Microplásticos contaminam peixes do Rio das Velhas há quase 30 anos, revela pesquisa da Ufla
Estudo analisou 287 peixes coletados desde 1999 e identificou partículas plásticas até em áreas consideradas preservadas, como o Rio Cipó

Peixes da bacia do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Rio São Francisco, acumulam microplásticos há pelo menos 27 anos, segundo uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Lavras (Ufla). O estudo analisou 287 peixes coletados desde 1999 e identificou que cerca de 70% a 80% dos exemplares avaliados haviam ingerido partículas plásticas microscópicas ao longo desse período.
A pesquisa foi conduzida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da universidade e utilizou uma base considerada rara pelos pesquisadores: peixes preservados em coleções científicas ao longo de quase três décadas. O objetivo era entender se a contaminação por microplásticos havia aumentado, diminuído ou permanecido estável nos rios mineiros.
Professor do Departamento de Ecologia e Conservação da Ufla e orientador do estudo, Paulo dos Santos Pompeu afirma que os pesquisadores já observavam melhorias na fauna aquática após o avanço do tratamento de esgoto em Belo Horizonte, mas queriam compreender como os microplásticos estavam impactando o ecossistema.
“Hoje temos muito mais peixes perto de Belo Horizonte do que existia em 99, 2000, quando Belo Horizonte ainda não tratava os esgotos domésticos”, afirma.
Segundo ele, o problema dos microplásticos vai além do esgoto doméstico. O material chega aos rios principalmente por meio do descarte inadequado de lixo e da degradação de resíduos plásticos maiores, como sacolas, embalagens e garrafas PET.
Os microplásticos são partículas plásticas menores que cinco milímetros. Parte delas surge a partir da fragmentação de resíduos maiores, mas algumas já são produzidas em tamanho microscópico, como partículas usadas em cosméticos e produtos esfoliantes.
O estudo avaliou três espécies de lambaris distribuídas ao longo da bacia do Rio das Velhas. Os peixes passaram por um processo de dissecação e análise laboratorial, incluindo microscopia Raman, técnica utilizada para confirmar se as partículas encontradas eram realmente plástico.
‘Fotografia do passado’
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da Ufla e autora da pesquisa, Marina Ferreira Moreira afirma que trabalhar com peixes coletados desde 1999 foi como acessar um registro histórico da contaminação ambiental.
“Esses resultados são como ver uma fotografia do passado mesmo e perceber que, antes da gente saber que era um problema, ele já estava aí contaminando muitos peixes”, afirma.
Ela conta que o trabalho exigiu meses de análises minuciosas em laboratório, já que ainda não existe um protocolo totalmente consolidado para pesquisas envolvendo microplásticos. Segundo Marina, uma das descobertas mais impactantes foi a quantidade de peixes contaminados. “O que me chamou muita atenção foi encontrar cerca de 70% a 80% dos peixes com ingestão de microplásticos desde 1999”, diz.
Impactos e próximos passos
Embora os efeitos dos microplásticos sobre os seres humanos ainda sejam estudados, os pesquisadores alertam para os impactos ambientais já observados nos peixes e nos ecossistemas aquáticos.
Segundo Pompeu, além de funcionar como indicador de poluição ambiental, o microplástico pode transportar outros contaminantes e provocar inflamações nos organismos aquáticos. O professor ressalta ainda que os rios funcionam de forma conectada e que a poluição pode alcançar o oceano por meio das bacias hidrográficas.
Agora, a equipe pretende avançar na investigação para entender de onde vêm os microplásticos encontrados nos peixes e como essas partículas circulam entre água, sedimentos e organismos aquáticos.
Leia também:



