Morre Zuenir Ventura, mestre do jornalismo brasileiro, aos 95 anos
Mineiro, escritor e imortal da ABL morreu nesta terça-feira (22), vítima de pneumonia; autor de ‘1968 – O Ano que Não Terminou’ deixa uma trajetória de sete décadas dedicada à reportagem

Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, um dos grandes nomes da imprensa brasileira. Mineiro de Além Paraíba, na Zona da Mata, ele construiu uma carreira de cerca de sete décadas marcada por grandes reportagens, livros que se tornaram referências para compreender o país e pela defesa dos direitos humanos. Segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro desde 2015, a causa da morte foi uma pneumonia.
O corpo de Zuenir será velado nesta quarta-feira (23), na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Depois, será enterrado no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista.
Repórter, editor, escritor, cronista e professor, Zuenir atravessou diferentes períodos da história brasileira registrando transformações políticas, culturais e sociais. Passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil, além de ter sido colunista de O Globo. Também foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Escola Superior de Desenho Industrial, posteriormente incorporada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
A trajetória começou longe do prestígio que alcançaria décadas depois. Antes do jornalismo, Zuenir trabalhou com o pai, que era pintor de paredes, e foi contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Enquanto cursava Letras Neolatinas, conseguiu emprego como arquivista noturno na Tribuna da Imprensa. Foi dali que, em 1956, chegou à redação e iniciou uma carreira que o transformaria em referência para diferentes gerações de jornalistas.
‘1968 – O Ano que Não Terminou’
Entre as obras de Zuenir, nenhuma se tornou tão conhecida quanto “1968 – O Ano que Não Terminou”, lançada em 1988. O livro recuperou acontecimentos e personagens de um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil e se consolidou como uma de suas obras fundamentais.
Segundo a ABL, o título chegou a 48 edições e ultrapassou 400 mil exemplares vendidos. A obra também serviu de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.
Décadas depois, Zuenir retornaria àquele período em “1968 – O que fizemos de nós”, no qual buscou compreender o que havia permanecido das transformações políticas, culturais e comportamentais daquele ano.
Mas sua produção foi muito além de 1968. Em 1993, passou cerca de dez meses frequentando a favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro. A experiência resultou em “Cidade Partida”, publicado no ano seguinte, livro-reportagem dedicado à violência e às desigualdades da cidade. A obra recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem e foi traduzida para o italiano.
Chico Mendes e o jornalismo premiado
Outra página fundamental da carreira de Zuenir foi escrita na Amazônia. Em 1989, ele publicou no Jornal do Brasil a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, sobre o assassinato do líder seringueiro ocorrido no ano anterior.
O trabalho rendeu a Zuenir os prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog. A investigação seria posteriormente transformada em livro. Anos depois, em 2003, ele lançou “Chico Mendes – Crime e Castigo”, retomando a história do ambientalista e as consequências do crime.
Ao longo da carreira, Zuenir também acompanhou e relatou episódios como a morte do jornalista Vladimir Herzog, durante a ditadura militar, e o atentado do Riocentro, além de ter feito a cobertura da Revolução dos Cravos, em Portugal.
Entre seus outros livros estão “Inveja – Mal Secreto”, “Minhas Histórias dos Outros”, “Crônicas de um Fim de Século”, “O Rio de J. Carlos”, “70/80 – Cultura em Trânsito: da Repressão à Abertura”, escrito com Heloisa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari, “Conversa sobre o Tempo”, com Luis Fernando Verissimo, e o romance “Sagrada Família”.
Reconhecimento pela defesa dos direitos humanos
A atuação jornalística também rendeu a Zuenir reconhecimento pela defesa dos direitos humanos. Em 2008, ele recebeu um troféu especial concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), após ser escolhido como um dos cinco jornalistas que mais se destacaram, nas três décadas anteriores, pela defesa dos direitos humanos na mídia brasileira. Em 2010, foi escolhido “Jornalista do Ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Zuenir também deixou sua marca no jornalismo cultural. No Jornal do Brasil, foi chamado, em 1985, para reformular a revista Domingo. Sua trajetória nesse campo foi lembrada pela ABL em 2026, durante a exibição do documentário “Mestre Zu”, dirigido por Zelito Viana, que recuperou episódios de sua vida e carreira.
De Minas para a Academia Brasileira de Letras
Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. Ainda menino, mudou-se com a família para Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. A origem simples acompanhou os relatos que ele próprio faria sobre sua trajetória: cresceu em uma casa sem livros ou jornais e começou a trabalhar ainda criança.
Em 30 de outubro de 2014, foi eleito para a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão do escritor Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015 e foi recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.
A cadeira coroou uma trajetória iniciada quase seis décadas antes nos arquivos de uma redação e construída entre reportagens, livros e personagens que ajudaram Zuenir a contar algumas das principais transformações do Brasil contemporâneo.
Ele deixa a mulher, Mary Ventura, com quem viveu por décadas, os filhos Elisa e Mauro e netos.
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