VÍDEO: monumento do Clube da Esquina é vandalizado com tinta vermelha em BH
Placas do memorial, no bairro Santa Tereza, foram atingidas nesta sexta-feira (23); responsáveis ainda não foram identificados e imagens de câmeras são analisadas

O monumento do Clube da Esquina, um dos símbolos da música mineira, foi vandalizado com tinta vermelha no bairro Santa Tereza, na região Leste de Belo Horizonte. O ataque foi constatado na manhã desta sexta-feira (23), quando placas do memorial, localizado no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, foram encontradas cobertas pelo produto, que deixou marcas semelhantes a sangue. A autoria e as circunstâncias do ato ainda são desconhecidas.
O espaço, situado na altura do número 215 da rua Divinópolis, é um ponto de referência para admiradores do movimento musical que reuniu nomes como Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta e Beto Guedes. No chão, foram encontrados um pote de tinta e luvas.
O episódio provocou indignação entre familiares de artistas, moradores e pessoas ligadas à preservação do patrimônio cultural. A possibilidade de motivação política foi levantada por pessoas que estiveram no local, mas ainda não há confirmação sobre a intenção dos responsáveis.
‘Temos que decidir qual legado vamos deixar’, diz Yé Borges
Irmão do cantor Lô Borges, Yé Borges lamentou o ataque e relacionou o episódio ao que considera um crescimento da intolerância e da violência no país. “É triste, mas eu não estou impressionado com isso. Isso era esperado. O que a gente tem visto no país hoje é o acirramento da violência e do ódio”, afirmou.
Apesar da indignação, ele defendeu que a reação ao vandalismo não seja marcada pelo mesmo sentimento. “Nós temos que tomar muito cuidado para não deixar que o ódio, que às vezes é um sentimento que você, quando é atacado, a nossa tendência é revidar”, disse.
Yé também fez um apelo à reflexão sobre o legado deixado às próximas gerações. “Nós não somos eternos. Então, nós temos que prestar muita atenção no legado que vamos deixar para quem fica, nossos filhos, nossos netos, se vai ser um legado de amor ou de ódio”, declarou.
Responsáveis pela revitalização lamentam danos
A arquiteta Bruna de Sá, responsável pelo projeto de revitalização do espaço ao lado de Chico Casarões, lamentou a depredação. A intervenção, concluída em 2024, incluiu a recuperação da fachada e a criação de uma calçada da fama para homenagear os artistas ligados ao Clube da Esquina. “Quisemos valorizar todo esse movimento cultural que é o Clube da Esquina. É um movimento inteiramente cultural”, explicou.
Para Bruna, o vandalismo representa uma falta de respeito à história preservada naquele endereço. Segundo a arquiteta, será necessário realizar uma nova intervenção para retirar as marcas deixadas pela tinta. “A gente chega hoje e vê essa depredação do patrimônio. É triste essa não valorização da história que aqui já ficou registrada como Clube da Esquina”, afirmou.
‘É agredir a identidade do povo mineiro’
A deputada estadual Bella Gonçalves classificou o vandalismo como um ataque à cultura e à democracia. Para ela, o significado do episódio vai além dos danos materiais provocados no memorial. “Isso aqui é agredir a identidade do povo mineiro, que é constituída também por toda a história democrática e de resistência da música mineira através do Clube da Esquina”, afirmou.
A parlamentar associou o episódio ao clima de tensão política às vésperas do segundo turno das eleições, marcado para domingo (25). Segundo ela, houve relatos de pessoas que teriam ouvido gritos de “Fora Lula” durante a noite, nas proximidades do local. “Para mim, isso aqui é um recado muito claro antidemocracia e anticultura”, declarou.
Apesar das suspeitas, não há confirmação de que o vandalismo tenha motivação política ou de que os gritos relatados estejam relacionados ao ataque. Bella afirmou que cobrará uma investigação para identificar os responsáveis.
Imagens de câmeras podem ajudar a identificar responsáveis
A professora Graziela Mello Vianna, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirmou que moradores da região conseguiram imagens que poderão auxiliar na apuração do caso. Graziela, que também mora na região, disse ter sido surpreendida pelo vandalismo e destacou o caráter cultural e democrático do espaço. “É um horror, uma demonstração de força, de violência num lugar que a gente conversa com as pessoas”, afirmou.
A responsável pelo acervo do Clube da Esquina, Virgínia Câmara, também condenou o episódio. Segundo ela, a equipe busca imagens de câmeras de segurança para tentar identificar os envolvidos. “Temos inúmeros fãs do Clube da Esquina, de todas as raças, credos, cores, posições políticas também. A gente não faz ideia de quem foi que chegou a esse absurdo de fazer esse tipo de vandalismo”, disse.
Virgínia ressaltou que o movimento musical reúne admiradores de diferentes posições políticas. “O nosso palco respeita todos e as pessoas neste país democrático e livre podem também expressar os seus pensamentos, e nunca desta forma”, afirmou.
Memorial ainda não é tombado individualmente
O Clube da Esquina é alvo de um processo de reconhecimento como patrimônio cultural de Minas Gerais, mas o procedimento ainda não foi concluído. Segundo Graziela, ela coordena uma proposta que deverá ser formalizada entre a UFMG e o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) para o reconhecimento do movimento como patrimônio estadual.
Bella Gonçalves afirmou que uma emenda parlamentar de sua autoria permitiu avançar com o processo de inventariamento. A deputada também defendeu maior proteção ao memorial.
Procurada, a Fundação Municipal de Cultura esclareceu que, embora o monumento esteja dentro do perímetro do Conjunto Urbano Bairro Santa Tereza, protegido pelo Patrimônio Cultural Municipal, a estrutura em si não é tombada.
Em nota, a Guarda Civil Municipal de Belo Horizonte informou que uma equipe esteve no local. Como não se trata de um bem público municipal, os responsáveis foram orientados a registrar a ocorrência junto aos órgãos competentes.
Até o momento, não foram divulgadas informações oficiais sobre a identificação de suspeitos.
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