
Minas deu início à elaboração de uma nova lista de espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção. O instrumento vai atualizar quais animais e plantas estão em risco, onde vivem e como devem ser protegidos. O trabalho, apresentado nesta terça-feira (31) em Belo Horizonte, será usado para orientar políticas públicas, direcionar recursos ambientais e impactar diretamente processos como o licenciamento de obras e empreendimentos.
A proposta é do Governo de Minas e busca atualizar um diagnóstico considerado defasado - hoje, parte das listas em vigor tem mais de uma década - e preencher uma lacuna na gestão ambiental. Atualmente, Minas Gerais reúne cerca de 14 mil espécies conhecidas, mas não possui uma base sobre quais estão efetivamente ameaçadas de extinção.
Segundo especialistas envolvidos no projeto, a ausência dessa informação compromete decisões estratégicas e dificulta ações de preservação. A nova lista pretende classificar as espécies em diferentes níveis de ameaça, como criticamente em perigo, em perigo ou vulnerável, a partir de critérios científicos reconhecidos internacionalmente.
“Esse é um importante projeto, um marco para conservação da biodiversidade. Tem como objetivo atualizar o grau de ameaça das espécies de flora e fauna de Minas Gerais”, afirmou Laura Homem, diretora de proteção à fauna do Instituto Estadual de Florestas (IEF).
A elaboração será feita com base na metodologia da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), considerada referência global. O processo inclui análise de dados científicos, validação por especialistas e participação da comunidade acadêmica, além da criação de um banco de dados público com os resultados.
Impacto direto em obras e decisões ambientais
Na prática, a lista deve influenciar diretamente o planejamento ambiental no Estado. O mapeamento permitirá identificar áreas prioritárias para conservação, orientar a destinação de recursos e subsidiar análises de impacto ambiental, o que pode alterar a forma como projetos são aprovados ou adaptados.
“É muito relevante conseguir frear, no nível dos estados, o processo de extinção para evitar perdas em escala global”, explicou o gerente de conservação de fauna aquática do IEF, Leandro Guimarães.
Além disso, o instrumento também deve ampliar o conhecimento sobre espécies pouco estudadas e direcionar pesquisas científicas, especialmente nos casos em que há falta de dados, uma das principais limitações atuais.
Crise de biodiversidade acelera urgência
A iniciativa surge em meio a um cenário global de perda acelerada de biodiversidade. Dados apresentados durante o lançamento indicam que a taxa de extinção atual pode ser de 10 a 100 vezes maior do que a média registrada nos últimos 10 milhões de anos. A estimativa é que até 14% de todas as espécies do planeta estejam em risco.
Grupos como corais, anfíbios e árvores estão entre os mais afetados. Nesse contexto, especialistas defendem que diagnósticos regionais são essenciais para conter o avanço das extinções.
Projeto ligado à reparação de Brumadinho
A elaboração das listas integra ações de compensação socioambiental após o rompimento da barragem em Brumadinho, em 2019. O projeto será financiado com recursos do acordo de reparação firmado em 2021.
Para representantes de atingidos, a iniciativa representa uma forma de garantir proteção à biodiversidade impactada. “Estamos falando de cuidado com a vida. A fauna e a flora também foram atingidas. É importante ver esse recurso sendo usado para proteger”, afirmou a presidente da Associação dos Familiares e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Vale em Brumadinho (Avabrum), Nayara Porto.
Prazo e próximos passos
O projeto terá duração de cerca de 30 meses, com etapas que incluem coleta e análise de dados, consultas públicas, validação científica e publicação dos resultados. Ao final, será divulgado um “Livro Vermelho” com as espécies ameaçadas em Minas, além de um guia prático e um sistema online aberto ao público.
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