David Braga*

Em tempos de redes sociais, alcance instantâneo e opiniões amplificadas em segundos, o posicionamento deixou de ser apenas uma escolha pessoal e passou a ser um ato estratégico, sobretudo para quem ocupa espaços de liderança, influência ou representação institucional. Ter opinião é legítimo, necessário e saudável em qualquer democracia. O problema começa quando essa opinião é comunicada sem reflexão sobre impacto, contexto e consequência.
Não se trata de ficar em cima do muro, afinal a neutralidade absoluta, muitas vezes, é apenas uma forma elegante de omissão. Mas há uma diferença clara entre ter valores bem definidos e usar o poder de voz para alimentar a polarização. Em um Brasil já profundamente dividido, onde o debate público frequentemente se transforma em confronto, a forma como líderes, empresas e comunicadores se posicionam importa tanto quanto o conteúdo do posicionamento em si.
É preciso cautela com ideologia: marcas servem públicos plurais e, ao adotar discursos excludentes ou antagonistas, fazem escolhas estratégicas que afetam alcance, reputação e resultados. Casos recentes, como os desgastes da Disney, os boicotes à Starbucks e a repercussão do posicionamento de Zezé di Camargo, mostram que, em contextos polarizados, a forma de se posicionar pode custar mais do que a intenção. Isso não significa que empresas e líderes devam ser apáticos ou indiferentes às grandes questões sociais.
Pelo contrário. Há causas que exigem posicionamento, especialmente quando envolvem direitos humanos, ética, legalidade e dignidade. O ponto central está na forma, ou seja, no “como se posiciona”. Há uma diferença substancial entre defender princípios universais e transformar discursos políticos em instrumentos de divisão. Quando o tom se sobrepõe ao propósito, a mensagem se perde e o efeito costuma ser o oposto do desejado.
O Brasil vive um momento em que o excesso de ruído compromete a escuta, e a urgência por likes muitas vezes substitui a responsabilidade pela palavra. Por isso, talvez o maior desafio contemporâneo não seja escolher um lado, mas escolher como ocupar o espaço público. Comunicação é poder e todo poder exige responsabilidade.
Ser estratégico, hoje, passa por entender que posicionamento não é vencer debates, mas construir pontes. Em um país marcado por desigualdades e tensões históricas, estimular empatia, ampliar repertórios e reduzir antagonismos pode ser mais transformador do que qualquer discurso inflamado. No fim do dia, liderar uma empresa, uma marca ou uma audiência é menos sobre convencer e mais sobre conectar. Isso, sim, é humanizar - algo que precisamos retomar e aprofundar; não é mesmo?
*CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search. Conselheiro de Administração e professor pela Fundação Dom Cabral, Presidente da ABRH-MG, VP do Conselho de RH da ACMinas e Presidente do Conselho de Administração da ONG ChildFund Brasil