesta sexta-feira (19). 

A juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza, do 1º Tribunal do Júri de Belo Horizonte, negou a alegação da defesa de que a denúncia do Ministério Público se baseava em elementos frágeis e “em provas midiáticas insuficientes”. 

A magistrada considerou que a denúncia preenchia os requisitos previstos no Código de Processo Penal (CPP) e descrevia “suficientemente o fato delituoso, com todas as suas circunstâncias”.

Segundo a juíza, as agressões, motivadas por uma dívida da vítima no valor de R$ 22, teriam resultado em politraumatismo, fraturas de arcos costais e perfuração intestinal, evoluindo para um quadro de sepse generalizada que culminou na morte da vítima dias depois. 

Apesar da decisão, a magistrada afirmou que “é certo que a dinâmica exata dos acontecimentos ainda demanda maior esclarecimento”, mas a liberdade do garçom representava um "risco efetivo à ordem pública". 

“Ainda que subsistam pontos a serem melhores elucidados, o que é próprio da fase instrutória, é inegável que a gravidade concreta da conduta atribuída ao garçom de 27 anos, aliada à sua consequência extrema, culminando no óbito da vítima e gerando intensa comoção social, revela situação na qual a manutenção de sua liberdade representa risco efetivo à ordem pública”, disse a juíza. 

Outro garçom acusado 

Referente ao garçom de 20 anos, também acusado de envolvimento no crime, a magistrada entendeu que a participação dele demanda “mais aprofundamento”. Segundo Ana Carolina Rauen, não há “indício seguro de que ele tenha desferido golpes contra a vítima”. 

“Extrai-se do caderno investigativo que a participação atribuída ao referido corréu limita-se, até o presente momento, à condição de segundo indivíduo presente no local dos fatos, o qual teria, segundo relatos colhidos, zombado da vítima e instigado o colega a prosseguir nas agressões. Não há, contudo, nos autos, indício seguro de que tenha ele exercido violência física direta ou impedido a vítima de se afastar para buscar socorro”, detalhou.

Relembre o caso

As investigações da Polícia Civil apontam que uma suposta dívida de R$ 22 teria servido apenas como estopim para o ataque. Na noite de 23 de outubro, Alice consumiu em uma lanchonete na Savassi e afirmava ter pago a conta. Mesmo que houvesse pendência, segundo a delegada Iara França, os garçons deixariam de receber apenas R$ 2,20, referentes aos 10% de serviço - valor totalmente insuficiente para justificar a violência.

A Polícia Civil concluiu que o que motivou o ataque foi transfobia. Alice foi perseguida por cerca de 200 metros, cercada e agredida de forma contínua, sem que os suspeitos tentassem pegar seus pertences ou cobrassem o suposto valor devido.

A vítima, desorientada e alcoolizada, repetia que havia quitado a conta. Ela sofreu lesões graves, incluindo costelas quebradas e perfuração intestinal, e morreu em 9 de novembro, após dias de internação.

A corporação destacou que não há indícios de participação de donos ou outros funcionários, apenas dos dois garçons envolvidos na abordagem. Eles foram indiciados por feminicídio.

A polícia também pediu que o Ministério Público investigue possível negligência médica, já que Alice buscou atendimento múltiplas vezes antes da internação final e não teve a gravidade reconhecida. Outro ponto em apuração é a comunicação tardia do óbito: a Polícia Civil só foi oficialmente informada no dia 10 de novembro, data do sepultamento.

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