
As buscas por vítimas das chuvas em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, estão encerradas. O corpo do último desaparecido, o menino Pietro, de 9 anos, foi localizado na noite de sábado (28), no bairro Paineiras. O número de mortos em decorrência das chuvas na região chegou a 72 - 65 de Juiz de Fora e sete de Ubá. Uma pessoa segue desaparecida em Ubá, onde as buscas serão intensificadas.
No bairro Paineiras, área de classe média com casarões antigos e prédios residenciais, moradores seguem fora de casa após o deslizamento de terra que atingiu imóveis na noite de segunda-feira (24). A Defesa Civil orientou a retirada das famílias diante do risco de novos desmoronamentos, especialmente pela instabilidade na encosta do Morro do Cristo.
"Parecia um rio, de cor assim, amarronzada", conta morador
No entanto, muitas pessoas seguem com medo, mas agora de saques, já que precisaram sair de casa. O engenheiro civil Guilherme Belini Golver, atualmente desempregado, mora em um casarão na rua atingida, onde vive com os pais. Ele não estava em casa no momento do deslizamento, mas percebeu a gravidade da situação ainda durante o temporal.
“Quando eu saí, já havia muita água, parecia um rio, de cor assim, amarronzada. Tava igualzinho um rio”, relatou. Guilherme saiu por volta das 22h10 para buscar a filha na faculdade. Cerca de 20 minutos depois, recebeu a ligação de um vizinho. “Quando ele chegou aqui fora, já estava essa tragédia toda. A terra invadindo a casa, dentro do portão, da garagem.”
Desde então, a família não pôde permanecer no imóvel. “A Defesa Civil pediu para a gente sair porque não se sabe a gravidade, né? Não sabe se pode vir mais alguma coisa lá do Morro do Cristo”.
Ele tem retornado apenas para tentar limpar a lama e vigiar o imóvel, que ficou vulnerável após o impacto da terra. “Limpar, tentar acabar com esse lamaçal. E também ficar de olho na casa, que ficou vulnerável. Ficou aberta, a gente perdeu a tranca.”
O engenheiro lembra que, há cerca de 40 anos, pequenas pedras deslizaram da encosta, o que levou à instalação de contenções. “Mas isso há 40 anos, não foram pedras grandes. Foram pequenas". Apesar da experiência passada, ele admite o receio de novos episódios. “A cabeça da gente fica meio preocupada, aquele medo de acontecer de novo”.
Na mesma rua, um policial penal que morava ali há cerca de quatro meses, morreu durante o deslizamento. A poucos metros do casarão de Guilherme, três prédios residenciais alugados por uma mesma família também foram atingidos. Em um dos apartamentos mora o motoboy Paulo Barbosa Siqueira, de 25 anos. Ele estava fora quando o desabamento ocorreu, por volta das 22h50.
“No momento eu tinha ido buscar minha irmã no serviço por causa da chuva. Quando curvei aqui para entrar no prédio, já tinha caído tudo”, conta Barbosa.
Moradores improvisam rota de fuga para escapar
Segundo ele, moradores precisaram improvisar uma rota de fuga entre apartamentos para escapar. “Teve gente que pulou de dois apartamentos para poder ir para o outro. Aí a gente fez o caminho. Isso, salvamos todo mundo. Ninguém veio ajudar a gente. Eu e um policial militar que fizemos o caminho para salvar todos”.
Um vizinho, que trabalhava como policial penal, morreu no episódio. “A gente perdeu um policial do nosso prédio.”, lamenta Paulo. Desde então, os moradores aguardam autorização para entrar nos imóveis e retirar documentos e pertences. O acesso permanece interditado por risco estrutural.
“A gente quer pegar o básico, documento, roupa. A gente está sem nada, de favor na casa dos outros. A gente está usando roupa dos outros. Sem nada para comer.”
Paulo afirma que, até o momento, não houve um posicionamento formal sobre a situação dos prédios. “Até agora a Defesa não deu um parecer para a gente, nem bombeiro.”
Ele relata dificuldades para se alimentar e dormir desde a tragédia. “Desde o dia do acontecimento, eu não como, não consigo comer. Nem dormindo direito a gente está.”
Moradores também denunciam saques durante a madrugada nos imóveis interditados. “Porque de madrugada, quando o pessoal para de trabalhar, estão vindo roubar, saquear nosso prédio".
Os deslizamentos no Paineiras atingiram dois pontos distintos, em ruas próximas. Em uma delas, onde ficam casarões e prédios de classe média, ocorreram danos estruturais e uma morte. Na rua seguinte, equipes de resgate atuaram intensamente após registros de vítimas e desaparecimento, incluindo o caso do menino encontrado no sábado.
O que diz a Polícia Militar
Neste domingo, o coronel Lúcio Ferreira da Silva Neto, comandante da 4ª Região de Polícia Militar, informou que o patrulhamento tem sido feito. "Agora é prevenir furtos e saques, conseguimos fazer esse controle. Todo o fluxo que estava empregado nos perimetros de segurança agora está se voltando para o patrulhamento ostensivo do dia a dia". Segundo ele, na comparação com dados gerais de furto do ano passado, houve redução de casos.
* Informações da Agência Brasil
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