TÁ NA JUSTIÇA

MPF aponta crise humanitária e pede intervenção para salvar povo indígena Maxakali em Minas

Ação ajuizada pede que a Justiça reconheça um “Estado de Coisas Inconstitucional” diante de índices alarmantes de mortalidade infantil, falhas na saúde e violações de direitos fundamentais

Ana Luísa Ribeiro
aribeiro@hojeemdia.com.br
Publicado em 16/07/2026 às 19:13.Atualizado em 16/07/2026 às 19:47.
 (MPF)
(MPF)

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública para que a Justiça Federal reconheça a existência de um “Estado de Coisas Inconstitucional” na assistência prestada ao povo indígena Tikmũ’ũn Maxakali, no Vale do Mucuri, em Minas. A medida, divulgada nesta quinta-feira (16), pede uma ampla reformulação das políticas públicas destinadas à comunidade após estudos apontarem uma crise humanitária, marcada por elevada mortalidade infantil, deficiência nos serviços de saúde, falta de infraestrutura sanitária e sucessivas violações de direitos fundamentais. 

Na ação, o MPF requer que a União, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Estado de Minas Gerais e os municípios de Bertópolis, Ladainha, Santa Helena de Minas e Teófilo Otoni sejam obrigados a adotar medidas estruturais para reorganizar a assistência ao povo indígena. O objetivo é promover mudanças permanentes e coordenadas nas áreas de saúde, saneamento e proteção social. 

O pedido tem como base um estudo elaborado pelo Laboratório Interdisciplinar e Interepistêmico em Saúde Coletiva (LISC), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que revela uma grave distorção demográfica entre os Maxakali.

Segundo os dados apresentados pelo MPF, a mortalidade de crianças indígenas com menos de 1 ano é dez vezes maior do que entre crianças não indígenas da mesma região. Entre 1 e 4 anos, a proporção de mortes chega a ser 30 vezes superior. Além disso, apenas 2,4% da população Maxakali ultrapassa os 60 anos de idade. 

Para o procurador da República Edmundo Antônio Dias, autor da ação, o processo busca promover uma mudança estrutural para enfrentar um cenário de abandono e desigualdade que, segundo o MPF, compromete a sobrevivência da etnia. 

Mudanças na saúde e na infraestrutura

Entre os pedidos apresentados à Justiça estão a construção de uma nova Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) na Aldeia Pradinho, reformas e ampliações em outras unidades. Além de implantação de plantões noturnos e nos fins de semana, criação de protocolos de “vaga zero” para atendimento hospitalar prioritário, fornecimento regular de água potável e capacitação obrigatória dos profissionais de saúde para atendimento intercultural, com reconhecimento das práticas tradicionais dos pajés. 

O MPF também propõe a criação de um grupo de trabalho interinstitucional, com participação de órgãos públicos, universidades e entidades técnicas, para elaborar e acompanhar um plano permanente de enfrentamento da crise, com participação da comunidade indígena e monitoramento da Justiça Federal. 

Estrutura da Funai e indenização

A ação sustenta ainda que a falta de estrutura da Funai na região agrava o cenário de vulnerabilidade. Segundo o MPF, as unidades do órgão em Teófilo Otoni e Santa Helena de Minas contam com apenas um servidor efetivo cada, além de operarem frequentemente sem veículos e motoristas suficientes, dificultando o atendimento às aldeias. 

Além das medidas estruturais, o Ministério Público pede que União, Estado de Minas Gerais e os quatro municípios sejam condenados ao pagamento de indenização por danos morais coletivos entre R$ 4 milhões e R$ 10 milhões, valor que, se houver condenação, deverá ser destinado ao próprio povo Tikmũ’ũn Maxakali para financiamento de projetos socioambientais. 

Outro ponto da ação trata da correção dos sistemas de proteção contra descargas atmosféricas nas aldeias. O MPF afirma que falhas nos para-raios já provocaram acidentes graves e mortes, motivo pelo qual pede a adequação dos equipamentos antes do próximo período chuvoso. 

O Governo Federal, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Governo de Minas e as prefeituras de Bertópolis, Ladainha, Santa Helena de Minas e Teófilo Otoni foram procurados . Não houve retornos até a publicação desta reportagem.

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