'UM CRIME HORRENDO'

‘Meu marido foi minerado’, diz primeira testemunha do julgamento da tragédia em Brumadinho

Sessões começam a partir desta segunda-feira (23) e vão até maio de 2027

Bernardo Haddad
@_bezao
Publicado em 23/02/2026 às 14:38.Atualizado em 23/02/2026 às 15:06.
 (Maurício Vieira)
(Maurício Vieira)

Começou nesta segunda-feira (23) a audiência de instrução e julgamento que apura as responsabilidades pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH. O início da sessão, na sede da Justiça Federal, na capital mineira, ficou marcado pelo forte desabafo de Kenya Paiva Silva Lamounier, primeira testemunha de acusação ouvida no caso, que perdeu o marido Adriano Aguiar Lamounier na tragédia. 

“Meu marido foi minerado. Grande parte das pessoas foi minerada, como a Vale faz nas minas. Foi um crime horrendo. Nos primeiros dias eu tinha certeza que meu marido estava vivo. Depois, começamos a rezar para conseguir pelo menos um velório”, disse. 

Kenya revelou que o marido nunca comentou com ela sobre um  possível rompimento da barragem. No entanto, a testemunha mencionou que Adriano teria dito a um colega que estava preocupado com os riscos da barragem, após passar por um treinamento para situações de risco na empresa.

“Ele nunca trouxe isso para a casa. Depois do que aconteceu em Mariana e eu perguntei para ele sobre os riscos. Ele disse que ‘a Vale nunca deixaria isso acontecer’”, conta. 

A testemunha contou ainda sobre o dia da tragédia e como descobriu que o marido, que era eletrotécnico e trabalhava há cerca de 16 anos na Vale, foi uma das vítimas. Kenya relata que estava almoçando com o filho, quando começou a receber vídeos do rompimento da barragem e o marido parou de atender o telefone. 

“Eu fiquei sem sair de casa. Fiquei muito preocupada com os meus filhos, fiquei na frente da televisão mais de 15 dias. (…) Agora, qualquer coisa para a nossa família é gatilho. Se vamos viajar, não podemos falar de onde somos porque as pessoas iriam perguntar sobre o ocorrido”, desabafou. 

Kenya foi a primeira testemunha ouvida no processo, que deve percorrer por mais 75 sessões, até maio de 2027. A previsão é que mais duas testemunhas de acusação sejam ouvidas ainda nesta segunda-feira (23).

O que dizem as empresas? 

Entre os acusados estão as empresas Vale S.A. e TÜV SÜD, além de 15 ex-executivos e funcionários vinculados às companhias, que respondem por crimes ambientais e homicídios.

Por meio de nota, a TÜV SÜD prestou solidariedade às vítimas e famílias e disse estar “convencida” de que a empresa não possui responsabilidade legal “pelo acidente”. Segundo eles, “a causa técnica do acidente permanece incerta”. Ainda informaram que, conforme avaliação própria, a emissão das declarações de estabilidade pela TÜV SÜD Bureau cumpriu as leis e regulamentos.

Já a Vale, também em nota, reafirmou o respeito às vítimas, familiares e comunidades atingidas e reiterou o compromisso com a reparação integral dos danos. A empresa informou não comentar ações judiciais em andamento.

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por