Anuário de Segurança Pública

Minas é o segundo estado com mais feminicídios no Brasil, aponta levantamento

Estado ficou atrás apenas de São Paulo em 2025; três crimes contra mulheres vieram à tona em Belo Horizonte em cerca de 24 horas nesta semana

Ana Luísa Ribeiro
aribeiro@hojeemdia.com.br
Publicado em 23/07/2026 às 12:07.Atualizado em 23/07/2026 às 19:16.
Minas registrou 177 vítimas de feminicídio em 2025, o segundo maior número absoluto do Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Arquivo Agência Brasil)
Minas registrou 177 vítimas de feminicídio em 2025, o segundo maior número absoluto do Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Arquivo Agência Brasil)

Minas Gerais registrou 177 feminicídios em 2025, o segundo maior número absoluto do Brasil, atrás apenas de São Paulo, que contabilizou 270 mortes. Os dados constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado nesta quinta-feira (23), e revelam que os assassinatos de mulheres por razões de gênero avançaram no estado mesmo diante da redução geral dos homicídios femininos.

O número de feminicídios em solo mineiro subiu de 169, em 2024, para 177 no ano seguinte, com oito vítimas a mais. A taxa ficou em 1,6 morte para cada 100 mil mulheres nos dois anos, valor superior à média nacional de 1,4. Em números totais, Minas aparece à frente de unidades da Federação como Rio de Janeiro (105) e Bahia (102).

Veja ranking de feminicídio por estado:

  1. São Paulo - 270
  2. Minas Gerais - 177
  3. Rio de Janeiro - 105
  4. Bahia - 102
  5. Pernambuco 88

Violência de gênero 

O avanço da violência de gênero ocorreu na contramão dos homicídios de mulheres em geral. Somando todas as causas, Minas reduziu de 350 mortes femininas em 2024 para 306 em 2025, uma queda de 12,9%. No entanto, os feminicídios ganharam mais peso no total de assassinatos: em 2024, representavam 48,3% dos casos; em 2025, passaram a responder por 57,8% — quase seis em cada dez vítimas.

Três crimes na capital em 24 horas

A divulgação do estudo vai de encontro com a escalada de violência contra a mulher no estado este ano. De janeiro a maio, Minas registrou 148 feminicídios consumados ou tentados - são sete vítimas por semana, ou uma a cada 24 horas -, segundo levantamento da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

Para se ter ideia, em cerca de 24 horas, três casos graves vitimaram mulheres em Belo Horizonte no âmbito de violência doméstica. Na região Nordeste, no bairro Palmares, um sargento da Polícia Militar, de 37 anos, foi preso em flagrante na última segunda-feira (20), suspeito de matar a esposa, uma capitã da corporação, de 42 anos. O militar levou a vítima sem vida a um hospital alegando queda de escada, mas perícias apontaram lesão grave no rosto. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva na quarta-feira (22).

Na manhã de terça-feira (21), no bairro Jonas Veiga, Região Leste, um homem foi preso suspeito de arremessar a companheira do terceiro andar de um imóvel. A mulher caiu no segundo pavimento, sofreu escoriações e recebeu atendimento médico. O suspeito foi detido por testemunhas até a chegada da Polícia Militar e autuado em flagrante por tentativa de feminicídio.

Também na terça-feira, um jovem de 24 anos confessou ter assassinado a namorada, de 36 anos, no bairro Camargos, Região Oeste. A vítima estava sem contato presencial com a família desde a semana anterior, enquanto o suspeito respondia mensagens pelo celular dela. Vizinhos estranharam a mudança na escrita e, ao verificarem o imóvel devido ao forte odor, avistaram a vítima. O autor foi preso após prestar depoimento.

A reportagem procurou o governo de Minas para comentar os números da pesquisa e aguarda retorno.

Tendência nacional de alta

Em âmbito nacional, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, a maior marca da série histórica do Anuário, superando os 1.504 registros de 2024. Enquanto os homicídios femininos totais caíram 5,5% no país (de 3.728 para 3.539), a proporção de feminicídios subiu de 40,3% para 44,4%.

O levantamento revela que 65,1% das vítimas no Brasil eram negras e 56,5% tinham entre 25 e 44 anos. Nos casos com autoria identificada, 79,8% dos crimes foram praticados por companheiros (60,9%) ou ex-companheiros (18,9%), enquanto familiares responderam por 12,1%. Além disso, 62,5% dos assassinatos ocorreram dentro da residência da vítima ou do agressor.

O Anuário define o feminicídio como o assassinato motivado pela condição do sexo feminino, envolvendo violência doméstica, familiar, menosprezo ou discriminação. O crime possui tipificação penal autônoma, com pena prevista de 20 a 40 anos de reclusão.

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