Tentativa de freio

PBH aposta em faixa exclusiva para reduzir média de 50 acidentes com motos por dia

Capital soma 4.888 acidentes envolvendo motos só nos primeiros três meses deste ano

Bernardo Haddad
@_bezao
Publicado em 04/05/2026 às 07:13.
Na capital mineira, a maioria das vítimas de acidentes com moto que apresentam ferimentos graves é levada para o Hospital João XXII (Rafael Assis/Arquivo Agência Minas)
Na capital mineira, a maioria das vítimas de acidentes com moto que apresentam ferimentos graves é levada para o Hospital João XXII (Rafael Assis/Arquivo Agência Minas)

Só nos primeiros três meses deste ano, Belo Horizonte soma 4.888 acidentes envolvendo motos, média alarmante de 54 por dia. Dezessete pessoas perderam a vida. Os dados reforçam o alerta para a urgência de medidas que protejam pilotos, motoristas e pedestres. Uma das apostas da prefeitura para “frear” as ocorrências é a implantação de faixas exclusivas para motocicletas nas vias da cidade.

Os dados do Observatório de Segurança Pública de Minas mostram a Cristiano Machado no topo das ocorrências envolvendo os veículos de duas rodas, com 222 acidentes - a avenida que liga a região central de BH ao Vetor Norte também lidera os registros envolvendo os demais automóveis. Na seguida estão Antônio Carlos (156) e Anel Rodoviário (140). A lista segue com Contorno (138), Amazonas (95), Andradas (88) e Dom Pedro II (79).

Para o consultor em Mobilidade e Segurança Viária, Osias Batista, o cenário é reflexo direto de uma formação precária dos motociclistas. Ele critica o modelo de habilitação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que exige exames em pistas fechadas, “sem tráfego real”. 

“O condutor é habilitado em um dia e no outro está no Anel Rodoviário ou na Cristiano Machado, transportando carga ou vidas, sem nenhuma qualificação técnica ou conhecimento dos riscos”, afirma o especialista.

Batista ressalta que, em vias como a Cristiano Machado e a Antônio Carlos, as faixas estreitas e as características do trânsito da capital mineira aumentam o perigo. “Os carros não andam exatamente na faixa, eles oscilam nessas vias e o espaço para a moto varia. O motociclista entra ali e fica sempre em situação de risco constante”. 

Além disso, o consultor aponta que a falta de respeito às normas básicas, como semáforos e placas de pare, potencializa a letalidade, especialmente quando o motociclista excede os limites de velocidade.

Faixa Azul ocupará 16 km da Via Expressa

Como tentativa de melhorar a segurança viária e organizar a circulação de motos em vias de grande fluxo, a Prefeitura de Belo Horizonte irá implantar a primeira “Faixa Azul” (motofaixa) da capital em caráter experimental. O projeto ocupará 16 km da Via Expressa, abrangendo as avenidas Juscelino Kubitschek e parte da Teresa Cristina - vias que aparecem no ranking de acidentes com 56 e 20 registros, respectivamente.

Prefeito de BH, Álvaro Damião informou que o objetivo é regularizar o corredor que os motociclistas já utilizam informalmente. “A moto faixa foi implementada com sucesso em outros locais e virá para Belo Horizonte. Muita gente vai falar que os motociclistas já andam ali, entre um carro e outro. Então vamos criar um corredor para dar a ele mais tranquilidade, mais condições para trafegar. Estamos pensando em preservar a vida das pessoas”. 

Sucesso depende de 'fiscalização rigorosa'

Para Osias Batista, o modelo pode apresentar resultados positivos na capital mineira, como ocorreu em outras metrópoles como São Paulo. Contudo, o especialista alerta que a eficácia depende de uma fiscalização rigorosa. 

“Estudos indicam que ajuda bastante (implantação da Faixa Azul). No entanto, tem um inconveniente seríssimo, porque precisa de ter uma fiscalização muito forte. Enquanto o tráfego geral anda a 60 km/h, há motociclistas andando a 90 ou 100 km/h. Então, qualquer ocorrência que aconteça nessa velocidade, o motociclista vai morrer”, afirmou. 

O especialista observa ainda que a solução dificilmente poderá ser replicada em todas as avenidas de BH, já que muitas vias estreitas não possuem largura suficiente para comportar o corredor sem eliminar faixas destinadas a carros e ônibus.

“Muitas vias em Belo Horizonte são vias estreitas, que significa que para você considerar uma faixa de motocicleta, você tem que tirar uma faixa de carro que serve para carro, ônibus e caminhão. Essas vias, como a Cristiano Machado, já têm um problema seríssimo de capacidade viária e certamente não vão conseguir faixa de motociclistas nesses trechos”, destaca.

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por