
Pessoas que andam de moto morrem quase três vezes mais que pedestres no trânsito de Belo Horizonte. No primeiro semestre deste ano, 37 motociclistas e garupas perderam a vida em acidentes na capital, contra 13 óbitos de quem estava a pé. Os dados da BHTrans reforçam os perigos enfrentados pelos ocupantes dos veículos de duas rodas, além de alertar para atitudes que potencializam os riscos, como pressa para garantir a entrega do app, uso do celular e má formação dos condutores.
A proporção maior também aparece no Hospital de Pronto-Socorro (HPS) João XXIII, referência em urgência e emergência para acidentes de trânsito. Até a segunda quinzena de agosto, o complexo registrou 4.331 atendimentos a motociclistas, contra 791 de pedestres. O número de socorros envolvendo pilotos é mais de cinco vezes maior.
Em julho deste ano, uma mulher de 58 anos morreu após ser atropelada por um ônibus na avenida Doutor Cristiano Guimarães, no bairro Planalto, região Norte de Belo Horizonte. Segundo o Corpo de Bombeiros, a vítima estava na garupa de uma motocicleta de aplicativo. Durante uma tentativa de ultrapassagem, o motociclista e a passageira caíram no chão e o coletivo atingiu a mulher.
Motociclista desde 1976, o consultor em Mobilidade e Segurança Viária, Osias Batista, explica que a "exposição maior" de motociclistas e garupas ajuda a explicar a diferença. Segundo ele, enquanto o pedestre está mais vulnerável principalmente no momento em que atravessa uma via, quem está sobre uma moto permanece em contato constante com os demais automóveis.
“Ele é um pedestre em cima de uma moto. É uma pessoa totalmente desprotegida que, ao contrário do pedestre, está andando a 60, 70, 80 km por hora no meio dos carros. Então, o potencial de risco da pessoa em cima da moto é muito mais alto do que o potencial do pedestre”, afirmou Osias.
Falta de experiência preocupa
Osias Batista também aponta o crescimento do número de motociclistas que trabalham com entregas por aplicativo como um fator que mudou o perfil do trânsito. Segundo ele, muitas pessoas entram nesse mercado logo após obter a habilitação, sem treinamento específico para as situações que encontram nas ruas.
O coro em torno da falta de experiência é engrossodo pelo secretário-geral do Sindicato dos Motoboys e Mototaxistas do Estado de Minas Gerais (Sindimoto-MG), Gecimar Oliveira. Ele afirma que muitos profissionais entram no mercado depois de tirar a carteira de habilitação e começam a trabalhar sem ter vivência suficiente no trânsito.
Gecimar também cita o uso do celular como um problema entre motociclistas, motoristas e pedestres. Segundo ele, entregadores acabam acompanhando notificações enquanto pilotam, desviando a atenção da via.
Especialista defende aumento da fiscalização e sindicato cobra por infraestrutura em BH
Osias defende o aumento da fiscalização como uma das medidas mais imediatas para reduzir as mortes. Ele afirma que motociclistas cometem com frequência infrações como avanço de sinal, circulação na contramão, passagem sobre calçadas e conversões proibidas, o que aumenta o risco de acidentes.
O consultor também considera necessário mudar o processo de formação dos motociclistas. Para ele, a preparação atual não reproduz as situações que o condutor encontrará depois de habilitado.
“Não dá para você pegar um menino, fazer ele treinar numa pista fechada e, no dia seguinte, ele já estar montado na moto, se cadastrando em um aplicativo de entregas ou fazendo mototáxi, com uma pessoa na garupa dele andando no Anel Rodoviário ou na avenida Cristiano Machado, por exemplo”, destaca.
O representante do Sindimoto-MG, por sua vez, cita problemas de infraestrutura e trânsito entre as reclamações mais frequentes dos profissionais. Engarrafamentos, falta de sinalização e dificuldades de circulação são apontados por ele como fatores que aumentam a pressão sobre quem trabalha nas ruas.
Entre os locais apontados como mais complicados pelos motociclistas estão as avenidas Cristiano Machado, Amazonas e Antônio Carlos. O secretário-geral também cobra maior diálogo entre a categoria, aplicativos, empresas de logística e órgãos públicos. Segundo ele, Belo Horizonte ainda precisa ampliar estruturas específicas para motociclistas, como pontos de apoio dedicados aos entregadores, além de discutir a implantação de motofaixas.
Motofaixa é aposta da PBH
Como tentativa de melhorar a segurança viária e organizar a circulação de motos em vias de grande fluxo, a Prefeitura de Belo Horizonte irá implantar a primeira “Faixa Azul” (motofaixa). Será na Via Expressa. Segundo a PBH, medidas preliminares já foram adotadas, como a realocação de postes pela Cemig. No entanto, o prazo não foi informado.
"Cabe ressaltar que a obra de implantação da motofaixa será executada em conjunto com a recuperação integral da via, o que inclui novo pavimento e substituição completa das defensas metálicas. Trata-se, portanto, de uma intervenção completa na via, que demanda maior planejamento e investimento", informou a PBH.
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