
Começou nesta segunda-feira (23) a audiência de instrução e julgamento que apura as responsabilidades pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH. O início da sessão, na sede da Justiça Federal, na capital mineira, ficou marcado pelo forte desabafo de Kenya Paiva Silva Lamounier, primeira testemunha de acusação ouvida no caso, que perdeu o marido Adriano Aguiar Lamounier na tragédia.
“Meu marido foi minerado. Grande parte das pessoas foi minerada, como a Vale faz nas minas. Foi um crime horrendo. Nos primeiros dias eu tinha certeza que meu marido estava vivo. Depois, começamos a rezar para conseguir pelo menos um velório”, disse.
Kenya revelou que o marido nunca comentou com ela sobre um possível rompimento da barragem. No entanto, a testemunha mencionou que Adriano teria dito a um colega que estava preocupado com os riscos da barragem, após passar por um treinamento para situações de risco na empresa.
“Ele nunca trouxe isso para a casa. Depois do que aconteceu em Mariana e eu perguntei para ele sobre os riscos. Ele disse que ‘a Vale nunca deixaria isso acontecer’”, conta.
A testemunha contou ainda sobre o dia da tragédia e como descobriu que o marido, que era eletrotécnico e trabalhava há cerca de 16 anos na Vale, foi uma das vítimas. Kenya relata que estava almoçando com o filho, quando começou a receber vídeos do rompimento da barragem e o marido parou de atender o telefone.
“Eu fiquei sem sair de casa. Fiquei muito preocupada com os meus filhos, fiquei na frente da televisão mais de 15 dias. (…) Agora, qualquer coisa para a nossa família é gatilho. Se vamos viajar, não podemos falar de onde somos porque as pessoas iriam perguntar sobre o ocorrido”, desabafou.
Kenya foi a primeira testemunha ouvida no processo, que deve percorrer por mais 75 sessões, até maio de 2027. A previsão é que mais duas testemunhas de acusação sejam ouvidas ainda nesta segunda-feira (23).
O que dizem as empresas?
Entre os acusados estão as empresas Vale S.A. e TÜV SÜD, além de 15 ex-executivos e funcionários vinculados às companhias, que respondem por crimes ambientais e homicídios.
Por meio de nota, a TÜV SÜD prestou solidariedade às vítimas e famílias e disse estar “convencida” de que a empresa não possui responsabilidade legal “pelo acidente”. Segundo eles, “a causa técnica do acidente permanece incerta”. Ainda informaram que, conforme avaliação própria, a emissão das declarações de estabilidade pela TÜV SÜD Bureau cumpriu as leis e regulamentos.
Já a Vale, também em nota, reafirmou o respeito às vítimas, familiares e comunidades atingidas e reiterou o compromisso com a reparação integral dos danos. A empresa informou não comentar ações judiciais em andamento.