Eles são bem menores que os livros tradicionais, têm custo reduzido de produção e podem ser fabricados de maneira quase independente, em um formato artesanal que pouco se vê atualmente.
Você pode até não conhecer as "zines", mas esse formato tem democratizado a publicação de histórias. Diversos autores e autoras de Belo Horizonte têm recorrido a ele para espalhar seus textos no mercado editorial.
Neste sábado (29), em que se celebra o Dia Nacional do Livro, convidamos três autoras para contar suas experiências com esse tipo de publicação.
Entre romances e zines
Uma delas é a escritora Laura Cohen, que já tem quatro romances publicados e, entre um livro e outro, lança suas zines com poesias e ensaios.
Entre eles está o "Escrever é uma Maneira de se Pensar para Fora", que foi escrito em um avião em 2018 e lançado pela Impressões de Minas, mesma editora que publica os romances dela.
"A zine é boa para quando estamos com pressa de lançar algo. Não demanda tanto tempo e preparação como um romance, por exemplo. Também é legal para testar materiais e novos formatos de escrita”, disse.
Laura explica ainda que, diferentemente dos livros tradicionais, a maioria das zines não têm registro ISBN na Biblioteca Nacional, que comprova que determinada obra é única, e podem ser impressas em gráficas e até mesmo em casa.
"Tem um afeto maior na produção das zines e também acho um formato muito divertido. Às vezes penso que gosto mais de publicar estas coisinhas pequenas do que os livros maiores", afirmou.
Laura Cohen, que é fundadora do Estratégias Narrativas, um espaço com cursos e oficinas literárias em BH, também apontou a zine como uma boa solução para o lançamento de novos autores.
"É um formato legal para que quem quiser sentir a experiência da publicação. Por menor que seja o tamanho do texto, publicar pela primeira vez muda a vida de quem escreve. Estamos para lançar uma zine neste ano, juntando os textos de alguns alunos", contou.
Oficinas democráticas
A escritora Lívia Aguiar só no ano passado lançou o seu primeiro livro por uma editora ("Histórias do Tempo do Amém", pela Quintal Edições). Antes disso, porém, ela já havia publicado 13 zines em um período de nove anos.
A mais recente é a "5h55", uma zine toda feita com carimbos criados especialmente por ela com tinta azul, verde e dourada sobre papel especial marrakesh mostarda. A 1ª tiragem foi de 55 exemplares e, segundo a autora, “nenhuma zine é igual à outra”.
Veja o vídeo:
“Uma das características mais legais é poder publicar sem ter que passar por todos os trâmites de uma grande editora ou ter uma grande quantidade de textos que justifique a criação de um livro. Com a zine você pode publicar textos bem menores e com um custo muito mais baixo. É bem democrático", disse.
Outro ponto destacado por ela é a oportunidade que os autores têm de comercializar as zines em feiras, saraus e qualquer ponto da cidade. Um deles é o tradicional edifício Arcângelo Maletta, no Centro de BH, conhecido reduto de autores independentes.
"Porém, isso demanda que a pessoa seja muito ativa, pois ela vai precisar oferecer a zine e até recitar seus poemas, caso esteja em um sarau, por exemplo. Acredito que, para quem é mais tímido, não seja um modelo muito atraente", avaliou Lívia Aguiar.
A experiência da autora é tanta que, agora, ela já ensina outras pessoas a produzirem suas próprias zines. A escritora mineira já realizou oficinas no Rio de Janeiro, em São Paulo, Belo Horizonte e em Portugal.
"A cena das zines é muito propícia para a troca entre autores. Com as oficinas, eu mostro como é fácil fazer, quais as possibilidades e limitações. É preciso democratizar os meios de produção e comercialização da literatura", comentou.
Conversas de WhatsApp
Finalista do Prêmio Jabuti 2022, com o livro "Tríbades, Safistas e Sapatões do Mundo, Uni-vos: Investigações Sobre a Poética das Lesbianidades", a artista visual e escritora Leíner Hoki também já publicou uma zine antes de passar por uma editora.
Batizado de "Quando a Gente Fumarra Cigarro", o livro nasceu de uma conversa em um grupo de WhatsApp. Leíner cuidou de todo o processo da publicação – incluindo ilustrações, impressão, dobras e costura.
"Eu imprimi em uma gráfica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Primeiro testei em um papel normal, para ver se estava certo, e depois imprimi a versão final em um papel amarelinho, que eu tinha comprado em uma loja especializada", contou.
Segundo ela, trata-se de um formato de “pura liberdade”.
“Eu amo zine, porque ela pode ser tudo! É mais baratinho de imprimir e isso dá possibilidades de alcance ao texto. Você fica livre para testar mais e mais. Eu gosto muito disso, abre o leque de possibilidades", garantiu.
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